Com a consciĂŞncia de que Ă© a vivalma mais pura do Brasil, Lula soltou o verbo na recepção oferecida ao primeiro-ministro japonĂŞs durante sua visita ao Brasil. Como a imprensa noticiou fartamente, o presidente disse que o Brasil “resolveu ser grande, desenvolvido” e “quer sair do grupo de paĂses em via de desenvolvimento”. As razões que avalizam as esperanças lulistas? “Temos estabilidade jurĂdica, fiscal, econĂ´mica, social e temos uma coisa sagrada que Ă© previsibilidade. Aqui todo mundo sabe o que vamos fazer”. É isso mesmo. Gozamos dos prĂ©-requisitos para sermos uma grande potĂŞncia, disse Lula.
Seria bom se tudo isso fosse verdadeiro. O problema Ă© que, para Lula, há uma contradição insuperável. Já se cansou de falar para os membros do seu partido que tudo, em polĂtica, se constrĂłi mediante mentiras repetidas sistematicamente e com convicção. Mente, mente, mente, que todo mundo vai acreditar na sua mentira. É um caso de superego mentiroso inflado. Tudo pode, se quiser. O problema Ă© que, como a mentira foi erguida Ă altura de suprema verdade, a coisa fica confusa. NĂŁo dá para acreditar no que o sujeito diz. A solução mais civilizada seria esse sorriso maroto, de descrença generalizada em tudo quanto tinha ouvido e de surpresa hilária diante de tanta desfaçatez, que o primeiro-ministro japonĂŞs ensaiou no final da fala lulista. NĂŁo podia ser de outro jeito.
Lula não pode ser levado a sério. Seria cômico se não fosse trágico, porque estamos sendo governados precisamente por esse mentiroso contumaz.
Não há “Plano Marshall” que salve os nossos irmãos gaúchos, castigados pela mais séria tragédia natural que se abalançou sobre o Estado sulino. Lula, que gosta de passar mensagens cifradas quando decide dar uma de comunicador, colocou os famosos óculos de armação escura quando, de boné, foi visitar Porto Alegre, dias passados. Parecia um aplicado pesquisador que larga os instrumentos do seu laboratório para enfrentar desgraças alheias. Tanta tragédia só podia ser visitada com óculos de armação escura, tão tristes as cenas que o presidente testemunhou.

Mas a solidariedade nĂŁo passou daĂ e das promessas genĂ©ricas de que o poder pĂşblico vai envidar os esforços que forem necessários para acudir ao Rio Grande do Sul. Dados divulgados pelo economista Carlos Alexandre da Costa (ex-secretário especial para a retomada econĂ´mica do MinistĂ©rio da Economia na gestĂŁo de Paulo Guedes) mostram que nĂŁo adianta inventar um “Plano Marshall” para salvar o Rio Grande do Sul. O Estado sulino paga R$ 105 bilhões para a UniĂŁo e recebe apenas R$ 30 bilhões de transferĂŞncias. A UniĂŁo gasta mais R$ 25 bilhões do montante pago no Rio Grande do Sul. Dos R$ 50 bilhões restantes, R$ 11 bilhões vĂŁo para outros Estados; R$ 8 bilhões vĂŁo para o dĂ©ficit da PrevidĂŞncia e R$ 31 bilhões vĂŁo para BrasĂlia. Ou seja: seria melhor se o Rio Grande do Sul se virasse sozinho, sem ter de pagar o esdrĂşxulo montante de R$ 105 bilhões para a UniĂŁo.
Sem domar o mostrengo patrimonialista que de todos cobra e a poucos favorece, nĂŁo há solução possĂvel para os extremos problemas que os nossos vizinhos gaĂşchos sofrem, nestes tempos de clima destrambelhado. O esforço de racionalização de gastos deveria começar pela prĂłpria máquina federal, que gasta bilhões desaforadamente, sem controle. O primeiro exemplo deveria ser dado por BrasĂlia. Chega de aumentos exorbitantes de salários de altos funcionários do Judiciário. Chega de conferĂŞncias dadas pelos ministros do STF em luxuosos e carĂssimos hotĂ©is europeus, com dinheiros pagos por empresas que tĂŞm contas a pagar Ă Receita e com procedimentos em julgamento pelo Supremo. Discursar sobre o futuro alvissareiro do Brasil nessas condições Ă© acinte com quem paga impostos e constitui uma megalomanĂaca narrativa que chega aos limites do ridĂculo. Seria cĂ´mico, se nĂŁo fosse trágico.

* nasceu em Bogotá, na ColĂ´mbia. É conselheiro do Instituto Liberal. Foi ministro da Educação do Brasil em 2019. Formado em filosofia (licenciatura, mestrado e doutorado), pesquisa e histĂłria das ideias filosĂłficas e polĂticas no Brasil e na AmĂ©rica Latina.
Fonte: revistaoeste





