O amor sempre vence – até mesmo no mundo dos insetos. E, no caso do mosquito da malária, o romance foi capaz de resistir aos inseticidas e à interferência humana.
Lá pelos anos 1950, o Anopheles stephensi virou alvo número um dos programas de controle da malária. A estratégia adotada consistiu na aplicação de um inseticida potente, conhecido como dieldrina, nas paredes internas das casas, onde os mosquitos costumavam pousar. Em poucos anos, porém, ficou claro que o plano tinha ido por água abaixo: os Anopheles stephensi desenvolveram uma mutação genética que os tornou resistentes ao veneno.
É um caso clássico de evolução: os mosquitos com a mutação tinham mais chances de sobreviver, procriar, e passar seus genes adiante. Dessa forma, cada vez mais mosquitos nasciam com a mutação resistente, e o ciclo se repetia. A resistência dos mosquitos só aumentava, e a toxicidade do veneno também era motivo de preocupação entre os pesquisadores. Logo, o dieldrina acabou engavetado.
Mas um detalhe sempre intrigou os cientistas. Mesmo após décadas, os mosquitos da malária mantiveram as mutações que os ajudaram a sobreviver ao pesticida – apesar de torná-los mais lentos. Levando em conta apenas essas informações, o lógico seria a mutação desaparecer com o tempo.
Agora, um novo estudo aponta o acasalamento como possível motivo. Isso porque mosquitos machos encontram suas parceiras localizando o zumbido do bater de asas das fêmeas – que é bem fraquinho. E a mutação, por sua vez, parece tornar os mosquitos Anopheles mais sensíveis ao som, facilitando a tarefa de encontrar amor em cidades barulhentas. A hipótese foi publicada em um preprint no final de julho no bioRxiv, e ainda não foi revisada por pares.
Testando a hipótese
No laboratório, os pesquisadores reproduziram sons que imitavam as frequências de voo das fêmeas. Entre 300 a 550 hertz – frequência correspondente ao bater de suas asas–, os machos portadores da mutação apresentaram uma probabilidade significativamente maior de voar em direção ao alto-falante e pousar nele.
Mas detectar as fêmeas não é o mesmo que acasalar. Foi pensando nisso que a pesquisa resolveu simular o ambiente real de acasalamento dos Anopheles stephensi. Assim, 25 mosquitos machos foram colocados em pequenas gaiolas com 25 fêmeas por 48 horas. Cada gaiola ficou dentro de um entre dois ambientes: ou uma incubadora que emitia um zumbido constante de 70 decibéis, ou uma com um ruído branco de 93 decibéis, simulando o barulho de uma cidade grande.
Os machos resistentes à dieldrina se saíram praticamente iguais nos dois ambientes, com cerca de 40% de sucesso no acasalamento. Já os machos sem a mutação tiveram um desempenho inferior na incubadora mais barulhenta, caindo para 33%.
O próximo passo para pesquisadores foi testar a hipótese em campo. Em sete locais urbanos de Bangui, capital da República Centro-Africana, e em quatro vilarejos próximos, eles notaram que fêmeas que não apresentavam a mutação tinham menos chances de ter acasalado em locais urbanos, em comparação com áreas rurais.
Ainda assim, os dados são difíceis de interpretar, na opinião de Lauren Cator, bióloga do Imperial College London que não participou do estudo. Ela explica à Science que é preciso considerar que habitats urbanos diferem dos rurais em muitas maneiras além do ruído. A exposição a inseticidas, a poluição e as diferenças de temperatura e umidade, observa ela, também podem contribuir para manter o número de mosquitos com mutações mais elevados nas cidades.
O estudo não testou diretamente se a mutação altera a audição das fêmeas ou a escolha de parceiros, aponta Cator. Outros especialistas trazem outros argumentos à tona. Por exemplo, se os mosquitos com mutações ouvem melhor, seria de se esperar que evitassem ambientes barulhentos ao invés de acasalar neles. “Se eu tivesse uma audição muito sensível, não iria a uma discoteca barulhenta, certo?”, diz Martin Göpfert, neurobiólogo da Universidade Georg August de Göttingen.
Fonte: abril





