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Confeiteira valoriza tradição centenária com sabores do Quilombo: do pudim de rapadura ao quiche de guariroba

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2026

A mudança de Campo Grande para Furnas do Dionísio, há dois anos, foi um divisor de águas na vida de Silvana de Souza Lucas Santos, de 43 anos. Ao chegar à comunidade quilombola, ela reencontrou a paixão pela confeitaria e descobriu que poderia usar a gastronomia para valorizar os sabores e a cultura de uma das comunidades mais emblemáticas de Mato Grosso do Sul.

Utilizando ingredientes típicos da região, como rapadura, gueroba, melado de cana e castanha de baru, a confeiteira cria releituras de doces e salgados tradicionais.

Do pudim de rapadura ao quiche de gueroba, os Sabores do Quilombo unem criatividade, identidade regional e memória afetiva.

Brigadeiro de rapadura

A primeira criação de Silvana foi uma releitura de um clássico da confeitaria brasileira: o brigadeiro.

Pelas mãos da confeiteira, o doce ganhou como ingrediente principal a rapadura, símbolo da tradição de Furnas do Dionísio. Para finalizar, ela substituiu o granulado de chocolate pela castanha de baru triturada. Assim nasceu o Brigadeiro Fruto Dourado.

A ideia surgiu como forma de apresentar aos próprios moradores uma nova maneira de consumir um produto que faz parte da rotina da comunidade. A produção artesanal de rapadura é uma tradição centenária do quilombo e um dos principais atrativos para visitantes.

No ano passado, Silvana apresentou a novidade durante o tradicional Festival da Rapadura. Desde então, a receita passou por inúmeros testes até chegar ao resultado atual.

“Foi o doce que exigiu mais testes. Eu colocava a rapadura e ele passava do ponto do brigadeiro. Fiz a primeira versão e vendi mais de 100 unidades. Depois passei o ano inteiro estudando formas de aprimorar a receita.”

Silvana de Souza Lucas Santos.

Pudim com sabor de tradição

Para a edição deste ano do festival, Silvana decidiu inovar ainda mais e criou o Pudim Memória de Engenho, também preparado com rapadura produzida na comunidade.

A sobremesa é servida com uma generosa camada de melado de cana, ingrediente que também aparece na cobertura dos bolos produzidos pela confeiteira.

Segundo Silvana, a base da receita é semelhante à do pudim tradicional, mas a rapadura exigiu adaptações.

“Tanto no brigadeiro quanto no pudim eu corto a rapadura bem pequena, derreto e acrescento à receita. Como ela deixa o pudim um pouco mais firme, coloquei creme de leite para devolver a cremosidade.”

Silvana de Souza Lucas Santos.

O desafio da gueroba

As inovações não param nos doces. Outro ingrediente típico de Furnas do Dionísio que ganhou espaço nas receitas é a gueroba (também conhecida como guariroba ou queiroba), palmito nativo do Cerrado famoso pelo sabor amargo.

Ela aparece no recheio da Empada Raízes, preparada com galinha caipira, e também no Quiche Veredas do Quilombo, que leva bacon na composição. O maior desafio foi justamente equilibrar o amargor característico da planta.

“Se você coloca a gueroba no óleo muito quente, ela fica extremamente amarga. Já no óleo frio ou direto no molho, o amargor fica mais suave. Comecei a fazer vários testes em casa até encontrar o ponto ideal.”

Silvana de Souza Lucas Santos.

Além dessas receitas, a coleção Sabores do Quilombo inclui o bombom aberto de brigadeiro de rapadura com crocante de baru, batizado de Joia do Quilombo.

Todos os produtos estarão à venda durante o Festival da Rapadura.

Uma homenagem ao quilombo

Orgulhosa das criações, Silvana explica que cada receita é uma homenagem ao território que passou a chamar de lar.

“Eu entendi que precisava falar um pouco da história de Furnas do Dionísio. Eu amo esse lugar, é um lugar maravilhoso. Entendi que precisava contar um pouco dessa história por meio da minha culinária, da minha gastronomia, daquilo que eu faço. Eu não posso estar aqui e apenas viver aqui; preciso contar um pouco dessa história por meio da minha comida, daquilo que eu faço.”

Silvana de Souza Lucas Santos.

Recomeço

Mas engana-se quem pensa que a confeitaria é um ofício recente na vida de Silvana.

Durante cerca de dez anos, sustentou os quatro filhos produzindo e vendendo doces de porta em porta em Campo Grande. Depois vieram os bolos, as empadas e, mais tarde, o trabalho como diarista.

A mudança para Furnas do Dionísio aconteceu após ela e o marido passarem a visitar semanalmente o cunhado, cadeirante, que morava sozinho na comunidade. Com o tempo, a família percebeu que ele precisava de cuidados permanentes e decidiu se mudar para o quilombo.

Na época, Silvana cursava Teologia e Ciências Biológicas.

“A diária estava muito boa e eu conseguia pagar as duas faculdades. Mas tranquei os cursos, fizemos dois quartos e uma cozinha na casa e viemos para cá cuidar dele.”

Silvana de Souza Lucas Santos.

Mas ela garante que não se arrepende da decisão. Foi em Furnas do Dionísio que ela se reencontrou na confeitaria, recuperou a independência financeira e conseguiu realizar um antigo sonho.

“Voltei a trabalhar com confeitaria e, com esse dinheiro, consegui retornar para a faculdade. Agora, em julho, concluí o curso de Teologia.”

Silvana de Souza Lucas Santos.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Silvana, basta acessar as redes sociais da confeiteira, aqui. Já quem deseja experimentar as receitas pode visitar o Festival da Rapadura, que acontece nos dias 15 e 16 de agosto, em Furnas do Dionísio.

Localizada a cerca de 42 quilômetros de Campo Grande, a comunidade oferece uma excelente opção de bate e volta para quem deseja conhecer a cultura quilombola e experimentar sabores únicos do Cerrado.

Confira o trajeto aqui.

Fonte: primeirapagina

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