Vampiros existem. Mas nĂŁo sĂŁo nada parecidos com os de CrepĂșsculo ou com a estĂ©tica do Conde DrĂĄcula â capas longas, caninos afiados e desgosto mortal por alho, estacas de madeira e luz solar. Na verdade, a Ășnica coisa semelhante Ă ficção Ă© que eles sugam sangue.
Estamos falando dos morcegos-vampiros (Desmodus rotundus), uma espĂ©cie que habita as AmĂ©ricas e Ă© conhecida por seu cardĂĄpio digno de filme de terror. Esses mamĂferos voadores praticam a hematofagia, ou seja, se alimentam de sangue. Mas nĂŁo precisa surtar: raramente a dieta deles envolve sangue humano. O suco vermelho costuma vir de animais da pecuĂĄria, como galinhas, porcos e bois (por serem abundantes), e, Ă s vezes, de aves e outros mamĂferos selvagens.Â
Diferentemente da maioria das espĂ©cies de morcegos, esses fofos bichos tambĂ©m sĂŁo amantes da caminhada â ou melhor, da corrida. A maioria seus parentes animais evita o chĂŁo tal como um vampiro evita o Sol, mas os Desmodus rotundus sĂŁo excelentes corredores.
Com isso em mente, existia uma questĂŁo que intrigava cientistas: se eles nĂŁo ingerem alimentos ricos em carboidratos e lipĂdeos â as principais fontes de energia para nĂłs e a maioria dos mamĂferos â, como conseguem ter força para suas maratonas?Â
Foi isso que um estudo publicado na revista Biology Letters buscou explicar. Os cientistas Kenneth Welch e Giulia Rossi, da Universidade de Toronto (CanadĂĄ), testaram uma hipĂłtese inspirada nas moscas tsĂ©-tsĂ©, insetos africanos que tambĂ©m sĂŁo comedoras de sangue. Essas moscas conseguem metabolizar a prolina, um aminoĂĄcido, para conseguir energia â e os autores da pesquisa suspeitavam que os morcegos poderiam fazer algo parecido.

Foi assim que eles descobriram um superpoder inĂ©dito os vampiros: a capacidade de digerir rapidamente os aminoĂĄcidos de proteĂnas do sangue ingerido.
Onde entra a esteira?
Para testar a hipótese, os pesquisadores coletaram 24 morcegos-vampiros em Belize, na América Central, e deram aos animais doses de sangue de vacas de açougues.
Antes que os animais consumissem o lĂquido, Welch e Rossi separaram o grupo ao meio e acrescentaram glicina e leucina (dois aminoĂĄcidos) nas amostras, criando uma espĂ©cie de âbarrinha de proteĂnaâ para sanguessugas. Cada um dos grupos recebeu o sangue com um dos tipos de proteĂna mais concentrado.
Aqui entra a parte mais divertida da pesquisa â pelo menos para o pĂșblico. Depois da refeição, os animais foram colocados para correr em mini-esteiras (e filmados). Por mais que pareça para muitos algum tipo de tortura, Welch disse ao The New York Times que âse eles nĂŁo quisessem correr na esteira, eles poderiam trapacear e ficar parados ao lado [da esteira]â.
O exercĂcio foi dividido em trĂȘs velocidades: 10 metros por minuto, 20 metros por minuto e 30 metros por minuto, com a intensidade do treino sendo gradualemente aumentada para cada fase. A maioria deles aguentou todos os 90 minutos da atividade.
Veja a performance desses atletas:
A respiração dos vampiros foi registrada ao longo do treino, medindo as taxas de oxigĂȘnio ingeridas e as de diĂłxido de carbono expelidas â que foram usados para identificar vestĂgios de aminoĂĄcidos no sangue dos morcegos.
O estudo revelou que os morcegos-vampiros tĂȘm uma habilidade Ășnica de metabolizar rapidamente os aminoĂĄcidos no sangue que consomem, permitindo que usem esse sangue como fonte de energia imediatamente, quase logo depois do consumo.
A maioria dos mamĂferos, por sua vez, usa carboidratos e gorduras como fontes de energia primĂĄrias, e demora para digerir proteĂnas (que sĂŁo formadas por aminoĂĄcidos).
Porém, todo superpoder tem sua kriptonita (ou, neste caso, sua cabeça de alho): esse processo fez com que esses animais perdessem a capacidade de processar e armazenar outras fontes de energia. Isso significa que a alimentação constante desses bichos é essencial. Nada de dieta ou jejum intermitente: é sangue para dentro toda hora.
Fonte: abril





