Saúde

Descubra o impacto dos cogumelos mágicos na vida dos peixes: resultados surpreendentes!

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

O salmão é composto por 50% de sal – os outros 50% são “mão”. Nesse mesmo clima de piadas de tiozão envolvendo peixes, podemos dizer que a espécie Kryptolebias marmoratus, com seus corpinhos de em média 3 centímetros de comprimento, tem uma composição de 100% ódio.

Habitando áreas litorâneas do sul do Brasil até a costa da Flórida, esses seres miúdos são adaptados à vida em águas meio-doces, meio-salgadas (as chamadas salobras). Eles são principalmente conhecidos por serem mal-encarados: o K. marmoratus é um bicho extremamente territorial, e ataca quando vê um indivíduo da mesma espécie por perto.

Como fazer para que um animal tão agressivo fique mais… de boa? Um estudo publicado nessa quarta-feira (6) traz uma possível resposta para lá inusitada: drogá-los com cogumelos alucinógenos.

No novo experimento, uma equipe de cientistas canadenses deu psilocibina – o composto psicoativo produzido pelos “cogumelos mágicos” – a peixes da espécie. O resultado? Os animais não só ficaram mais calmos como também consideravelmente mais preguiçosos.

Os achados, publicados no periódico Frontiers in Behavioral Neuroscience, sugerem que a psilocibina pode inibir comportamentos agressivos em animais, sem suprimir a interação social entre indivíduos por completo. Para o campo de pesquisa dos psicodélicos, tais evidências são inéditas, e trazem pistas que podem ajudar a entender os possíveis efeitos terapêuticos dessas substâncias em seres humanos.

Alguns fatores fizeram com que os peixes do complexo K. marmoratus fossem a cobaia perfeita para o novo experimento. Primeiro, o temperamento naturalmente agressivo: é comum que esses animais avancem sobre outros peixes rapidamente, como num disparo de alerta. Por mais que nem sempre o ataque chegue a tocar o outro indivíduo, o movimento representa uma escalada direta de agressão – e requer muita energia.

Além disso, essa espécie também é capaz de se autofecundar. Assim, os indivíduos se reproduzem criando embriões geneticamente idênticos, o que ajuda os pesquisadores a identificar quais mudanças no comportamento foram causadas especificamente pela exposição à psilocibina, e não por diferenças genéticas (já que os genes são iguais).

A psilocibina, por sua vez, é um dos psicodélicos mais estudados pela ciência. Presente em mais de 200 espécies de fungos, essa substância é geralmente consumida por meio dos “cogumelos mágicos”, e atua no cérebro de mamíferos se conectando aos receptores de serotonina. É essa conexão que, em humanos, causa as “viagens” pelas quais as drogas alucinógenas são conhecidas.

De maneira similar, a mesma substância já se mostrou capaz de influenciar o comportamento de outros animais, como porcos, camundongos e, é claro, peixes.

Como os peixes ficaram de boa

No experimento, os peixes foram divididos em três grupos, de linhagens distintas entre si, reproduzidos em laboratório. O primeiro, o grupo focal, seria exposto à psilocibina dissolvida na água, e o segundo, sóbrio, funcionaria basicamente como alvo das agressões do primeiro.

O terceiro grupo seria usado para analisar a absorção da substância pelo corpo dos peixes, como uma maneira de testar quais concentrações do composto de fato teriam algum efeito nos animais usados e de que forma. Também serviram para certificar que a quantidade dada aos peixes seria comparável a doses terapêuticas administradas em seres humanos.

O objetivo da primeira etapa foi conseguir uma linha de base. Para ter uma ideia de como os peixes interagiriam em condições normais, os dois primeiros grupos, ambos sóbrios, foram despejados dentro do mesmo tanque de água, separados por uma barreira de malha. Pela divisória, os peixes conseguiam ver e cheirar seus adversários, mas não tinham meios para consumar qualquer agressão física. Por quinze minutos, os cientistas deixaram os dois brigando antes de retirá-los do tanque.

