Na primeira vez em que fui ao Pantanal, uma onça-parda atravessou a estrada diante do carro de safári. Sim, safári no Pantanal. O animal surgiu da mata, caminhou alguns metros pela terra vermelha e desapareceu entre as árvores. Tudo aconteceu muito rápido e nem deu para pegar a câmera. Hipnotizada, eu simplesmente não conseguia desviar os olhos daquele enquadramento. Afinal, um dos grandes felinos das Américas caminhava, com calma, muito perto de mim.
Fiquei olhando para o lugar onde ela havia sumido e depois para os guias. Eles sorriram. Mais tarde, me explicaram que aquele encontro estava longe de ser comum. É que a onça-parda, também chamada de suçuarana, é muito mais discreta que a onça-pintada, a estrela pantaneira e um dos animais mais desejados por observadores de vida selvagem. Sendo mais tímida, é também mais difícil de ser avistada. Encontrá-la daquela maneira, em plena luz do dia, tão próxima do carro, foi sorte.
Celebrei. Não tive a foto, mas tenho a cena registrada em mim até hoje.
O ano era 2020. Depois dessa viagem, voltei outras vezes ao Pantanal. Todas as visitas me surpreenderam de formas diferentes, nenhuma igual à outra. Não só por causa do cenário e da dinâmica da fauna, que varia conforme as estações pantaneiras, mas também porque “nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio, porque, na segunda, o homem já não é mais o mesmo, nem o rio”.
A máxima atribuída a Heráclito é viva no Pantanal. E, olha, longe de mim querer soar entendida de filosofia. Sei o básico e adoro comprová-lo por meio das sensações que encontro nas minhas andanças como viajante.
Noites bem dormidas na Caiman
O Pantanal é especial. É a impermanência em estado selvagem, preservada em uma reserva que alia a grandiosidade da natureza a uma estrutura cuidadosa, como a da Caiman. Atualmente, são quase 53 mil hectares no sul de Mato Grosso do Sul. Há décadas, a Caiman reúne conservação, ecoturismo e pecuária extensiva. É também uma fazenda de gado, com serviço de hotelaria de excelência.
Essa história começou com Roberto Klabin, empresário e ambientalista que frequenta o Pantanal desde a infância. Em 1985, quando o ecoturismo ainda era praticamente inexistente por ali, ele começou a transformar a fazenda da família no que é a Caiman hoje.
Desta vez, fiquei na Casa Caiman, sede principal da propriedade. Além dela, há duas opções mais reservadas: a Villa Baiazinha e a Villa Cordilheira.
A Casa Caiman, recém-reformada, tem 18 suítes com varanda. Os ambientes são muito confortáveis, com decoração que incorpora referências à cultura local e à paisagem. A gastronomia também olha para o Pantanal. Tem ingredientes locais, produtos da própria fazenda e de pequenos produtores da região. Tudo gostoso, sem muita invenção.
E tem os drinks, que ganham outro sabor quando chegam à beira da piscina da sede. Dali, a vista se abre para a Baiazinha, uma lagoa permanente que atrai aves e outros animais ao longo do dia.
A academia tem a mesma vista e é bem equipada. Da esteira, dá para acompanhar a mudança da luz natural sobre a água da lagoa e apreciar as aves cruzando o céu. A sauna é outra pedida. Tudo isso completa a estadia, claro, mas é quase detalhe diante da grandeza e da riqueza natural do Pantanal.
A Villa Baiazinha é menor e mais reservada. São seis suítes, para até 12 hóspedes, com varandas e redes, piscina com deck e uma sala toda envidraçada, aberta para a paisagem. Mais afastada da sede, funciona de forma privativa, com carro e guias exclusivos. Os horários também ganham mais liberdade, o que faz diferença quando se está entre amigos ou em família.
A novidade na Caiman é a Villa Cordilheira, recém-reformada, com capacidade para abrigar até 16 pessoas. A acomodação fica suspensa sobre a mata de cordilheira, daí o nome, e tem sete bangalôs de 70m², com varanda, piscina com borda infinita, sala de ginástica, bar e uma ampla sala de convivência. A decoração segue o estilo Caiman e teve toques da decoradora Claudia Gelpi. Guias e carros privativos atendem à villa, criando atrativos sob medida.
Rotina Caiman
Os safáris e os passeios, como cavalgadas e remadas, acompanham o ritmo do Pantanal. Pela manhã, os carros de safári saem geralmente a partir das cinco e meia. À tarde, por volta das três.
Os horários têm uma lógica: nas primeiras horas do dia, quando a temperatura ainda é mais amena, muitos animais estão ativos. À medida que o sol sobe e o calor aperta, parte da fauna diminui o ritmo e procura áreas mais protegidas. No fim da tarde, tudo volta a se movimentar.
O céu ainda está escuro e as estrelas acesas quando os hóspedes começam a chegar à varanda da sede. Bem cedinho, há sempre café, bolos e frutas sobre a mesa do bar – sempre algo leve, antes da primeira saída. Aos poucos, todo mundo vai chegando, ainda meio sonolento. Pouco depois, estamos no meio do Pantanal vendo o dia nascer.
