O motivo seria o nome escolhido para batizar uma das etapas da apuração: “Elli”. Ela gerou leituras dentro do entorno presidencial de que se trataria de uma referência velada ao “Faz o L”, gesto e bordão que se tornou marca registrada das campanhas eleitorais de Lula.
Na prática, Elli pode ser um nome próprio, apesar de não haver indícios de investigados com esse nome nos inquéritos. O significado pode estar ligado também a uma palavra de origem hebraica que significa “luz” ou “o meu Deus”. A PF não se pronunciou para explicar o significado do nome da fase da operação.
Porém, a interpretação de que haveria uma provocação por trás do nome não demorou a circular entre pessoas próximas ao presidente. Aliados de Lula teriam afirmado que a escolha só poderia ter sido feita com a intenção de remeter ao bordão histórico das campanhas petistas, levantando uma suspeita de que o batismo da operação tinha viés político, às vésperas das eleições.
A defesa de Lulinha afirmou à Gazeta do Povo que recebeu a escolha do nome “Elli” com “indignação” e “perplexidade”. O advogado responsável pela defesa, Marco Aurélio Carvalho, disse ver na denominação uma possível provocação e afirmou que, caso isso se confirme, o episódio deverá ser investigado.
“A escolha do nome não é só infeliz, é criminosa. Espero que a Polícia Federal possa explicar os motivos pelos quais adotou este termo, pois não parece haver justificativa aparente para tal”, afirmou.
Para a defesa, a denominação se insere em suposta estratégia de “setores da Polícia Federal” que estariam atuando “sob interesses político-eleitorais”. A defesa afirmou que haveria uma tentativa de interferir no resultado das eleições de 2026 e classificou a investigação contra o filho do presidente como uma “perseguição implacável”.
O advogado, no entanto, fez uma ressalva em relação à direção da corporação. Afirmou manter “carinho” e “respeito profundo” pelo diretor-geral, Andrei Rodrigues, e disse considerar que ele próprio seria vítima da atuação de setores internos da instituição que, segundo sua avaliação, estariam instrumentalizados politicamente.
A PF e o Palácio do Planalto foram procurados, mas até a publicação da reportagem não haviam se manifestado. O espaço segue aberto.
Ambiente de tensão com avanço de investigações sobre Lulinha
A polêmica sobre o nome da operação se soma a um ambiente tenso dentro do Planalto com o avanço das apurações que atingem o núcleo familiar de Lula.
Segundo o texto de um dos pedidos de abertura de inquérito enviados pela PF ao STF, endereçado ao ministro André Mendonça confirmado pela Gazeta do Povo, a operação Elli teve como objetivo apurar elementos que indicariam a prática reiterada de lavagem de capitais atribuída a Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e pessoas de seu círculo de atuação financeira.
Apuração passou a incluir também a possível participação da empresária, amiga pessoal de Lulinha, Roberta Luchsinger, motivando a quebra de sigilo de Lulinha e da lobista sob suspeitas de uma sociedade oculta.
A linha de apuração batizada de Elli tentaria esclarecer se Lulinha teria se valido do parentesco com o presidente para facilitar o acesso de terceiros a estruturas do governo federal, favorecendo interesses privados a órgãos públicos e a integrantes do Poder Executivo, condição sempre negada pela defesa do filho do presidente.
Entre os pontos analisados pela PF estão eventuais tentativas de viabilizar contratos entre empresas e órgãos federais, caso do Ministério da Saúde, além da suposta atuação do filho do presidente na articulação de encontros com autoridades do alto escalão do Palácio do Planalto.
Apuração nasceu do desdobramento do caso do INSS
O caso não nasceu isolado. A apuração sobre Lulinha surgiu como desdobramento das investigações sobre o esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS, que resultou na prisão de diversos suspeitos e colocou o nome do Careca do INSS no centro do escândalo. Lulinha não é investigado nessa frente.
Segundo a defesa de Lulinha, não há nos elementos citados pela PF indicação de ato de ofício praticado em benefício dos envolvidos, suspeita de desvio de recursos públicos ou ligação direta entre Lulinha e as fraudes investigadas no INSS. Também sustenta que a ausência de comprovação de um vínculo formal entre Lulinha e Roberta afastaria a hipótese de sociedade entre os dois.
Porém, com os indícios de possível interferência política identificados ao longo das apurações, o STF autorizou a abertura de três inquéritos distintos [https://www.gazetadopovo.com.br/republica/por-que-lulinha-virou-alvo-de-3-inqueritos-com-apuracoes-relacionadas/]que investigam separadamente condutas específicas atribuídas a Lulinha e a pessoas de seu círculo de relacionamentos.
Mensagens que embasam suspeita de sociedade oculta
Parte do material que sustenta a investigação foi extraída do celular de Roberta Luchsinger, identificada nos autos como suposta lobista que atuava para viabilizar negócios de terceiros com o poder público.
As conversas tratam de transações comerciais e de possível participação de Lulinha nessas articulações. Em alguns trechos, os interlocutores discutem formas de evitar exposição pública da atuação do filho do presidente nos negócios e em tratativas.
Uma frase específica chamou atenção dos investigadores. Em determinado diálogo, Roberta afirma que o “futuro” dela e Lulinha, seria “na Suíça”, passagem que passou a integrar o conjunto de elementos analisados pela PF.
À Gazeta do Povo, a defesa de Lulinha contestou a força probatória das mensagens analisadas. Segundo o advogado Marco Aurélio Carvalho, não foi possível à defesa verificar autenticidade e integridade do material, uma vez que não teve acesso a informações suficientes sobre a cadeia de custódia das provas.
“Não sabemos se ela está íntegra, se ela está hígida”, afirmou. Para a defesa, o conteúdo das conversas “não sugere absolutamente nada além de um mero constrangimento”.
Como o Planalto teria reagido ao caso
O incômodo em torno do nome da operação Elli teria refletido uma preocupação maior dentro do governo: a de que o avanço das investigações sobre Lulinha, ainda que sem provas de irregularidades cometidas diretamente por ele, produza desgaste político à imagem do presidente às vésperas do ciclo eleitoral.
A comparação entre o nome “Elli” e o bordão “Faz o L” foi lida por aliados do petista como um gesto capaz de reforçar, à opinião pública, uma associação indesejada entre a figura do presidente e o inquérito que mira seu filho.
Até o momento, segundo investigadores, não haveria comprovações de que Lulinha tenha efetivamente se beneficiado das articulações relatadas nas mensagens nem que tenha recebido vantagem financeira decorrente da atuação da lobista com órgãos do governo federal. A apuração segue em curso e sob sigilo.
A defesa de Roberta disse que vai se manifestar nos autos. Dois inquéritos estão sob responsabilidade do ministro André Mendonça e um terceiro está com Flávio Dino.
Confira a íntegra da manifestação da defesa de Lulinha
A defesa recebeu com indignação, com perplexidade, mas sem surpresas. É parte da estratégia de setores da Polícia Federal, que instrumentalizados por interesses político-eleitorais pretendem interferir no resultado das eleições de 2026. Não há dúvida, está em curso uma verdadeira perseguição implacável. A escolha do nome não é só infeliz, é criminosa. Espero que a Polícia Federal possa explicar os motivos pelos quais adotou este termo pois não parece haver justificativa aparente para tal.
Quero aqui, entretanto, reiterar o meu carinho e o meu respeito profundo pelo diretor geral da Polícia Federal, que é uma das vítimas dessa ação política instrumentalizada por interesses eleitorais de alguns setores da corporação. Quero aqui reconhecer, louvar e aplaudir os esforços que ele tem empreendido na perspectiva de manter a corporação unida e na perspectiva de fazer jus à autonomia que foi devolvida pelo presidente Lula à Polícia Federal que havia sido capturada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro com o objetivo de blindar a sua família e os milicianos com os quais ele governou o país.
Pode ser mera provocação [a escolha do nome da operação]. Espero que a Polícia Federal esclareça. Se for de fato uma provocação, nós temos que instaurar procedimentos para apurar em que circunstâncias isso se deu.
Isso nos remete ao que houve de pior na história do sistema de Justiça do nosso país, com a finada Operação Lava Jato. É a velha estratégia de atirar a flecha e depois pintar o alvo. A estratégia de começar o processo pelo fim, com a condenação, sem respeito ao direito de defesa e ao princípio sagrado da presunção de inocência.
A própria Polícia Federal, no relatório que produziu, que é um quebra-cabeças de ilações, afirma que não há condições de atestar qualquer tipo de vínculo formal entre o Fábio e a Roberta. Portanto, foi afastada a possibilidade de existência de qualquer sociedade entre eles pela própria Polícia Federal.
As mensagens analisadas pela Polícia Federal, cuja autenticidade nós não temos condição de atestar, porque nós não conhecemos a cadeia de custódia dessa prova, não sabemos se ela está íntegra, se ela está hígida, não sugerem absolutamente nada além de um mero constrangimento. Não há ato de ofício, não há suspeita de desvio de recurso público. Não há autoridade com foro e nem tampouco relação direta ou indireta com o INSS.
Fonte: gazetadopovo





