O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, deixou de aparecer apenas como alerta ambiental nos rios de Mato Grosso e passou a ocupar outro espaço: o dos cardápios. Considerado espécie exótica e invasora em bacias como a do Alto Paraguai e em trechos da Bacia Amazônica, como os rios Teles Pires e Juruena, o peixe tem sido encontrado com mais frequência fora de sua área natural de ocorrência e, ao mesmo tempo, se transformado em uma opção comercial e gastronômica no estado.
O movimento revela os dois lados de uma mesma história. De um lado, há o risco ambiental provocado pela presença de um predador de grande porte em ambientes onde ele não é nativo. De outro, a carne do pirarucu, de sabor mais suave e fácil preparo, passou a ser vista por chefs e restaurantes como uma alternativa para pratos tradicionais à base de peixe em Cuiabá.
Para o empresário Jhonathan Willian Maldonado Mendes, proprietário da Primus Peixaria e conselheiro da Abrasel-MT, o pirarucu já é uma realidade no mercado local, mas ainda não deve substituir os peixes mais tradicionais da culinária cuiabana.
“O pirarucu é um peixe que vem sendo oferecido para os proprietários de restaurantes em Cuiabá, por sermos conhecidos como grandes cozinheiros e consumidores de peixes. É fato que ele já está sendo comercializado em algumas casas e que seu consumo tem aumentado, mas acredito que não chegue a mudar o cenário dos peixes mais consumidos ou mesmo o tradicional consumo dos peixes na nossa cidade”, avalia.
Segundo ele, a carne menos marcante facilita a adaptação da espécie a diferentes receitas.
“Por ter uma carne com sabor menos presente, acaba sendo mais fácil de servir, pois aceita vários tipos de preparo. Pode ser frito, assado, ensopado ou grelhado. Penso que o pirarucu seja uma espécie que vem para somar, mas que não irá mudar o consumo do cuiabano”, completa Jhonathan.
Nos restaurantes, essa versatilidade já aparece em pratos que vão além do filé grelhado. O chef de cozinha Luís Lima, por exemplo, afirma que adotou o pirarucu como base para diferentes preparos.
“Hoje eu uso muito o pirarucu nos pratos. Faço pirarucu à belle meunière com camarões, com molho quatro queijos, com legumes, como uma releitura do bacalhau, além de mojica, farofa, parmegiana, empanado e frito. É um peixe muito versátil. O céu é o limite”, afirma o chef.
A entrada do pirarucu na gastronomia local ocorre justamente no momento em que órgãos ambientais e especialistas discutem os impactos da espécie fora da Amazônia. Em Mato Grosso, uma resolução do Conselho Estadual de Pesca autoriza a captura e o transporte de peixes exóticos nas bacias hidrográficas do Paraguai, Amazonas e Araguaia-Tocantins. A lista inclui o pirarucu na Bacia do Alto Paraguai e também nos rios Teles Pires, Juruena e seus afluentes.
O problema, segundo especialistas, é que o peixe não “invade” sozinho uma nova bacia. A presença dele em rios onde não deveria ocorrer está ligada, em geral, à ação humana, seja por soltura irregular ou por fuga de criadouros.
O biólogo Helder Freitas alerta que a espécie exótica não chega a outro ambiente por conta própria. Para ele, a fiscalização precisa mirar a origem do problema.
“O peixe exótico não vem por vontade própria. Alguém soltou ou escapou de criadouros na bacia do rio Paraguai. Então, a fiscalização tem que ser em cima dos criadores que estão nas margens do rio”, aponta.
O professor e pesquisador da UFMT Francisco Machado também chama atenção para a complexidade do tema. Segundo ele, o pirarucu é um peixe piscívoro, ou seja, se alimenta de outros peixes, e pode encontrar vantagem em ambientes onde não tem predadores naturais ou concorrência suficiente.
Ele explica que, quando uma espécie passa a viver em um ambiente diferente do original, o termo mais adequado, do ponto de vista biológico, não é “adaptação”, mas “adequação”. Isso porque a adaptação ocorre ao longo de milhares de anos, enquanto a adequação acontece quando a espécie encontra condições favoráveis para sobreviver naquele novo ambiente.
No caso do pirarucu, a preocupação é que ele encontre espaço, alimento e pouca competição em determinadas bacias. Por ser um peixe de grande porte e predador, pode pressionar espécies nativas e alterar o equilíbrio dos rios. Entre os peixes que fazem parte da tradição pantaneira e cuiabana, estão o pacu, o pintado, o dourado e o jaú.
Ao mesmo tempo, Francisco lembra que outras espécies exóticas também passaram por processo semelhante e se tornaram parte da economia e da alimentação, como a tilápia e o tucunaré. A diferença é que cada espécie causa impactos distintos no ambiente, e nem todas têm o mesmo comportamento predatório.
A tilápia, por exemplo, é hoje amplamente consumida e produzida comercialmente. Já o tucunaré, apesar de também ser considerado exótico em algumas bacias, ganhou espaço na pesca esportiva e em pratos regionais. O pirarucu entra nessa discussão em um ponto sensível: pode ser um produto valorizado na gastronomia, mas sua presença fora da área natural exige controle.
Para os restaurantes, o peixe representa uma possibilidade de diversificação. Para o meio ambiente, porém, a frequência com que ele aparece em rios de Mato Grosso reforça a necessidade de fiscalização sobre criadouros, transporte e manejo.
Ou seja, o pirarucu pode até somar ao cardápio cuiabano, mas sua chegada aos pratos não apaga a pergunta que preocupa especialistas: como ele chegou aos rios onde não deveria estar?
Fonte: primeirapagina





