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Descoberta: Peixe ‘Peludo’ Ganha Nome Inspirado na Vila Sésamo

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Em 2002, durante um mergulho perto de Papua-Nova Guiné, o biólogo marinho David Harasti viu algo estranho preso numa parede de coral. Parecia um tufo de alga vermelha balançando na correnteza. Então aquilo se mexeu.

Harasti fotografou a coisa com uma câmera analógica e só entendeu o que tinha visto quando revelou as imagens na Austrália. “Consegui ver um olho”, relembrou ao The Sydney Morning Herald. “Foi aí que percebi que era realmente um animal.”

O peixe era minúsculo, parecia peludo, alaranjado e tinha um focinho comprido. Harasti procurou em livros e catálogos científicos, mas não encontrou nada parecido. Começava ali uma busca que levaria mais de 20 anos.

Agora, ele e o também biólogo marinho Graham Short anunciaram oficialmente a descoberta da espécie no periódico Journal of Fish Biology

O animal foi batizado de Solenostomus snuffleupagus, em homenagem ao Sr. Snuffleupagus, personagem do programa infantil norte-americano Sesame Street – adaptado no Brasil como Vila Sésamo.

Na série, o Snuffleupagus era apresentado como o misterioso melhor amigo do Garibaldo. Como os adultos nunca conseguiam vê-lo, muitos acreditavam que ele era imaginário.

Com o peixe aconteceu algo parecido: ele passou décadas escapando dos cientistas, mesmo vivendo em recifes bastante explorados.

Boneco Snuffy, personagem do programa Vila Sésamo, sentado, com corpo coberto por pelos marrons, olhos grandes e redondos, e uma língua rosa vibrante saindo da boca, sobre fundo branco
Sr. Snuffleupagus. (Sesame Workshop/Divulgação)

O animal pertence ao grupo dos peixes-cachimbo-fantasma, parentes próximos dos cavalos-marinhos e dragões-marinhos. Eles são especialistas em camuflagem, sendo capazes de se misturar ao ambiente com uma eficiência impressionante.

O corpo do Solenostomus snuffleupagus é coberto por filamentos longos que o fazem parecer um pedaço de alga flutuando no recife. Segundo os pesquisadores, ele é a espécie mais “peluda” já conhecida entre os peixes-cachimbo-fantasma.

Esses filamentos provavelmente ajudam o animal a desaparecer entre algas marinhas vermelhas presentes nos recifes. O peixe costuma ficar pairando perto do fundo, balançando suavemente com a correnteza, quase indistinguível da vegetação ao redor. Confira neste vídeo:

Embora nunca tivesse sido descrito oficialmente, ele já aparecia havia anos em fotos de mergulhadores e em plataformas colaborativas de observação da natureza, como o iNaturalistEm geral, porém, era confundido com outra espécie conhecida, o peixe-cachimbo-fantasma-áspero (Solenostomus paegnius).

Harasti começou a suspeitar que havia algo diferente ali porque aquele peixe aparecia sempre com as mesmas características, como o corpo mais compacto e a cobertura cheia de filamentos.

A confirmação só veio em 2020. O biólogo recebeu mensagens de amigos mergulhadores dizendo que o animal havia sido visto na Grande Barreira de Corais, perto de Cairns, na Austrália. Ele e Graham Short viajaram imediatamente para a região.

O primeiro mergulho não deu em nada. No segundo ponto, porém, encontraram dois exemplares escondidos entre algas vermelhas, a cerca de 15 metros de profundidade: um macho e uma fêmea.

“Eu e o Graham estávamos nos abraçando debaixo d’água. Não estou brincando”, contou Harasti. “Estávamos batendo as mãos, tão animados por aquilo estar ali.”

Os dois espécimes permitiram finalmente descrever formalmente a espécie. A dupla comparou os animais com outras espécies aparentadas usando medições corporais, análises genéticas e tomografias computadorizadas de alta resolução.

O nosso amigo peludo possui 36 vértebras, enquanto outras espécies do grupo têm entre 32 e 34. As tomografias também mostraram diferenças no formato do crânio e pequenas estruturas ósseas em forma de estrela espalhadas pela pele. 

Além disso, o DNA do novo peixe diverge cerca de 22% do Solenostomus paegnius, animal com o qual ele era frequentemente confundido. Segundo os pesquisadores, isso sugere que as duas linhagens evoluem separadamente há cerca de 18 milhões de anos.

As tomografias ainda revelaram restos de um pequeno peixe dentro do estômago de um dos exemplares. É o primeiro registro conhecido de um peixe-cachimbo-fantasma se alimentando de outros peixes. Até então, acreditava-se que esses animais comessem apenas pequenos crustáceos e zooplâncton.

Para os pesquisadores, o estudo destaca a importância da ciência colaborativa. Fotos feitas por mergulhadores recreativos ajudaram os pesquisadores a mapear a distribuição do animal pelo sudoeste do Pacífico, incluindo registros na Austrália, Papua-Nova Guiné, Fiji, Nova Caledônia e Tonga.

Por enquanto, o estado de conservação da espécie ainda é desconhecido. Mas Harasti suspeita que o peixe talvez seja mais comum do que parece – apenas extremamente difícil de enxergar. “As pessoas provavelmente nadam por cima pensando que é apenas um pouco de alga”, concluiu.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo