Após a morte, o cérebro é um dos primeiros órgãos a começar a se decompor. Suas células iniciam um processo de autodigestão e, em poucas horas, ele já perde seu formato característico. Em poucos dias, transforma-se em uma pasta.
Mas isso nem sempre acontece. Arqueólogos já encontraram cérebros antigos preservados, que permaneceram praticamente intactos mesmo quando o restante do corpo já havia se decomposto. Até pouco tempo atrás, esse fenômeno era uma grande incógnita para a arqueologia e era considerado extremamente raro.
Isso mudou em 2024, quando um estudo da Universidade de Oxford, liderado pela pesquisadora Alexandra Morton-Hayward, se propôs a contabilizar quantas vezes esse fenômeno já havia sido registrado.
Após realizar o maior levantamento da literatura científica sobre o tema, a equipe identificou mais de 4 mil registros de cérebros humanos preservados. Eles foram encontrados nos seis continentes e em diferentes sociedades, desde membros da realeza do Antigo Egito até exploradores do Ártico. O número é cerca de 20 vezes maior do que se imaginava anteriormente.
Parte desses casos estava associada a processos já conhecidos de preservação, como mumificação e congelamento. Porém, cerca de um terço dos registros não apresentava nenhuma dessas condições: o cérebro era a única estrutura preservada do corpo inteiro.
Desde então, os pesquisadores da Universidade de Oxford vêm tentando explicar esse fenômeno misterioso, que batizaram de “paradoxo da preservação cerebral”.
Agora, eles acreditam ter encontrado uma resposta: a preservação pode ser resultado de um processo químico que ocorre durante a decomposição em determinadas condições ambientais. Não é uma anomalia extremamente rara.
Eles detalharam os resultados em um artigo publicado em junho no periódico científico Journal of Proteome Research.
Os pesquisadores perceberam que a maior parte dos cérebros preservados havia sido encontrada em solos úmidos e pobres em oxigênio, como margens de rios e lagos. Assim, levantaram a hipótese de que esses ambientes desviam o processo normal de decomposição das proteínas do cérebro.
Para testar a teoria, a equipe realizou uma série de experimentos. Em um deles, enterrou corpos de ratos em quatro recipientes com diferentes combinações de umidade e disponibilidade de oxigênio. Durante seis meses, os pesquisadores acompanharam periodicamente o estado de decomposição dos cérebros.
As análises mostraram que, nas fases iniciais, a degradação das proteínas seguia um padrão semelhante em todos os recipientes. Depois de algumas semanas, porém, surgiam diferenças importantes.
Nos ambientes mais ricos em oxigênio, os radicais livres (moléculas altamente reativas) aceleravam a degradação das proteínas cerebrais.
Já nos ambientes úmidos e com pouco oxigênio, esses mesmos radicais livres favoreciam a formação de ligações cruzadas entre as proteínas, tornando-as mais resistentes e interrompendo a degradação do tecido cerebral. As proteínas cerebrais param de se digerir e se estabilizam.
“A degradação não é o oposto da preservação. Sob restrições químicas específicas, as mesmas reações oxidativas que impulsionam a destruição molecular também podem gerar estabilidade molecular”, escrevem os autores.
Agora, os pesquisadores pretendem investigar esse mecanismo em maior profundidade. Além de ajudar arqueólogos a compreender por que alguns cérebros sobrevivem por milhares de anos, o fenômeno pode fornecer pistas úteis para pesquisas médicas sobre estabilidade de proteínas e doenças neurodegenerativas.
Fonte: abril





