Antes de ser uma pessoa em situação de rua, existe uma história.
Existe um nome, uma família, perdas, escolhas, vínculos rompidos, sonhos que talvez tenham ficado pelo caminho e, muitas vezes, uma longa trajetória de invisibilidade. É justamente para atravessar essa distância entre a pessoa e os serviços públicos que a Prefeitura de Sinop, por meio da Secretaria de Assistência Social e do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Pública para a População em Situação de Rua (CIAMP-Rua Sinop), realizou nesta quarta-feira (19) o Mutirão da Cidadania para Pessoas em Situação de Rua.
Realizado das 7h às 12h, na Casa de Passagem de Sinop, o mutirão reuniu diferentes secretarias municipais, instituições públicas, entidades parceiras e voluntários em uma manhã dedicada não apenas à oferta de serviços, mas ao encontro.
A proposta foi levar para um mesmo espaço atendimento de assistência social, saúde, trânsito, esporte, cultura, educação, orientação jurídica, trabalho e acolhimento. Entre os serviços disponibilizados estiveram atendimentos do CREAS, orientações da Defensoria Pública, vacinação, informações de saúde, serviços do Sine, corte de cabelo e barba, orientações sobre benefícios eventuais e possibilidades de acolhimento por entidades parceiras.
Mas, por trás de cada atendimento, havia algo que não cabe em uma lista de serviços: a oportunidade de alguém ser visto.
UM OLHAR QUE COMEÇA ANTES DO ATENDIMENTO
Para a coordenadora da Proteção Social Especial, Marilene Pereira, a importância da iniciativa está justamente em compreender que enfrentar a situação de rua exige mais do que oferecer um serviço pontual.
“Esse momento é importante porque nos permite chegar mais perto das pessoas, olhar para cada uma delas com respeito e compreender que por trás da situação de rua existe uma história de vida. A nossa responsabilidade, enquanto poder público e enquanto sociedade, é construir caminhos possíveis. Nem sempre a pessoa está pronta para aceitar um encaminhamento naquele primeiro momento, e precisamos entender isso também. O cuidado é um processo, exige vínculo, escuta, presença e continuidade. Quando conseguimos reunir diferentes políticas públicas em um mesmo espaço, mostramos que essa pessoa não está sozinha e que existem portas que podem ser abertas.”
A fala traduz um dos principais desafios da política de assistência social: fazer com que a proteção chegue até quem, muitas vezes, já perdeu a confiança nas instituições.
O CAPS E A IMPORTÂNCIA DE ESCUTAR ANTES DE ENCAMINHAR
Entre os profissionais presentes estava a equipe do CAPS. Para o psicólogo Tiago do Amaral Conejo, o trabalho começa muito antes de qualquer diagnóstico ou encaminhamento.
“Às vezes, a primeira coisa que uma pessoa precisa não é de uma resposta, mas de alguém disposto a ouvi-la. O acolhimento começa quando conseguimos olhar para essa pessoa sem reduzi-la à condição em que ela se encontra. O sofrimento psíquico precisa ser compreendido dentro da história de cada indivíduo, dentro dos seus vínculos, das suas perdas e também das suas possibilidades.”
Para o psicólogo, a atuação da saúde mental ganha ainda mais força quando acontece de maneira articulada com os demais serviços da rede.
“O trabalho do CAPS não acontece isoladamente. Quando articulamos a saúde mental com a assistência social, as casas de acolhimento e os demais serviços da rede, conseguimos construir um cuidado mais completo. Não se trata apenas de tratar um sofrimento, mas de ajudar a pessoa a recuperar autonomia, reconstruir vínculos, reconhecer suas próprias capacidades e encontrar possibilidades para voltar a ocupar espaços na sociedade. A reinserção social não acontece de um dia para o outro. Ela começa muitas vezes em uma conversa, em uma escuta, em alguém que acredita que aquela história ainda pode ter novos capítulos.”
É nesse ponto que o mutirão ganha uma dimensão que ultrapassa a prestação de serviços.
Porque cidadania também é ter alguém que pergunte: “Como você está?” — e esteja disposto a ouvir a resposta.
