Elas ainda eram mudas quando foram colocadas no quintal do imóvel, que antes era residencial, mas hoje abriga uma unidade da Pé de Picolé, que foi criada por Tia Nicinha. No horário de almoço e durante a tarde, as cadeiras de fio que ficam sob a sombra das árvores são as mais concorridas. O espaço interno com ar condicionado fica fora da lista de prioridades.
Atualmente, a empresa é administrada pela filha da Tia Nicinha, Halyni Teodoro, que define o quintal com árvores frutíferas como um dos legados da matriarca da família. “Cuiabá é muito quente, então é um privilégio ter um quintal que dá fruta o ano inteiro, faz sombra e refresca. Muitos trabalhadores da região vêm para cá sentar embaixo das árvores”.
Aos poucos, os galhos das árvores que quase cobrem todo o espaço do quintal se tornaram uma das atrações para os clientes, chamando atenção de quem passa pela rua. “Aqui é muito simples, mas o que o pessoal mais gosta são as árvores. Às vezes as pessoas não dão muito valor, fala que faz sujeira e dá trabalho, mas no meio de um bairro quase todo comercial e nobre, você ter fruta no pé o tempo todo, fora a sombra, que virou raridade e privilégio. Não temos ar condicionado aqui fora, a pessoa se sente no quintal de casa, todo mundo quer sentar embaixo da árvore, pedem sacola para catar caju, tiram foto”, continua.
Todas as árvores do quintal contam a história da mãe de Halyni, que costumava colher os frutos para transformá-los nos picolés e sorvetes vendidos na Pé de Picolé. “A questão da natureza era muito forte para ela. Ela passava nos quintais e olhava as frutas. A gente ia na feira para comprar as coisas, porque trabalhei com ela por muitos anos, ela pedia para passar devagar quando via as árvores, queria ver se daria bastante cajazinho. Tinham outros quintais, que também tinham pés de seriguela e cajazinhos, por exemplo, que já forneciam frutas para nós”.
Na última segunda-feira (16), Tia Nicinha completaria 80 anos. Halyni se emociona ao falar dos meses de saudade enquanto admira as árvores plantadas pela mãe no quintal. “Cada cantinho daqui tem um pouco da história dela”, diz a empresária. Enquanto tenta ressignificar o luto, as árvores deixadas pela mãe se tornaram parte importante. “Achei um vídeo dela colhendo jacas. Ninguém quer colocar mais árvores, dizem que suja, dá trabalho, minha mãe não tinha esse pensamento, não tinha a possibilidade desse quintal não ter árvores”, lembra Halyni. 
A realidade observada no quintal contrasta com o restante da cidade. De acordo com a criadora da Associação Cuiabá Mais Verde, a advogada Silvia Mara, a sombra das árvores pode reduzir a temperatura em até 6ºC, dependendo da faixa de cobertura, representando alívio real para quem anda pelas ruas, por exemplo, ou para quem tem uma árvore no quintal.
Apesar disso, a arborização ainda é vista por parte da população como um problema. “A gente vê que não há educação ambiental. As pessoas aqui odeiam árvores. A grande maioria não sabe do benefício de ter uma árvore. Falam que a folha atrapalha, faz sujeira, que o galho vai cair. Mas a gente tem quintais, poderia ter bairros com árvores frutíferas, com produção de alimento”.
Para Silvia, o cenário ultrapassa a questão climática e evidencia uma desigualdade socioambiental, em que os impactos recaem principalmente sobre quem tem menos acesso à infraestrutura urbana, contexto que dialoga com o conceito de racismo ambiental.
“A falta de árvores é um grande problema, principalmente na periferia, porque o rico está dentro do condomínio. Lá é uma beleza, cheio de árvores. Se entra na periferia, às vezes não tem nem ventilador. Além de ser uma crise climática, é uma crise social. Quem tem menos, sofre mais. Não tem calçada, não tem acessibilidade, não tem plantio. E as crianças não aprendem isso na escola”, afirma.
O que começou como um desabafo nas redes sociais, em meio ao isolamento da covid-19, deu origem a um movimento que hoje tenta enfrentar a falta do Plano Diretor de Arborização Urbana em Cuiabá. A advogada conta que a ideia do projeto surgiu em 2020, após passar pela região da avenida Helder Cândia, durante uma das fases mais críticas da pandemia naquele ano, em que a cidade estava praticamente vazia.
