Mundo

Juventude busca maior participação na COP17: veja como!

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

A participação de jovens em conferências internacionais sobre meio ambiente cresceu nos últimos anos, mas ainda existe o desafio de transformar presença em influência nas decisões. A avaliação é da advogada cearense Beatriz Azevedo, de 33 anos, reconhecida em 2024 como uma das dez Land Heroes pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

O reconhecimento contempla jovens e organizações juvenis que desenvolvem iniciativas contra a desertificação, a degradação da terra e os efeitos da seca. A proposta é ampliar a visibilidade desses agentes e aproximá-los dos processos de discussão da convenção.

Para Beatriz, existe uma cobrança para que os jovens contribuam com soluções para as crises ambiental e climática, mas ainda faltam estrutura, financiamento e oportunidades profissionais compatíveis com essa responsabilidade.

Em entrevista à Agência Brasil, a advogada também abordou os obstáculos para transformar representatividade em influência política, o financiamento de projetos de restauração e as expectativas para a COP17 de Combate à Desertificação.

A conferência começou na segunda-feira (17) e segue até 28 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, com o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”. O encontro reúne representantes de 197 países, além de cientistas, empresas, organizações da sociedade civil, povos indígenas, pastores, agricultores familiares e jovens.

Entre os temas em discussão estão a restauração de terras, a seca, a segurança alimentar, o financiamento e a resiliência.

Beatriz também preside a Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e é fundadora da ABA Climate Solutions, empresa de consultoria especializada em financiamento climático.

Caatinga e Semiárido no centro das discussões

A advogada avalia que a COP17 pode ampliar a visibilidade de problemas que atingem diretamente o Nordeste brasileiro. Segundo ela, enquanto as negociações climáticas costumam concentrar a atenção internacional sobre a Amazônia, a conferência dedicada à desertificação abre espaço para colocar a Caatinga e o Semiárido no centro das discussões.

Ao longo de 14 anos de atuação, Beatriz afirma ter levado questões do Ceará para diferentes espaços internacionais. Ela cita participações em países como Arábia Saudita, China e Panamá, onde apresentou a realidade local e soluções relacionadas à degradação da terra.

A atuação atual está voltada principalmente à conexão entre financiadores e iniciativas de restauração. A advogada também trabalha com financiamento, políticas públicas e acompanhamento da implementação de políticas estaduais no Conselho Estadual do Meio Ambiente.

Participação dos jovens avançou

Segundo Beatriz, a presença da juventude nas conferências da ONU aumentou de forma significativa. Ela lembra que, quando participou pela primeira vez de uma COP da Desertificação, em 2013, ainda não havia um espaço específico destinado aos jovens.

Atualmente, existem iniciativas como o Youth Forum, o programa Land Heroes, o Ecopreneur, voltado a empreendedores verdes, e o Youth Negotiators, que prepara jovens para atuar em negociações.

O principal desafio, segundo a advogada, é fazer com que as contribuições apresentadas pelos jovens sejam incorporadas às decisões finais dos países. Para isso, ela considera importante a atuação direta da juventude junto aos governos nacionais.

Beatriz destaca ainda a abertura histórica do governo brasileiro para o diálogo com o Itamaraty e os ministérios, processo que, segundo ela, contribui para a construção das posições do país nas negociações.

Justiça climática e formação de lideranças

A participação específica da juventude, na avaliação da advogada, também está relacionada à justiça climática e à representação das diferentes realidades vividas pelos jovens.

Ela afirma que muitos jovens desenvolvem projetos diretamente nas comunidades e apresentam soluções com impacto local. Ao mesmo tempo, essa geração será responsável por tomar decisões e liderar em um cenário marcado pela crise climática e por eventos extremos.

Para Beatriz, o conhecimento sobre ciência e processos de tomada de decisão fortalece a preparação dos jovens. As conferências também permitem a criação de redes entre governo e sociedade civil e contribuem para a formação de novas lideranças.

Financiamento para restauração

Entre as expectativas para a COP17 está o avanço de iniciativas que associem restauração ambiental a benefícios econômicos e sociais. Beatriz cita a bioeconomia como uma das abordagens defendidas pelo governo brasileiro.

Entre os exemplos mencionados está o cultivo de macaúba para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF), que pode ser associado a projetos de restauração. Outra possibilidade envolve iniciativas de restauração financiadas pelo mercado de carbono.

Para a advogada, medidas de conservação precisam ser acompanhadas de alternativas econômicas para as pessoas que vivem e cuidam dos territórios. Ela também defende a demarcação de terras indígenas, a garantia de direitos e mecanismos de financiamento que alcancem assentamentos rurais e comunidades locais, com repartição de benefícios.

Desertificação ainda recebe menos atenção

Beatriz avalia que a COP de Desertificação permanece menos conhecida pelo público do que as conferências dedicadas ao clima e à biodiversidade. Segundo ela, essa diferença está relacionada, entre outros fatores, à associação do tema com regiões específicas, como o Semiárido nordestino.

Na avaliação apresentada pela advogada, essa menor visibilidade também pode representar uma oportunidade para o Nordeste. Enquanto a COP do Clima costuma concentrar a atenção sobre a Amazônia, a conferência sobre desertificação permite dar destaque à Caatinga e ao Semiárido e levar suas demandas diretamente aos governos e demais países.

Pressão sobre os jovens

Beatriz também relatou ter enfrentado um período de afastamento das conferências da ONU entre 2016 e 2021. Segundo ela, a decisão ocorreu após uma sensação de sobrecarga diante da participação nos encontros e da percepção de que as mudanças não avançavam no ritmo esperado.

Durante esse período, ela decidiu concentrar esforços no trabalho local. A advogada afirma que existe uma narrativa de que “o jovem é a solução”, mas que nem sempre há estrutura e financiamento suficientes para sustentar essa atuação.

Ela também aponta dificuldades no terceiro setor, como instabilidade, dependência excessiva de trabalho voluntário e remunerações consideradas precárias. Na avaliação de Beatriz, o ativismo pode gerar visibilidade e abrir oportunidades, mas não necessariamente resulta em emprego e renda no curto prazo.

Ao retornar ao cenário internacional, a advogada direcionou sua atuação para o financiamento. Segundo ela, o objetivo passou a ser entender como os recursos podem chegar efetivamente às pessoas e organizações responsáveis pela execução dos projetos.

Mensagem aos jovens

Para quem deseja atuar na área ambiental, Beatriz defende uma perspectiva de esperança e incentivo. Segundo ela, a agenda ambiental pode oferecer oportunidades profissionais alinhadas a propósitos pessoais e à busca por impacto positivo na sociedade.

A advogada destaca ainda o potencial de novas soluções, tecnologias e projetos para enfrentar os desafios ambientais e considera possível construir uma trajetória profissional e de vida ligada a esse campo.

Cobertura na Mongólia

A Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A cobertura ocorre em parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes por meio de uma bolsa de jornalismo para acompanhar o evento.

Fonte: cenariomt

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidária que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.