A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas tem gerado debates entre especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais. Segundo analistas ouvidos pela Agência Brasil, a medida está alinhada à estratégia adotada pelo governo de Donald Trump para a América Latina e pode abrir espaço para maior influência de Washington sobre assuntos internos de países da região.
O professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, avalia que a classificação amplia os instrumentos legais disponíveis ao governo norte-americano. Segundo ele, a legislação dos Estados Unidos permite ações contra integrantes de grupos considerados terroristas sem a necessidade de declaração formal de guerra ou autorização prévia do Congresso.
Na mesma linha, o cientista político e especialista em relações internacionais Francisco Carlos Teixeira da Silva argumenta que a medida faz parte de uma política que atribui aos interesses norte-americanos papel central nas relações com os países latino-americanos. Para o pesquisador, essa postura reforça uma visão de soberania condicionada aos objetivos estratégicos dos Estados Unidos.
Em novembro de 2025, o governo Trump divulgou sua Estratégia Nacional de Segurança, documento que defende a manutenção da proeminência dos Estados Unidos na América Latina. Para Teixeira da Silva, a iniciativa busca fortalecer a influência política e econômica norte-americana no continente em um cenário marcado pelo avanço da presença chinesa em diversos setores.
Os especialistas também relacionam a postura mais assertiva da política externa dos Estados Unidos à disputa global por liderança econômica e tecnológica, especialmente diante do crescimento da influência da China.
Exemplo do México
Ao analisar possíveis consequências da classificação de organizações como terroristas, Teixeira da Silva cita o caso do México. Segundo ele, após cartéis mexicanos receberem essa designação, agentes da CIA atuaram no país sem autorização formal do governo mexicano.
A situação ganhou repercussão após a morte de dois agentes da agência de inteligência norte-americana em um acidente de carro ocorrido em abril deste ano. O episódio provocou reação do governo da presidente Claudia Sheinbaum, que questionou a atuação de agentes estrangeiros sem conhecimento prévio das autoridades nacionais.
Impactos sobre políticas internas
Para o professor de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Prado, a medida pode aumentar a capacidade de pressão política dos Estados Unidos sobre o Brasil. Na avaliação do economista, essa dinâmica poderia reduzir a autonomia brasileira na condução de políticas externas e decisões estratégicas.
Prado também argumenta que a classificação de facções como terroristas pode criar margem para que outros grupos sejam associados a essas organizações em debates políticos. Segundo ele, essa possibilidade poderia ser utilizada para justificar medidas de pressão ou restrições contra determinados segmentos da sociedade.
O professor acrescenta que o histórico da política externa norte-americana inclui ações justificadas pelo combate ao terrorismo em diferentes regiões do mundo. Para ele, a utilização desse enquadramento jurídico amplia as ferramentas disponíveis para intervenções e pressões diplomáticas.
O debate ocorre em meio às discussões sobre soberania nacional, segurança internacional e os limites da atuação de potências estrangeiras em assuntos internos de outros países.
Fonte: cenariomt