O ritmo é outro por ali. Primeiro vem um canto isolado. Depois outro, mais distante. Aos poucos, as aves tomam conta da paisagem sonora. Nas árvores, elas se espreguiçam, abrem as asas para se esquentar nos primeiros raios de sol num lindo balé e começam os primeiros voos. Enquanto isso, o céu muda de cor: laranja, amarelo, dourado, azul.
É nessas horas que as escalas do Pantanal também colocam as nossas em perspectiva. Mergulhar naquele silêncio, interrompido apenas pelos sons da natureza, chega a emocionar quem vive em cidades gigantescas, como é o meu caso.
Por volta das 10h, os carros retornam à sede e, aí sim, vem o verdadeiro café da manhã, completo e sem pressa. Depois disso, dá para dormir um pouco, ler um livro, fazer exercício com vista para a Baiazinha ou aproveitar a piscina. Nessa última viagem, essa era uma das minhas partes preferidas do dia: ficar ali, lendo, enquanto um casal de araras-azuis, numa árvore ao lado, vocalizava sem parar. De vez em quando, elas ainda davam rasantes sobre a piscina. Mais Pantanal, impossível.
O almoço começa a ser servido ao meio-dia e, aos poucos, os hóspedes vão se encontrando à mesa. É uma hora gostosa de bater papo, trocar histórias e contar o que cada um viu naquela manhã. Quem encontrou uma cobra, quem viu um tamanduá, quem voltou encantado com uma arara. Tudo sem pressa. Afinal, a próxima saída é só às três da tarde.
Os Big Five do Pantanal
Se no continente africano os Big Five são leão, leopardo, elefante, rinoceronte e búfalo, o Pantanal também ganhou sua própria versão da expressão. Aqui, os cinco animais mais cobiçados por observadores são a onça-pintada, o tamanduá-bandeira, a anta, o cervo-do-pantanal e a capivara.
E ainda há os lindos veados-campeiros, as queixadas, as onças-pardas, os jacarés, as aves, os peixes, as raposas-do-campo, os macacos, as borboletas.
E tem a flora: palmeiras de acuri e carandá, os cambarás e as lindas piúvas, que podem chegar a 20 metros de altura. Na seca, muitas perdem as folhas e se cobrem de flores em tons de rosa e roxo. De repente, no meio de tanto verde, a paisagem ganha enormes manchas de cor.
Nunca se sabe quais animais vão aparecer pelo caminho. É justamente essa imprevisibilidade que torna cada saída diferente. Os tuiuiús, assim como os jacarés, são presenças corriqueiras e, ainda assim, surpreendentes.
Os jacarés, mesmo que onipresentes, sempre me impactam. Por vezes, estão completamente imóveis, aquecendo-se ao sol. Em outras, apenas os olhos aparecem sobre a superfície da água. Há também os que ficam de boca bem aberta, uma das maneiras de regular a temperatura do corpo. Parecem ameaçadores, mas estão apenas tentando se refrescar.
A quantidade de araras-azuis impressiona, especialmente quando se conhece a história recente da espécie. O Projeto Arara Azul, criado em 1990 por iniciativa da bióloga Neiva Guedes, tornou-se referência no estudo, monitoramento e conservação da arara-azul-grande no Pantanal. Na Caiman, somos nós que entramos no território dos animais e seguimos o ritmo deles.
O acasalamento das onças
As onças, acompanhadas pelo projeto de preservação Onçafari, passam apenas por um processo de habituação aos veículos, para que deixem de enxergá-los como uma ameaça. Durante a estadia, uma das saídas é feita com a equipe do projeto, que acompanha algumas dessas onças há anos. Muitas têm nome, filhotes conhecidos e uma história que os pesquisadores sabem contar.
Algumas usam radiocolares, que ajudam a acompanhar seus deslocamentos pelo Pantanal. Durante o safári, começamos também a reconhecer essas onças e suas relações. Essa convivência nem sempre é simples. As onças eventualmente predam o gado da própria fazenda, um dos desafios de manter pecuária e vida selvagem no mesmo território.
Em um dos dias, encontramos uma fêmea conhecida pelos pesquisadores copulando repetidamente com um macho, apesar de não estar no cio. No dia seguinte, lá estava ela novamente, desta vez com outro macho, e o comportamento se repetia. O filhote permanecia escondido, distante dali.
Segundo os pesquisadores, essa estratégia pode manter os machos ocupados e afastados da cria. Como não eram os pais, poderiam matá-la caso a encontrassem. Fiquei fascinada ao descobrir o que havia por trás de uma cena que, para mim, parecia apenas um acasalamento.
No Pantanal, faça como os pantaneiros
Além do carro, é possível conhecer a região cavalgando. Uma das tardes mais bonitas dessa minha última estadia começou em cima de um cavalo pantaneiro.
