Saúde

Apostas: Especialistas alertam para os riscos à saúde mental

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2026

Profissionais de saúde mental alertam para os impactos da dependência em apostas virtuais, conhecidas como bets, sobre pessoas que já enfrentam sofrimento psíquico. O tema ganhou destaque durante o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, celebrado nesta quinta-feira (10), com especialistas defendendo uma abordagem aberta durante o tratamento.

Segundo profissionais ouvidos pela Agência Brasil, sinais como desesperança, sensação de falta de saída, afastamento do convívio social, aumento do consumo de álcool e mudanças importantes de comportamento merecem atenção. Falas relacionadas à morte ou à vontade de não viver também indicam a necessidade de buscar ajuda.

Dependência e sofrimento emocional

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, defende que a ideação suicida seja abordada de maneira mais aberta tanto nos consultórios quanto em grupos terapêuticos. Para ela, o manejo adequado pode contribuir para reduzir riscos e ampliar as possibilidades de cuidado.

A especialista explica que pessoas que procuram atendimento por causa da ludopatia, caracterizada pelo desejo incontrolável de continuar jogando, frequentemente chegam ao serviço com humor deprimido e altos níveis de ansiedade. Os prejuízos financeiros provocados pelas apostas podem intensificar o sofrimento e, nos casos mais graves, estar acompanhados de pensamentos de morte e ideação suicida.

O mecanismo das apostas

O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Rio de Janeiro, explica que a dependência também envolve mecanismos orgânicos. Durante uma aposta, a expectativa de obter uma recompensa pode estimular a liberação de dopamina, influenciando regiões do cérebro relacionadas às decisões e ao comportamento.

De acordo com o especialista, esse sistema de recompensa pode ganhar força diante do chamado reforço intermitente, fazendo com que os mecanismos de controle das decisões sejam prejudicados. Maia considera importante reforçar ações de cuidado em saúde mental durante o Setembro Amarelo, incluindo a busca por serviços de apoio.

O tratamento, segundo ele, pode envolver diferentes áreas, como medicina, psicologia e atividade física, em estratégias combinadas para auxiliar na recuperação.

Quando procurar ajuda

Maia também observa que a pessoa dependente pode incorporar a aposta à rotina e não reconhecer sozinha a dimensão do problema. Nesse contexto, familiares e amigos podem exercer papel importante na identificação da situação e na busca por atendimento.

A psiquiatra Kátia Branco afirma que o adoecimento pode vir acompanhado de endividamento, depressão, ansiedade e comportamento suicida. Para a psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Apoio Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, pessoas dependentes e seus familiares devem procurar ajuda profissional o quanto antes.

Segundo Feres, os serviços de saúde recebem pacientes que apresentam pensamentos suicidas ou que já fizeram tentativas. O acolhimento, nesses casos, deve envolver também a família e considerar estratégias de cuidado que façam sentido para todos. A psicóloga avalia ainda que o problema não deve ser tratado apenas como uma questão individual relacionada ao uso do celular, mas como uma situação que também exige respostas coletivas.

Apostas online e aumento do risco

A psiquiatra Giovanna Quinet, que trabalha no Rio de Janeiro, ressalta que não é possível afirmar que apostar necessariamente provocará depressão ou pensamentos suicidas em todas as pessoas. O risco se torna mais preocupante quando o jogo deixa de ser ocasional e passa a ocupar um espaço central na vida, acompanhado de perda de controle e consequências negativas.

As apostas online apresentam uma característica que amplia a exposição: estão disponíveis no celular praticamente durante todo o dia. A presença constante também se associa à publicidade, ao esporte e às redes sociais, o que pode contribuir para a normalização do comportamento e dificultar a percepção de que o limite entre entretenimento e problema foi ultrapassado.

Um dos ciclos descritos pelos especialistas começa com apostas motivadas por entretenimento ou pela expectativa de ganhar dinheiro. Com as perdas, a pessoa pode aumentar os valores apostados para tentar recuperar o que perdeu e esconder dos familiares a dimensão das dívidas. O processo pode resultar em conflitos familiares, prejuízos no trabalho, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento.

Esse estado de desesperança pode estar associado à depressão e elevar o risco de pensamentos e comportamentos suicidas. Por isso, os especialistas defendem que a procura por ajuda não seja adiada até que a situação chegue a um estágio extremo.

O tratamento psiquiátrico e o uso de medicamentos podem ser necessários em determinados casos. Giovanna Quinet também reforça que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não significa induzir esse tipo de comportamento. A abordagem pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre um sofrimento mantido em silêncio.

Atuação coordenada

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) reconhece a importância do debate sobre a prevenção ao jogo problemático e a proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade. A entidade afirma que, desde o início do mercado federal regulado, em janeiro de 2025, as empresas autorizadas passaram a operar sob regras e controles específicos relacionados à proteção do consumidor e ao jogo responsável.

Para o instituto, o enfrentamento do jogo problemático exige atuação coordenada entre poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade. O setor também afirma que, com a regulamentação, a publicidade passou a seguir regras específicas e rigorosas.

Onde buscar atendimento

Em situações de risco de suicídio, os profissionais recomendam que a pessoa não fique sozinha e que seja procurado atendimento de urgência. O Samu atende pelo telefone 192.

Para pessoas em sofrimento emocional que precisam conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. A Rede de Atenção Psicossocial do SUS também disponibiliza serviços de atendimento, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

As informações desta reportagem foram fornecidas pela Agência Brasil.

Fonte: cenariomt

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