Os polvos são conhecidos pelo temperamento, que pode ser bastante agressivo em algumas situações. Um dos embates mais curiosos ocorre com peixes. Pesquisas já mostraram que eles chegam a dar “socos” em peixes que os incomodam: rapidamente, usam um dos oito tentáculos para atingir o animal.
Uma nova pesquisa, desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo, e da Universidade de Lethbridge, no Canadá, decidiu investigar esse comportamento mais a fundo.
Os cientistas descobriram que os golpes dos polvos não são simples surtos de raiva aleatórios. Na verdade, fazem parte de disputas territoriais com algumas espécies de peixes, em interações mais complexas do que se imaginava.
Os resultados foram publicados em julho no periódico científico Behavioral Processes.
A equipe analisou 101 interações envolvendo 38 polvos-de-recife-brasileiros jovens e diferentes espécies de peixes na costa brasileira e em ilhas. Os pesquisadores mergulharam em águas rasas usando snorkel e filmaram os encontros a uma distância suficiente para não interferir no comportamento dos animais.

Mesmo assim, alguns polvos percebiam a presença dos pesquisadores e demonstravam interesse, chegando a tocar nas câmeras. Em uma ocasião, um deles roubou o peso de mergulho que levavam.
Ao analisar as filmagens, os cientistas perceberam que a reação dos polvos não era a mesma em todas as situações.
De modo geral, os momentos de agressividade e os “socos” ocorreram durante encontros com espécies de peixes territoriais, como o peixe-donzela, que tentavam atacar os polvos para defender seu território. Essas interações eram rápidas, com duração média de cerca de 14 segundos. Os peixes cutucavam os polvos com golpes, e os cefalópodes mudavam de comportamento rapidamente: recuavam e, logo depois, davam um golpe com um dos braços.
Ou seja, os polvos parecem ajustar seu comportamento de acordo com a atitude dos peixes. Em alguns casos, a disputa territorial se transforma em um verdadeiro “clube da luta” marinho.
Já os encontros com peixes não territoriais, como o peixe-cirurgião-azul, eram mais longos, com duração média de cerca de 46 segundos, e envolviam menos conflitos. Muitas vezes, o peixe apenas acompanhava o polvo enquanto ele caçava, sem provocar uma reação significativa.
Outro detalhe observado pelos pesquisadores foi a existência de diferentes “personalidades” entre os polvos, que apresentavam comportamentos que iam de mais tímidos a mais reativos. Essa variação ainda será investigada em estudos futuros, que deverão avaliar se essas características são influenciadas por sexo e idade ou se permanecem consistentes ao longo do tempo.
“Nossos resultados demonstraram que a territorialidade dos peixes influencia diretamente a natureza, a duração, a intensidade e os desfechos desses encontros, reforçando a ideia de que tais interações interespecíficas são adaptativas e altamente dependentes do contexto”, escrevem os autores no estudo.
Fonte: abril





