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Mistérios de uma igreja: Médico sepultado vivo, fiel quase enterrado e corcunda de Notre Dame cuiabano

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2026

Tricentenária, Cuiabá abriga templos religiosos com praticamente a mesma idade de fundação da capital, dos quais vários deles possuem mistérios e fatos curiosos. A Igreja Senhor dos Passos, situada na Rua 7 de Setembro, no Centro Histórico de Cuiabá, é um deles.

Fundada em 1792, reformada em 1898 pelo bispo Dom Carlos Luís D’ Amour, e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a igreja possui histórias que vão desde um devoto que pagou promessa ao quase ser enterrado vivo, um ‘corcunda de Notre Dame cuiabano’, e até um médico sepultado em seu interior, o que era proibido pelas leis religiosas da época.

Médico enterrado na igreja

Enterrar os mortos nas igrejas era algo comum no Brasil Colonial. Acreditava-se que enterrado no local sagrado estaria mais próximo de Deus, com garantia da salvação da alma. Fiéis membros da elite e do clero eram enterrados no interior das igrejas. Contudo, era necessário ser adepto da religião católica.

Não era o caso do médico de origem alemã, August Frederich Müller. Patriarca da família Muller, foi pai do intendente cuiabano Júlio Frederico Muller e avô do ex-senador mato-grossense Filinto Muller.

Luterano, ele nem mesmo poderia ser enterrado em um cemitério católico. No entanto, “Augusto”, como era chamado, foi enterrado na Igreja Senhor dos Passos em segredo.

Nascido no ano de 1818 em Neubrandenburg, na Alemanha, August deixou o país de origem aos 26 anos. Obstetra e oftalmologista, havia ganhado uma bolsa de estudos e mudou-se para o Brasil pesquisar doenças tropicais, tendo se estabelecido em Cuiabá.

Ao Primeira Página o memorialista e administrador da página Cuiabá de Antigamente, Francisco das Chagas Rocha, conta que o médico passou por Diamantino, em 1843. Ao contrair malária, como não havia médicos na cidade, procurou a casa do prefeito para conseguir ajuda.

Lá conheceu a viúva Brígida Albertina Pinto de Vasconcelos, filha do prefeito, um rico imigrante português, com minas de ouro no norte da província.

August e Brígida se casaram em 1848, mas, como ele era luterano, a cerimônia não poderia acontecer na Igreja Católica, que a noiva e a família normalmente frequentavam. Em vez disso, casal fez seus votos na casa de um amigo e então se estabeleceu em Cuiabá, onde teve dois filhos.

Tragicamente, August morreu justamente em função de uma das doenças tropicais que o motivou a vir ao Brasil pesquisar: a malária. Ele faleceu aos 33 anos, em 24 de março de 1851.

Conforme Chagas, em tese, August não poderia ser enterrado no Cemitério da Piedade, por não professar a fé católica. O sepultamento de protestantes naquele local era proibido.

Porém, o tio da esposa dele, o cônego José Joaquim de Vasconcelos Pinto, esperou anoitecer para enterrar seus restos mortais em segredo na Igreja Senhor dos passos.

A “descoberta” do túmulo na Igreja veio anos depois, revelado pelo tio da esposa do médico alemão. Ainda hoje, seus restos mortais estão no local.

Não há fotos ou registros de imagem de August. Nascido pouco depois da criação da primeira máquina fotográfica prática em Paris, por volta de 1839, o aparelho só chegou ao Brasil anos depois, no Rio de Janeiro.

Fiel voltou dos ‘mortos’ e ajudou fundar igreja

Outro fato curioso relacionado a Igreja Senhor dos Passos é a história de José Manoel “Cova”. Segundo o memorialista Francisco de Chagas Rocha, a igreja foi fundada com ajuda financeira do devoto após uma experiência traumática ao sobreviver à epidemia de varíola que devastou Cuiabá em 1867.

O relato foi resgatado por Francisco, por meio de trecho de uma nota publicada por Firmo Rodrigues, no antigo jornal A Cruz. A narrativa conta que José Manuel era um comerciante português que morava na Rua 13 de Junho, em um trecho que ficou conhecido como Lavra Pão.

Naquele período, Cuiabá enfrentava uma das maiores tragédias sanitárias de sua história. A epidemia de varíola, que atingiu a cidade e provocou milhares de mortes e reduziu drasticamente a população quase a metade.

Diante do grande número de mortos, soldados do Batalhão de Artilharia eram responsáveis pela remoção dos corpos. Como as valas abertas no cemitério do Cai-cai não eram suficientes, muitos cadáveres acabavam sendo reunidos para serem incinerados.

Foi nesse cenário que José foi dado como morto.

Segundo o relato reproduzido por Firmo Rodrigues, os soldados encontraram o português em estado extremamente debilitado e acreditaram que ele morreria em poucas horas. Por isso, levaram-no até o cemitério do Cai-cai.

Já no local, ao anoitecer, José foi colocado junto a um monte de cadáveres e deixado para que o trabalho de incineração fosse realizado no dia seguinte. Acontece que, durante a madrugada, o homem despertou.

Ao perceber que estava cercado por corpos e que poderia ser queimado junto com os mortos, José reuniu forças e começou a se arrastar de volta para casa. O caminho, segundo a narrativa, foi feito por locais ermos.

Ao chegar à residência, porém, encontrou outro cenário de horror. A casa havia sido saqueada e praticamente tudo o que possuía tinha desaparecido. Entre roupas velhas e peças espalhadas pelo chão, entretanto, encontrou um colete. Era justamente no bolso da peça que José guardava as economias.

Ao apalpar o bolso, teve a surpresa de descobrir que o dinheiro permanecia intacto.

A sobrevivência diante da epidemia e o reencontro com suas economias teriam levado José Manuel a cumprir uma promessa. Conforme o relato de Firmo Rodrigues, ele havia feito um voto de construir a Igreja do Senhor dos Passos caso sobrevivesse. Depois de se recuperar, teria cumprido.

Foi justamente a relação com o episódio do cemitério que teria dado origem ao apelido pelo qual ficou conhecido: Manoel “Cova”.

Segundo relato lido pelo memorialista Francisco Chagas, José Manuel despertou entre cadáveres e conseguiu escapar antes de ser incinerado. – Vídeo: Reprodução

‘Corcunda de Notre Dame Cuiabano’

Existe ainda a lenda de “Totó Onça”, que seria um tipo de “Corcunda de Notre Dame cuiabano”, que durante quase 30 anos foi o responsável por tocar o sino da igreja.

O Corcunda de Notre Dame é um romance de autoria do escritor francês Victor Hugo, publicado em 1831. A obra gira em torno de um homem coxo e deformado que ganhou o nome de Quasímodo.

Segundo os relatos, Totó tocava o sino para anunciar à comunidade quando haviam missas, mas também alguém falecia, o que era comum principalmente na época da epidemia de varíola na capital.

Francisco das Chagas mostra torre da Igreja Senhor dos Passos onde ficam sinos. – Vídeo: Reprodução

Fonte: primeirapagina

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