Junto aos guias, cruzei pontes de madeira, passei por alamedas de mangueiras antigas e por campos em que o gado dividia espaço com garças e cervos. Montada, eu enxergava o Pantanal de outro jeito. Os sons pareciam mais próximos e o cheiro do mato mais intenso.
Chegamos a uma clareira. Por lá, encontrei redes coloridas à sombra das árvores e grandes almofadas espalhadas pelo chão. Um cenário caprichado e acolhedor. Em cima de uma pequena mesa de madeira havia tereré, servido na guampa, castanhas de baru, frutas e farofa com carne-seca, sabores ligados à cultura e à rotina do campo pantaneiro. Que momento!
Depois de comer, me deitei em uma rede. Dali, eu via apenas as copas das árvores recortando o céu e a luz do sol atravessando as folhas.
Por terra ou por água
A Caiman tem lagoas e baías, parte de sua área é banhada pelo córrego Agachi e a propriedade está na região entre os rios Miranda e Aquidauana. Em uma tarde, embarquei em uma canoa canadense. A água da baía, um verdadeiro espelho, refletia o céu enquanto eu remava devagar, quase sem fazer barulho.
Passamos por baixo da Ponte do Paizinho, de madeira, um dos marcos da propriedade. O passeio é contemplativo, dura pouco mais de uma hora e não é uma aventura, apesar dos jacarés. Eles estavam “de boa”: apareciam primeiro como pequenos pontos escuros na superfície; depois, eu via apenas os olhos me observando à distância. Enquanto isso, o sol descia lentamente.
O tom dourado do céu transformava-se em laranja. A cor tomava a água, subia pelas árvores e alcançava as nuvens. Quando o sol tocou a linha do horizonte, parecia se dissolver na água.
Voltei devagar até a margem e encontrei um pequeno piquenique montado ao ar livre. Havia lanternas acesas, taças sobre a mesa e uma garrafa de champanhe mergulhada no gelo.
Na volta para a sede, já era noite. Seguíamos devagar quando o facho das lanternas encontrou dois olhos brilhando na escuridão. Só então surgiu a silhueta de uma onça-pintada caminhando em direção à margem da baía. Ela se aproximou lentamente da água, abaixou a cabeça e começou a beber delicadamente.
Ficamos em silêncio, só nós, a onça e a noite. Ela ainda ergueu a cabeça e nos lançou um breve olhar antes de desaparecer na escuridão – tão discretamente quanto surgiu, voltou a pertencer à noite.
Sob as estrelas
O céu pantaneiro é deslumbrante a qualquer hora. Na escuridão total, as estrelas ganham outra intensidade. Nem precisa de muita sorte para ver uma estrela cadente e emendar um pedido.
Todas as noites eram gostosas. Uma, no entanto, foi mais que especial. O jantar aconteceu no galpão dos peões, entre selas, estribos e outros objetos da lida diária. Uma única mesa comprida reunia todos os hóspedes. Do lado de fora, a fogueira ardia sob um céu coalhado de estrelas, enquanto ao fundo, músicos dedilhavam violas pantaneiras.
A comida saía de um grande fogão a lenha, e as carnes assavam lentamente sobre as brasas. Caldo de piranha fumegante, peixes de rio e receitas inspiradas na cozinha das fazendas locais compunham o cardápio. Era um jantar que tinha menos a ver com cerimônia do que com a própria essência da fazenda: fogo, música, comida e conversa noite adentro.
Sentada ali, entre o aroma da lenha queimando, o som da viola e as histórias que atravessavam a mesa, eu conhecia mais uma face do Pantanal: a dos peões e das comitivas, das receitas guardadas por gerações e de quem aprendeu a viver no compasso das águas e das estações.
Em cada passagem pelo Pantanal, alguma coisa parece se rearranjar. Talvez seja por isso que volto mais uma vez a Heráclito: ninguém entra duas vezes no mesmo rio. Já estive ali na seca, na vazante e na cheia e, a cada vez, encontrei outra paisagem, outra luz, outros animais – e, de certo modo, outra viajante em mim.
Serviço
Casa Caiman – Diárias por suíte para até 2 pessoas a partir de R$ 6.821*.
Villa Cordilheira – Diária dos 7 bangalôs (até 16 pessoas) a partir de R$ 70 mil*.
Villa Baiazinha – Diárias das 6 suítes (até 12 pessoas) a partir de R$ 41.400*.
*Diárias incluem todas as refeições, safáris, caminhadas e focagens noturnas (apenas a Villa Cordilheira inclui bebida alcoólica). Saiba mais.
Como chegar
O aeroporto mais próximo da Caiman é o de Campo Grande (MS). De lá, são 210km pela rodovia BR 262 mais 36km de estrada de terra. A fazenda pode organizar o transfer, mas é possível chegar de carro alugado, ainda que não tenha serventia durante a estadia. A fazenda também tem pista de pouso.
Fonte: viagemeturismo





