Denúncias feitas por vereadores apontam que o presidente da Câmara de Várzea Grande (VG), Wanderley Cerqueira (MDB), teria ofertado R$ 500 mil em troca de apoio à sua reeleição na Mesa Diretora como forma de garantir controle administrativo sobre o Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE/VG) e o sistema de transporte coletivo operado pela União Transportes e Turismo Ltda.
“Eu vou exonerar a Prefeita, vender o DAE e nós vamos repartir o dinheiro”, teria dito Wanderley. A declaração e as acusações constam no inquérito da Operação Cathedra Venalis, deflagrada nesta terça-feira (20) contra 11 vereadores de Várzea Grande e dois da capital, Alex Rodrigues (Podemos) e Ilde Taques (Podemos).
Conforme o inquérito obtido pela reportagem do Olhar Direto, assinado pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), o DAE-VG é o centro do que as investigações classificam como “loteamento político de cargos estratégicos e a obtenção de vantagens econômicas indevidas”. Para isso, o grupo teria acordado pela reeleição de Wanderley na presidência.
Depoimento prestado por um vereador que não foi alvo aponta que Cerqueira teria interesse no processo de concessão ou privatização do DAE-VG e, para alcançar tal objetivo, distribuiria cerca de R$ 500.000,00 em propina caso a privatização da autarquia fosse concretizada.
“Afirmou que Tião da Zaeli teria lhe solicitado apoio à reeleição de Wanderley e mencionado a perspectiva de cassação da Prefeita Flávia Moretti, circunstância que, segundo o depoente, poderia conduzir Wanderley, posteriormente, à chefia do Poder Executivo Municipal. Relatou, ainda, que Wanderley manifestava interesse na concessão ou privatização do DAE e teria mencionado a possibilidade de distribuição de valores aos vereadores, estimando a quantia de aproximadamente R$ 500.000,00 para cada parlamentar, caso a operação fosse concretizada”, nos temos do inquérito. O depoimento foi acompanhado por um pen-drive contendo documentos como notas fiscais, vídeos e extrações bancárias que subsidiariam as declarações.
O Gaeco considerou como elemento que corrobora tal afirmação o vídeo no qual o então diretor-presidente do DAE-VG, Rogério França Martins, o “Rogerinho da Dakar” (PSDB), aparece recebendo maços de dinheiro em espécie como vantagem indevida das mãos de outra pessoa em um escritório, fato que levou à sua exoneração do DAE-VG pela prefeita Flávia Moretti (PL). Após deixar o cargo, ele retornou à Câmara e passou a exercer a função de líder do governo. Diante desses indícios, Dakar foi incluído na lista de investigados e o GAECO.
Foram indicados possíveis locais e formas de entrega dos valores, bem como a realização de reunião, na virada do ano de 2024/2025, na chácara do vereador Miguel Claros Paz Júnior, ocasião em que teriam deliberado acerca do apoio à eleição de Cerqueira e, segundo o depoente, assinado cartas de renúncia como garantia dos votos acordados.
No tocante à reeleição da Mesa Diretora, no mês de maio de 2026, afirmou que propostas de cooptação teriam sido apresentadas no escritório de Wanderley, local supostamente preparado para registrar clandestinamente os que aceitassem receber valores. O inquérito sustenta que “as gravações e as cartas de renúncia anteriormente assinadas teriam sido posteriormente utilizadas como instrumentos de constrangimento e pressão política (extorsão), com o objetivo de assegurar os votos necessários à reeleição à mesa diretora e, por conseguinte, a continuidade do apoio ao grupo.”
Além disso, diálogos examinados pelo Gaeco sugerem que o Cerqueira mantinha um acordo direto com Rômulo Botelho, sócio da União Transportes, cujo objetivo era garantir a manutenção do contrato com empresa e evitar que matérias legislativas de fiscalização ou questionamentos contratuais avançassem na Câmara Municipal.
Isso seria demonstrado, de acordo com um dos denunciantes, quando o grupo de Wanderley teria articulado impedir a instauração e o avanço da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o transporte coletivo e a prestação de serviços da União Transportes, o que efetivamente ocorreu em agosto, quando o Tribuna de Justiça (TJMT) acatou pedido do presidente e suspendeu os trâmites da comissão.
Entre os alvos de Várzea Grande confirmados estão: Raul Curvo – REPUBLICANOS, Braz Jaciro – PSDB, Cilcinho – PV, Wender Madureira – REPUBLICANOS, Sargento Galibert – PSB, Dr. Miguel Junior – CIDADANIA, Lucélia Oliveira – AGIR, Feitoza – PSB, Enfermeiro Emerson – PP, Wanderley Cerqueira – MDB, Alessandro Moreira – MDB e Gisa Barros – PODEMOS
A apuração tem como foco possíveis irregularidades envolvendo a Mesa Diretora da Câmara Municipal de Várzea Grande, como informações de possíveis pagamentos mensais de R$ 10 mil ofertado por Cerqueira e R$ 100 mil diretos em casa de apoio garantido à sua reeleição.
As medidas judiciais autorizadas pelo juiz Cassio Leite Barros Netto visam reunir novos elementos de prova para o aprofundamento dos trabalhos conduzidos pelo Gaeco, que justifica tal necessidade com base nas afirmações dos depoimentos denunciantes, os quais garantem que os alvos e eles próprios detém prints, áudios e vídeos que comprovariam as imputações apuradas.
O Gaeco sustentou ao juízo que esse grupo teria se dedicado à obtenção de vantagens indevidas, como propinas, cooptação de agentes públicos, práticas de corrupção e outras irregularidades, como extorsão e ameaças, com potencial impacto sobre atividades da administração pública municipal.
A ação mobilizou mais de 200 policiais e conta com o apoio de unidades especializadas do Comando Regional I, Comando Regional II, Diretoria da Agência Central de Inteligência, Batalhão de Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam), Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Regimento de Policiamento Montado (Cavalaria), Batalhão de Polícia Militar de Proteção Ambiental, RAIO e Grupos de Apoio.
Fonte: Olhar Direto





