A análise genética de fósseis começou a se desenvolver nos anos 1980. Desde então, pesquisadores têm revisitado achados arqueológicos com novas técnicas para desvendar informações que antes eram inacessíveis.
O processo, porém, é complexo e demorado. O material orgânico dos fósseis se degrada com o tempo, e o DNA raramente sobrevive por centenas de milhares de anos. Por isso, muitos estudos se concentram na análise de proteínas, que são codificadas pelos genes e podem fornecer pistas importantes sobre a composição genética dos indivíduos.
Foi justamente esse o desafio de um grupo de pesquisadores chineses, que se propuseram a reanalisar fósseis de dentes de Homo erectus datados de cerca de 400 mil anos. A espécie é uma das mais antigas do gênero Homo, ancestrais dos humanos modernos, e foi a primeira a andar de forma completamente ereta. O fóssil é anterior à nossa própria espécie (Homo sapiens), que surgiu há cerca de 300 mil anos.
A pesquisa foi liderada por Qiaomei Fu, do Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology, e publicada esta semana no periódico Nature. O trabalho analisou seis dentes de erectus, sendo cinco pertencentes a indivíduos masculinos e um a uma mulher. Os fósseis vieram de três sítios arqueológicos da China: Zhoukoudian, Hexian e Sunjiadong.
Os dentes são considerados uma fonte especialmente valiosa para esse tipo de pesquisa, porque o esmalte consegue preservar proteínas por muito tempo. Nesse caso, a análise química do esmalte revelou uma informação valiosa capaz de mudar a forma tradicional de enxergar a evolução humana – que, diga-se de passagem, está longe de ser linear.

Em todos os fósseis, os pesquisadores identificaram uma variante genética em uma proteína do esmalte dentário chamada ameloblastina. A grande questão é que essa mesma variante já havia sido encontrada anteriormente em fósseis atribuídos aos denisovanos, um misterioso grupo de hominídeos conhecido por pouquíssimos registros fósseis. Sua dispersão e tempo de existência ainda são mistérios para os cientistas.
A descoberta sugere que houve cruzamento entre Homo erectus e denisovanos. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que, há cerca de 400 mil anos, populações de Homo erectus e denisovanos se encontraram, reproduziram e tiveram descendentes. Milhares de anos depois, neandertais e Homo sapiens também se cruzariam.
Evolução dos humanos acelerou nos últimos 10 mil anos
Em estudos recentes, o DNA denisovano já havia sido identificado em algumas populações modernas. Essa nova descoberta é mais um indício da conexão entre nós e essa espécie enigmática. O DNA humano preserva os chamados “genes superarcaicos”, pequenos fragmentos herdados de espécies humanas mais antigas que participaram da nossa história evolutiva.
Trata-se da primeira evidência genética direta de cruzamento entre denisovanos e Homo erectus. Além disso, é o indício mais antigo de mistura genética entre hominídeos de diferentes espécies. A ciência já sabia que diferentes espécies humanas coexistiram na Terra durante milhares de anos, mas ainda existiam poucas evidências concretas de cruzamentos entre grupos tão antigos.
Além disso, os cientistas identificaram outra variante da mesma proteína nos dentes analisados. Até o momento, ela parece ser exclusiva do Homo erectus, já que nunca foi encontrada em nenhuma outra espécie do gênero Homo.
Fonte: abril