“Eu saí de uma missa que a gente assistia de dentro do carro e vi tudo muito seco, sem árvore nenhuma. Aquilo me chamou atenção. Fiz uma publicação perguntando por que Cuiabá não era mais verde, o que tinha acontecido”, relembra.
O questionamento viralizou em um grupo no Facebook e mobilizou outras pessoas interessadas no tema. A Helder Cândia foi escolhida como área piloto, e, em setembro daquele ano, cerca de 80 mudas de árvores nativas foram plantadas.A experiência, no entanto, evidenciou que o problema era mais complexo do que parecia. Segundo Silvia, o grupo percebeu que plantar árvores, por si só, não era suficiente. “A gente entendeu que plantar é o mínimo. Não adianta só isso. Não tinha estrutura, não tinha legislação adequada, não tinha política pública funcionando”, afirma.
Durante o projeto inicial, também foram distribuídas mudas para a população, mas sem controle sobre o destino delas. “Você não sabe para onde vai, se foi plantada, se vai sobreviver. Isso mostrou um gargalo enorme”, explica..jpeg)
Além disso, dificuldades práticas como solo compactado, necessidade de insumos e manutenção das mudas mostraram que a arborização urbana exige planejamento e acompanhamento técnico. “Foi muito difícil manter as árvores vivas. Não é simples como parece”, diz.
Com o crescimento da mobilização, o grupo se organizou em núcleos técnicos, administrativos e jurídicos e, em 2021, formalizou a iniciativa com a criação de um CNPJ. Após três anos, a associação ampliou sua atuação e agora busca recursos e parcerias para desenvolver projetos de forma independente.
“A gente percebeu que não pode depender só do poder público. Hoje conseguimos buscar recursos e fazer ações com empresas e iniciativas privadas”, afirma.
Mesmo assim, a principal pauta do grupo segue sendo a implementação do Plano Diretor de Arborização Urbana em Cuiabá, que, segundo Silvia, ainda não saiu do papel. “Ele é obrigatório, já foi elaborado, mas está parado. Sem esse plano, não existe política pública estruturada para a arborização da cidade”, conclui.
A poda drástica, prática que Silvia diz ter se tornado comum em diferentes pontos de Cuiabá, tem contribuído para o enfraquecimento e até a morte de árvores saudáveis. Sem técnica adequada, o corte excessivo compromete a estrutura das espécies e reduz os benefícios que elas oferecem, como sombra e redução da temperatura.
Para ela, o problema está na falta de fiscalização e na ausência de critérios técnicos para autorizar esse tipo de intervenção. “Como você autoriza alguém a cortar uma árvore sem fiscalizar se está sendo feito corretamente? As empresas de poda precisam ser cadastradas, com profissionais qualificados. Não é para matar a árvore, existe a poda de condução”, afirma.
Segundo ela, a poda feita de forma incorreta não apenas prejudica o desenvolvimento das árvores, como também abre caminho para outras práticas ainda mais graves. “A poda sem técnica mata. É aquele corte total, que a gente vê com frequência. E, em alguns casos, as pessoas chegam até a envenenar árvores saudáveis para justificar a retirada depois”, denuncia.
A situação, de acordo com Silvia, evidencia uma inversão de prioridades na gestão urbana. “O fio [de energia elétrica] não pode ser mais importante que a árvore. Já passou da hora de discutir soluções como a fiação subterrânea, principalmente em áreas centrais”, defende.
Além da manutenção, o próprio modelo de arborização precisa ser repensado diante da urgência climática. “A gente não tem mais tempo para esperar a árvore crescer. É preciso plantar árvores maiores, fazer transplantes, buscar espécies adequadas. Cuiabá precisa de ação imediata”, diz.
Silvia também rebate a ideia de que a população cuiabana não valoriza o verde. “Cuiabá já foi uma cidade muito arborizada. Os quintais faziam parte dessa cultura. O problema não é falta de gosto, é falta de cuidado e de política pública”.
Fonte: Olhar Direto





