Um teste realizado pela Anistia Internacional Brasil identificou falhas do Facebook na filtragem de anúncios com desinformação eleitoral. A análise, divulgada nesta terça-feira (25), avaliou conteúdos direcionados ao público brasileiro em idade de votar, a partir de 16 anos.
A organização submeteu 15 anúncios pagos à plataforma, sendo 14 com conteúdo considerado antidemocrático e um de caráter neutro. Oito dos anúncios foram aprovados para publicação, embora todos tenham sido programados para uma data futura e posteriormente cancelados pela própria Anistia Internacional.
Teste avaliou anúncios com desinformação
Segundo a Anistia Internacional, os anúncios foram produzidos em português e direcionados exclusivamente à população brasileira. Entre os conteúdos analisados, sete apresentavam alegações enganosas sobre candidatos e instituições eleitorais, enquanto outros sete traziam informações falsas capazes de prejudicar a capacidade dos eleitores de participar da votação.
Os conteúdos classificados como desinformação foram divididos em três estratégias principais:
- Deslegitimação eleitoral: materiais destinados a enfraquecer a confiança nas eleições, no sistema de votação ou nos resultados;
- Construção do inimigo: conteúdos que apresentavam adversários políticos e tribunais como ameaças ou instituições ilegítimas;
- Autoritarismo com foco na segurança: publicações que defendiam força, intervenção militar ou governos autoritários como respostas para problemas de criminalidade ou desordem política.
Um dos anúncios submetidos ao teste afirmava que seria necessária uma revolução militar e que os militares retomariam o poder caso menos de 50% dos eleitores votassem. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já esclareceu que essa informação é falsa.
Oito anúncios foram aprovados
O levantamento apontou que oito dos 15 anúncios foram aprovados pelo Facebook. Os outros sete, incluindo o anúncio neutro, foram rejeitados, mas, segundo a Anistia Internacional, as notificações não apontaram a desinformação como motivo para a recusa.
A justificativa apresentada estava relacionada ao fato de os materiais abordarem questões sociais, eleições ou política. Em seguida, a organização foi informada de que a conta precisaria passar por uma verificação de identidade antes que os anúncios pudessem ser publicados.
A Anistia Internacional afirma que o sistema de moderação não identificou especificamente o caráter desinformativo dos anúncios aprovados.
Preocupação com o sistema de moderação
Para Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, a aprovação de mais da metade dos anúncios considerados desinformativos representa um problema relevante no sistema de moderação da Meta.
A organização também questionou a capacidade das plataformas de impedir que seus mecanismos de publicidade sejam utilizados para disseminar conteúdos falsos relacionados às eleições.
Segundo dados financeiros da Meta, empresa que também controla Instagram, WhatsApp e Threads, mais de 97% dos US$ 60 bilhões em receita registrados no segundo trimestre de 2026 vieram de publicidade.
Anúncios foram enviados de Londres
Outro ponto destacado pela Anistia Internacional foi a origem dos envios. Os anúncios foram submetidos a partir de Londres, sem o uso de VPN para ocultar a localização geográfica.
Para a organização, a possibilidade de enviar anúncios destinados ao eleitorado brasileiro a partir do exterior gera preocupações sobre eventuais campanhas de desinformação conduzidas por atores nacionais ou estrangeiros.
O pesquisador e consultor em Inteligência Artificial e Direitos Humanos da Anistia Internacional, Ummar Bashir, afirmou que o teste indica que os sistemas de moderação do Facebook podem não identificar de maneira confiável conteúdos de desinformação relacionados às eleições.
Meta contesta resultado do teste
Procurada pela Agência Brasil, a Meta afirmou que o relatório da Anistia Internacional utiliza uma amostra pequena de anúncios que não chegaram a ser publicados nem visualizados por usuários.
A empresa também declarou que o resultado não representa a dimensão de seu trabalho de moderação. Segundo a companhia, o processo de análise de anúncios conta com diferentes etapas de detecção e avaliação, realizadas antes e depois da publicação.
A Meta afirmou ainda que está destinando recursos para proteger o processo eleitoral de 2026 no Brasil, incluindo medidas de transparência na publicidade e protocolos específicos para anúncios relacionados a questões sociais, eleições e política.
Regras do TSE para propaganda eleitoral
A propaganda eleitoral no Brasil é regulamentada pelo Tribunal Superior Eleitoral. A Resolução 23.610/2019 estabelece as principais regras sobre o tema e foi complementada pelas resoluções 23.732/2024 e 23.755/2026.
As normas determinam que provedores de aplicações que permitam a veiculação de conteúdo político-eleitoral devem adotar medidas para impedir ou reduzir a circulação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que possam prejudicar a integridade do processo eleitoral.
A regulamentação também prevê que informações falsas ou sem comprovação técnica capazes de colocar em dúvida a integridade do sistema eletrônico de votação devem ser retiradas de circulação, independentemente de uma determinação judicial.
Fonte: cenariomt