No dia seguinte, os peixes do primeiro grupo receberam o que os autores descrevem como um “banho de psilocibina”, e ficaram imersos na solução com a droga por um período de vinte minutos.

Como se esperava, a onda bateu, e, quando voltaram ao tanque com os outros peixes, o grupo focal se mostrou menos ativo e socialmente interessado. Ou seja, o tempo que os peixes passavam se movimentando agora era bem menor, ao mesmo tempo que pareciam mais relaxados.

A presença dos possíveis adversários também chamou menos a atenção deles – as nadadas em proximidade à barreira diminuíram e as exibições laterais (quando os peixes nadam lado a lado com o oponente para exibir o próprio tamanho) também se tornaram mais raras.

Mais relevante, porém, foi o fato de que os peixes alterados reduziram significativamente as investidas enérgicas que costumavam lançar sobre seus oponentes. Esse tipo de ação requer muita energia, mas os indivíduos sob o efeito do psicoativo pareciam relaxados demais para investir todo esse esforço.

“O efeito calmante da psilocibina parece reduzir seletivamente comportamentos intensos e energeticamente custosos, enquanto comportamentos de exibição social de menor gasto energético permaneceram em grande parte inalterados”, disse, em nota, a pesquisadora Dayna Forsyth, que liderou o estudo. “Isso sugere que esse composto pode atenuar seletivamente conflitos sociais intensificados, em vez de simplesmente suprimir o comportamento por completo.”

A relevância disso tem a ver com a forma como a psilocibina influencia as interações sociais. Saber que a psilocibina reduz interações intensas sem cortar totalmente a socialização pode ajudar pesquisas futuras com a substância a entender mais especificamente como a droga pode modular, entre outras coisas, o comportamento humano.

…por quê?

Os leitores mais assíduos da Super podem estar pensando: ué, não foi mês passado que cientistas drogaram peixes com cocaína? Que obsessão é essa com dar droga para peixe?

Bem, nos dois casos, os motivos são, de fato, perfeitamente científicos, ainda que os dois estudos não tenham relação entre si. As coisas sendo estudadas são diferentes: enquanto, da última vez, pesquisadores queriam observar como os níveis de cocaína que já estão presentes no oceano (por causa da poluição humana) afetavam o comportamento de salmões, agora, a ideia é entender como a psilocibina muda o comportamento de animais no contexto mais geral da pesquisa de substâncias psicoativas.

O campo da pesquisa dos psicodélicos tem reemergido em tempos recentes após um hiato de décadas que seguiu a proibição mundial dessas substâncias a partir dos anos 1970. Justamente por atuarem como simulacros da serotonina no cérebro, essas substâncias têm mostrado potencial clínico para o tratamento de condições como a depressão e o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), reduzindo sintomas como os “pensamentos ruminantes” (quando um evento inoportuno do passado fica dando voltas sem parar na cabeça).

Atualmente, cientistas têm entendido melhor como os psicodélicos embaralham a conexão funcional entre as regiões do cérebro ou estimulam a neuroplasticidade com efeitos relativamente duradouros. As evidências que o novo estudo traz, por sua vez, podem ajudar a entender o potencial que compostos psicodélicos têm de ajudar na socialização de pessoas com depressão ou ansiedade – transtornos que notadamente debilitam o comportamento social.

Ainda assim, é necessário cautela para interpretar todas essas informações. Faltam estudos sobre os efeitos de longo prazo dessas substâncias, incluindo possíveis efeitos adversos; assim como não se sabe ao certo o quão duradouro o efeito calmante da psilocibina pode ser.

E, claro, não é possível transpor tão diretamente os resultados obtidos em peixes para seres humanos. Mas a vantagem é que, olhando para eles, conseguimos algumas pistas – como as áreas específicas do comportamento mais sensíveis à psilocibina – que seriam impossíveis de testar em nós, seres humanos.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo