Durante décadas, comprar uma viagem passava pela experiência de entrar em uma loja, conversar com um vendedor, escolher um pacote e sair com praticamente tudo organizado.

Nesse mercado, a CVC se tornou gigante e líder absoluta no Brasil. A empresa criada em Santo André (SP) na década de 1970 abriu capital em 2013 e viveu seu auge em 2019, quando chegou a valer cerca de R$ 10 bilhões, com as ações na Bolsa beirando os R$ 60.

A CVC ainda possui uma das maiores redes físicas do turismo brasileiro, com mais de 1.600 lojas, mas o cenário da empresa, em 2026, é outro. A companhia tem valor de mercado inferior a R$ 1 bilhão – redução de 90% na comparação com o auge. Já as ações se desvalorizaram em mais de 97% e hoje giram em torno de R$ 1,40.

O mercado está mais desafiador, sobretudo pela mudança no comportamento do consumidor, mas a perda de valor da CVC não pode ser explicada apenas pela ascensão das plataformas digitais. A empresa também carrega problemas acumulados nos últimos anos, como as distorções contábeis reveladas em 2020 e o aumento do endividamento, além de enfrentar fatores externos, como juros elevados e aumento nos custos do transporte aéreo.

Mudança no consumo atingiu modelo de negócio da empresa

“O que estamos vendo hoje é uma reorganização de como as pessoas se informam e decidem comprar viagens. Quase tudo passa pelo celular ou pela mídia que a pessoa tem mais fácil”, afirma Mariana Aldrigui, professora de Turismo Urbano da Universidade de São Paulo (USP).

A mudança favoreceu empresas digitais e permitiu ao consumidor contratar passagens, hotéis e pacotes sem sair de casa, mas atingiu em cheio o modelo de negócio da CVC, em que as vendas ocorrem nas lojas físicas.

Para a professora Mariana Aldrigui, da USP, porém, seria simplista atribuir a perda de competitividade da CVC exclusivamente à manutenção dos pontos físicos. “Não acho que seja apenas uma questão das lojas. Acho que é uma questão de apresentação de produto e de conversar com uma geração que hoje consome muito digitalmente”, afirma.

Uma das tentativas da companhia tem sido integrar os dois mundos. No novo modelo, chamado pela empresa de “figital”, o consumidor é atraído por canais digitais e encaminhado para uma loja física, onde pode concluir a compra com auxílio de um agente.

“A CVC abandonou uma disputa direta por tráfego online, adotando o figital, que utiliza canais digitais para alimentar lojas físicas”, conta Daniel Passinato, advogado especializado em M&A e mercado de capitais. Segundo ele, dados da empresa mostram que entre 50% e 60% do movimento das lojas já seria atraído pelos canais digitais.

A mudança também alterou o perfil das franquias. Em vez de depender exclusivamente de grandes lojas em áreas caras, como shopping centers, a empresa passou a estimular formatos menores e franquias em cidades onde não faria sentido manter uma estrutura tradicional.

Em 2025, a CVC abriu 160 unidades no Brasil, sendo mais da metade delas fora das capitais. A companhia também passou a trabalhar com lojas menores, quiosques e um modelo de expansão em que parte maior do investimento fica com o franqueado.

Nova estratégia ainda não tirou a CVC do prejuízo

Os números mais recentes, divulgados em 12 de agosto, referentes ao segundo trimestre de 2026, mostram que a CVC ainda enfrenta dificuldades para transformar as mudanças na operação em resultado. A receita líquida foi de R$ 332,7 milhões, queda de 4,5% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o prejuízo líquido chegou a R$ 72,5 milhões, alta de 56,2%.

A companhia, porém, gerou R$ 35,5 milhões em caixa com suas atividades operacionais no trimestre. Se a empresa vem melhorando sua operação, reduzindo custos e gerando caixa, por que isso ainda não se traduz em lucro? Para responder, é preciso voltar ao passado da empresa e a decisões que ainda impactam sua atuação, além de fatores externos à operação.

Problemas contábeis marcaram o início da crise

Depois de anos de forte expansão, marcados pela aquisição de concorrentes e pela consolidação da liderança no mercado brasileiro, no início de 2020, a CVC Corp (holding que administra a marca CVC e outras empresas do ramo) revelou ter identificado distorções contábeis nos balanços anteriores. Uma revisão independente apontou ajustes de R$ 362,4 milhões relacionados aos exercícios anteriores. O caso envolveu problemas em sistemas e controles contábeis e levou à saída de integrantes da administração.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu investigação e não há, até o momento, definição se o caso envolve fraude. Independentemente do motivo, o estrago foi feito e a confiança do mercado foi abalada.

E o momento não poderia ser pior. Pouco depois, a pandemia paralisou praticamente toda a indústria mundial de viagens. “Fizeram reorganizações internas, mudaram o controlador, mudaram a estratégia, tentaram ir para algo que estava fora do negócio principal”, afirma o economista Victor Kietzmann, que acompanha a empresa pela Smallcaps.

A CVC tentou, naquele momento, acelerar a transformação digital e chegou a investir pesado para disputar espaço no ambiente online. Porém, na avaliação de Kietzmann, a empresa acabou se afastando de características que tradicionalmente eram suas vantagens competitivas.

Juros altos dificultam recuperação

A transformação do modelo de negócio aconteceu enquanto a empresa lidava com outro problema: o endividamento. Depois da pandemia, a companhia precisou recorrer a empréstimos para manter a operação. Com a Selic em alta, o custo financeiro passou a pressionar ainda mais os resultados da empresa.

Além de antecipar o dinheiro de vendas parceladas, a empresa tem R$ 400 milhões em dívidas na forma de debêntures, que pagam juros atrelados ao CDI, mais uma taxa adicional. Desse total, R$ 80 milhões já foram quitados. A CVC conseguiu renegociar parte da dívida e reduzir os juros adicionais que paga, mas continua sujeita ao nível elevado das taxas de juros no Brasil.

Ao Valor Econômico, no dia da divulgação dos resultados do semestre, em 12 de agosto, administradores da empresa afirmaram que a CVC tem condições de honrar os pagamentos mais próximos sem novas captações no mercado.

Sobre o desempenho do segundo trimestre, os executivos disseram que fatores externos também comprometeram o resultado, com a alta do petróleo elevando preços das passagens aéreas e pressionando as margens da companhia.

Caso Apex vira mais uma pressão sobre a CVC

Se os problemas financeiros ajudam a explicar por que a recuperação operacional ainda não se transformou em lucro, outro fator recente passou a pressionar as ações da companhia: a movimentação da Apex Partners, gestora de fundos que é alvo de apuração por suspeita de fraudes. A gestora adquiriu 15% das ações da CVC Corp em abril – posição reduzida para 7,97% atualmente.

Para Kietzmann, parte da queda recente no valor das ações está relacionada à pressão vendedora feita pela Apex. O efeito, porém, tende a ser passageiro, em sua avaliação.

Apesar do cenário negativo, as fontes ouvidas pela reportagem reconhecem os esforços da atual gestão, que apontam para um rumo correto, ainda que isso não possa garantir recuperação no curto prazo.

“Existem questões que estão fora do controle da empresa, mas o que está no seu controle ela foi inteligente em direcionar esforços para o que gerou resultado de curto e médio prazo, e certamente vai gerar resultado de longo prazo”, avalia Passinato.

Para as fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, a CVC aparentemente encontrou um modelo mais coerente com suas forças, mas ainda precisa provar que consegue transformar essa melhora operacional em lucro e recuperar a confiança do mercado.

A recuperação, porém, não depende apenas das decisões da companhia. O ambiente de juros elevados no Brasil aumenta o custo da dívida e reduz o espaço para consumo e crédito, criando uma dificuldade adicional para uma empresa que ainda tenta recuperar a rentabilidade.

A CVC foi procurada pela Gazeta do Povo, mas não retornou.