CUIDAR TAMBÉM É RECONHECER POSSIBILIDADES
A assistente social do CAPS, Débora Ferreira, destaca que o trabalho com a população em situação de rua exige uma atuação que considere a pessoa em sua integralidade.
“Quando falamos de uma pessoa em situação de rua, não podemos enxergar apenas a ausência de uma casa. Precisamos compreender tudo aquilo que existe ao redor dessa realidade: os vínculos familiares, o acesso à saúde, à documentação, à renda, ao trabalho, à educação, à moradia e, principalmente, a história daquela pessoa. O nosso trabalho é construir possibilidades junto com ela, respeitando seu tempo e suas escolhas.”
Segundo Débora, a articulação entre os serviços é fundamental para que o atendimento não termine quando a pessoa deixa a porta de uma instituição.
“Nenhum serviço consegue responder sozinho a uma realidade tão complexa. Quando CAPS, assistência social, casas de acolhimento, saúde, trabalho, Defensoria e outras políticas caminham juntas, conseguimos oferecer uma rede de proteção mais humana e efetiva. Às vezes, uma pequena intervenção representa um grande passo para aquela pessoa. Um documento recuperado, uma consulta realizada, uma conversa, um encaminhamento, a retomada de um vínculo. São coisas que podem parecer pequenas para quem olha de fora, mas podem significar o começo de uma mudança.”
A RUA NÃO DEFINE UMA PESSOA
A situação de rua costuma ser percebida pelo que é mais visível: o corpo na calçada, a mochila, a ausência de uma residência, a vulnerabilidade.
Mas o trabalho desenvolvido pela rede de proteção social propõe uma inversão desse olhar.
Em vez de perguntar apenas “por que essa pessoa está na rua?”, é preciso perguntar também “o que aconteceu no caminho?”, “quais vínculos foram rompidos?”, “que direitos deixaram de ser acessados?” e, sobretudo, “o que podemos construir a partir de agora?”
Essa mudança de perspectiva é essencial para que a política pública não se limite à assistência emergencial, mas possa atuar na reconstrução da autonomia e na garantia de direitos.
O acolhimento, nesse sentido, não significa apenas oferecer um lugar para dormir. Significa criar condições para que a pessoa possa, gradualmente, reconstruir referências, vínculos e projetos de vida.
UMA REDE QUE PRECISA FUNCIONAR COMO REDE
A presença de diferentes setores no mesmo espaço também revela um princípio fundamental: nenhuma política pública, sozinha, consegue enfrentar todas as dimensões da situação de rua.
A assistência social pode acolher e acompanhar. A saúde pode cuidar. O CAPS pode trabalhar as questões relacionadas à saúde mental. A Defensoria pode orientar sobre direitos. O Sine pode aproximar oportunidades de trabalho. A educação pode abrir novos caminhos. As entidades parceiras podem oferecer acolhimento e apoio.
Quando essas ações se conectam, o atendimento deixa de ser fragmentado e passa a formar uma rede.
E talvez essa seja uma das maiores mensagens deixadas pelo Mutirão da Cidadania: não basta oferecer portas; é preciso ajudar as pessoas a encontrarem caminhos para atravessá-las.
MAIS DO QUE UM MUTIRÃO
O evento realizado na Casa de Passagem de Sinop representa uma manhã de atendimentos, mas seu significado pode ser maior.
É um exercício de aproximação entre o poder público e pessoas que, muitas vezes, vivem à margem dos espaços onde as políticas públicas tradicionalmente chegam.
É também um convite à sociedade para rever a maneira como enxerga quem vive nas ruas.
Porque ninguém deveria ser definido pelo endereço que não tem.
E nenhuma história deveria ser considerada encerrada apenas porque, em algum momento, perdeu o caminho.
Na Casa de Passagem, entre documentos, vacinas, orientações, conversas, cortes de cabelo e encaminhamentos, o que se buscou foi algo essencial: reconectar pessoas a direitos, serviços, vínculos e possibilidades.
No fim, talvez o gesto mais transformador de uma política pública seja justamente aquele que parece mais simples: parar diante de alguém, ouvir sua história e dizer, com ações concretas, que aquela vida ainda importa.
Porque cidadania não é apenas ter acesso a um serviço. É voltar a sentir que se pertence a algum lugar.
Fonte: cenariomt





