Quem não gostaria de comer mais e ainda assim manter ou perder peso? Nos últimos meses, a “dieta reversa” (ou reverse diet) ganhou destaque nas redes sociais, principalmente no TikTok, com influenciadores prometendo que seria possível aumentar a ingestão de alimentos e não engordar.
De forma geral, a ideia da dieta reversa é aumentar gradualmente a ingestão calórica após períodos de restrição alimentar, com o objetivo de restaurar o metabolismo e evitar o ganho rápido de peso. Mas será que realmente funciona para todos?
“A dieta reversa não é uma estratégia de perda de peso. O objetivo é a suposta recuperação do metabolismo após uma dieta, e não causar déficit calórico. Não há evidências sólidas de que ela promova emagrecimento além do que já se obtém com métodos convencionais. Algumas pessoas aplicam princípios semelhantes para evitar o reganho de peso, mas os estudos controlados sobre o tema ainda são muito limitados”, explica Paula Fábrega, endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.
Como funciona a dieta reversa e para quem é indicada?
A dieta reversa visa reintroduzir calorias de forma gradual após um período de restrição alimentar, com o objetivo de restaurar o metabolismo, reduzir o ganho de peso rápido e “treinar” o corpo a consumir mais sem acumular gordura. Na prática, esse aumento costuma variar entre 25 e 200 kcal por semana, dependendo da necessidade individual.
Também conhecida como reintrodução calórica gradual, essa prática pode ser indicada por profissionais de saúde em situações específicas, como:
Atletas que passaram por cortes extremos de calorias antes de competições e precisam retomar a ingestão sem recuperar gordura rapidamente.
Pessoas que finalizaram dietas muito restritivas, para ajudar o organismo a se readaptar ao consumo de manutenção de forma controlada, com acompanhamento do peso e da composição corporal.
Prevenção de desconfortos digestivos que podem surgir quando a alimentação é aumentada de forma abrupta.
Indivíduos com sinais de adaptação metabólica, como cansaço, dificuldade para perder peso, queda de desempenho físico ou alterações hormonais após períodos prolongados de restrição calórica.
“O sucesso dessa estratégia nas redes sociais se deve ao fato de prometer um retorno ao hábito alimentar anterior sem recuperar todo o peso perdido, o que naturalmente desperta curiosidade. Mas trata-se de uma ferramenta de reprogramação e manutenção metabólica ou para adequação nutricional depois de atingir um objetivo”, explica Layla Louise, nutricionista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
A dieta reversa pode emagrecer?
Não diretamente. A dieta reversa não é indicada pelos profissionais de saúde para promover o emagrecimento.
Não há evidências de que ela permita à pessoa comer mais sem ganhar peso. Muitas vezes, a sensação de “metabolismo acelerado” está relacionada a fatores como aumento da atividade física, ganho de massa muscular ou recuperação do corpo após um período de restrição calórica.
Na prática, o organismo apenas retorna ao seu funcionamento normal, e não há comprovação científica de que subir gradualmente as calorias semanalmente consiga treinar o metabolismo de forma permanente para facilitar a perda de peso.
No entanto, a reintrodução gradual de calorias pode trazer outros benefícios, como melhora da energia, disposição e desempenho físico, além de influenciar hormônios relacionados à fome, como leptina e grelina.
Riscos da dieta reversa
Apesar de parecer simples, a dieta reversa pode gerar uma falsa sensação de “mágica”, levando algumas pessoas a aumentar demais as calorias e recuperar peso rapidamente.
“Além disso, pode sustentar ciclos de restrição e compulsão alimentar, favorecendo o efeito sanfona e prejudicando a relação com a comida. A frustração por falta de resultados concretos pode causar estresse psicológico, e, quando feita sem acompanhamento profissional, há risco de carências nutricionais ou excesso calórico”, explica Fábrega.
A pessoa pode também ter dificuldade em ajustar a dieta à rotina diária e notar impacto negativo na qualidade do sono. Alterações no humor e na disposição física podem surgir, assim como o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados na ausência de orientação adequada. E as mudanças bruscas na alimentação podem gerar efeitos negativos para a saúde intestinal.
Cuidados importantes e acompanhamento profissional
Especialistas alertam que, antes de seguir qualquer orientação sobre dieta reversa encontrada nas redes sociais, é preciso ter cautela. Entre os cuidados recomendados estão:
Conferir se quem dá as dicas é um profissional qualificado, como um nutricionista registrado no Conselho Regional de Nutricionistas, e não apenas um influenciador ou “coach fitness”.
Desconfiar de promessas milagrosas, como “emagrecer sem engordar” ou “acelerar o metabolismo”, que geralmente não têm base científica.
Ter atenção a programas pagos que não deixam claro em que evidências se fundamentam.
Lembrar que cada pessoa tem metabolismo, composição corporal e histórico alimentar diferentes. Portanto, “copiar” protocolos prontos pode gerar efeitos indesejados.
Evitar dietas que incentivem a contagem obsessiva de calorias, especialmente para quem tem histórico de transtornos alimentares.
Consultar um profissional antes de combinar a dieta reversa com outras estratégias, como jejum intermitente ou uso de suplementos, já que os efeitos combinados não têm comprovação científica.
Vale destacar que o acompanhamento de um nutricionista é essencial para que qualquer plano alimentar seja feito de forma segura e eficaz. O profissional calcula de maneira individual o gasto de energia de cada pessoa, considerando metabolismo e nível de atividade, e em seguida, define um aumento ou redução gradual e realista das calorias.
Durante o processo, o foco é manter uma alimentação equilibrada, rica em nutrientes, evitando deficiências ou excessos. O progresso é monitorado de perto por meio do peso, medidas corporais, energia, sono e outros sinais do corpo.
“Não existem contraindicações formais para realizar a dieta reversa, desde que a pessoa siga as orientações do profissional de saúde. No entanto, não há diferença entre ela e outras formas de dietas de manutenção de peso. Ainda são precisos mais estudos sobre a dieta reversa”, finaliza Andrea Pereira, nutróloga e cofundadora da ONG Obesidade Brasil.
Fonte: uol





