A guerra comercial entre os Estados Unidos e o Canadá ganhou um ingrediente inusitado: a língua francesa.

Ao anunciar o fracasso das negociações para que não fosse aplicada uma tarifa americana de 50% sobre determinados produtos canadenses, que representam 5% das exportações anuais do Canadá para os EUA, o primeiro-ministro Mark Carney disse que uma das exigências que Ottawa “não poderia aceitar” seria a revogação de regras relativas ao uso do francês que Washington consideraria barreiras comerciais.

“Não daremos [aos EUA] o que eles pediram”, disse Carney. “Para os americanos, a língua francesa, a cultura francófona e a cultura canadense são pontos de atrito. Aqui em Quebec, aqui no Canadá, são direitos.”

Segundo informações do jornal The Guardian, a primeira-ministra de Quebec, Christine Fréchette, província canadense onde 85% dos habitantes falam francês, elogiou a negativa de Carney.

“Nossa cultura e nossa língua são fundamentais para a nossa identidade, e é importante excluí-las da mesa de negociações”, declarou a premiê. “É algo crucial para nós e não vai mudar; mesmo sob ameaça de diferentes tarifas, não vai mudar. Continuaremos como somos.”

Entre as regras canadenses que Washington consideraria barreiras comerciais, estariam as exigências de que produtos americanos vendidos em Quebec tenham rótulos em francês e de que plataformas de streaming americanas, como a Netflix, promovam e priorizem conteúdo em francês para seus assinantes na província.

Diante do desgaste com a população de Quebec – uma pesquisa do instituto Léger apontou que apenas 17% dos habitantes da província têm opinião favorável sobre os EUA, contra 22% em todo o Canadá –, a gestão Trump negou que esteja visando a cultura francesa local.

Nesta segunda-feira (24), o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse que as alegações do Canadá sobre o francês são uma “história engraçada e falsa”.

“Gosto dos quebequenses e gosto do fato de falarem francês. O que não nos agrada é uma situação em que o governo federal do Canadá obriga empresas de tecnologia americanas a pegar seus lucros e repassar uma porcentagem aos seus concorrentes”, afirmou Greer, em entrevista à CNBC, citando um “imposto discriminatório sobre empresas americanas”.

Em post na rede Truth Social nesta terça-feira (25), Trump também negou as informações divulgadas por Carney.

“Eu jamais interferiria no fato de os canadenses falarem francês! Na verdade, nunca nem pensei em fazer uma coisa tão estúpida. Essa mentira foi inventada por um primeiro-ministro fraco e ineficaz, numa tentativa de ganhar apoio político — que ele perdeu totalmente — junto ao povo de Quebec. Eu amo os canadenses francófonos!”, escreveu o presidente americano.