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Luta dos Indígenas em MT: Imagens Históricas de Conflitos e Resistência

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Registros históricos ajudam a contar diferentes capítulos da trajetória dos povos indígenas em Mato Grosso, da criação do Parque do Xingu às mobilizações por território. No Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo (19), o Primeira Página destaca imagens que mostram conflitos, transformações e a resistência dessas populações ao longo do tempo.

Segundo o Censo 2022, são mais de 58 mil indígenas vivendo no território mato-grossense, pertencentes a dezenas de etnias, com línguas, tradições e modos de vida distintos. Desse total, cerca de 77% vivem em terras indígenas, espaços fundamentais não apenas para a preservação cultural, mas também para a proteção ambiental.

Ao longo da história, esses povos enfrentaram processos de violência, deslocamento e perda territorial, mas também protagonizaram importantes lutas por reconhecimento e garantia de direitos.

Veja abaixo quatro imagens históricas que percorrem diferentes momentos dessa trajetória:

A criação do Parque Indígena do Xingu e a luta pela preservação

A criação do Parque Nacional do Xingu, por meio de um decreto publicado em julho de 1961, marca um dos momentos mais emblemáticos da política indigenista no Brasil. Idealizado como uma área de proteção para povos ameaçados pela expansão territorial e pelo avanço de doenças trazidas por não indígenas, o território foi resultado de uma articulação entre indigenistas, antropólogos e lideranças.

Embora o parque tenha sido instituído com uma área significativamente menor do que a proposta original, apenas um décimo dos 20 milhões de hectares defendidos inicialmente, sua criação representou um avanço decisivo para os povos do Xingu. A região já vinha sendo pressionada desde o período do ciclo da borracha.

A atuação dos irmãos Villas-Bôas, ao lado de nomes como o antropólogo e ex-ministro da Educação Darcy Ribeiro, foi fundamental para consolidar a proposta de um território exclusivo para os povos indígenas. Antes disso, diversas comunidades enfrentavam uma drástica redução populacional, causada principalmente por doenças e conflitos fundiários.

Com o passar dos anos, o parque foi transformado em Parque Indígena do Xingu, consolidando-se como um dos principais símbolos da diversidade cultural e da resistência indígena no país. Atualmente, a área abriga 16 etnias e segue como referência na preservação de modos de vida tradicionais.

Raoni e a resistência indígena contra a BR-080

Já em 1984, a luta dos povos indígenas em Mato Grosso ganhou repercussão nacional com o bloqueio da rodovia BR-080, liderado pelo cacique Raoni Metuktire. À frente dos caiapós-txucarramães, Raoni organizou um movimento que interrompeu as obras da estrada, prevista para atravessar territórios tradicionais na região do Xingu.

O protesto, que durou 42 dias, incluiu a tomada de funcionários da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) como reféns e pressionou o governo federal a recuar da proposta. A mobilização expôs os conflitos entre o avanço de grandes obras de infraestrutura e os direitos territoriais dos povos indígenas, resultando na suspensão da extensão da rodovia.

O episódio também teve desdobramentos políticos, incluindo a demissão do então presidente da Funai, Otávio Ferreira Lima, apontado como articulador do decreto que autorizava a mineração em terras indígenas ainda em 1983.

Após o bloqueio, Raoni seguiu até Brasília, onde cobrou diretamente autoridades federais, incluindo o ministro do Interior, Mario Andreazza, pela demarcação das terras indígenas e a interrupção do avanço de obras em territórios considerados sagrados.

Décadas depois, a BR-080 volta ao centro de debates. Em 2022, o Ministério Público Federal abriu investigação sobre possíveis impactos da rodovia em áreas sagradas do povo Xavante, evidenciando que os conflitos entre desenvolvimento e preservação ainda persistem.

O olhar de Jesco Puttkamer e o registro da identidade indígena

Os registros do fotógrafo e documentarista Jesco Puttkamer revelam um importante capítulo da história indígena no Brasil. Ao longo de quatro décadas, ele produziu cerca de 150 mil imagens, documentando o cotidiano de 62 etnias, incluindo momentos de primeiros contatos com a sociedade não indígena em território mato-grossense.

Seu trabalho, reconhecido como um dos mais relevantes da antropologia visual no país, documentam modos de vida, rituais e expressões culturais que, em muitos casos, sofreram profundas transformações ao longo do tempo.

Durante sua passagem pela região do Xingu, além de registrar as indumentários, o Puttkamer também registou o período de contato do povo Surui Paiter com não indígenas, ainda em 1969. A Terra Indígena Sete de Setembro, onde vivem os Paiter, está localizada na fronteira entre Cacoal (RO) e Aripuanã (MT).

Veja um trecho do registro:

O registro audiovisual mostra passagens do contato entre indígenas do povo Surui Paiter e não indígenas – Vídeo: Jesco von Puttkamer/Povos Indígenas no Brasil

Parte desse acervo está hoje sob guarda de instituições acadêmicas, como o Acervo Audiovisual e Documental do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA) e o Arquivo Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: primeirapagina

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