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Quem criou a palavra drag se nĂŁo Shakespeare? Descubra a origem desse termo!

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2026

Existe uma teoria, bastante espalhada pela internet, de que a palavra “drag” seria um acrĂŽnimo de “Dressed Resembling A Girl” (“vestido para parecer uma garota”) e que teria sido criada por William Shakespeare, o famoso dramaturgo britĂąnico. Essa histĂłria Ă© um mito, mas com pitadas de verdade. Para desfazer esse nĂł, precisamos voltar alguns sĂ©culos no tempo.

Em primeiro lugar, Ă© preciso separar a palavra drag como verbo, no sentido de “puxar” ou “arrastar”, do substantivo que abriga o sentido de pessoa travestida. O verbo vem do inglĂȘs mĂ©dio draggen, que jĂĄ existia sĂ©culos antes de Shakespeare. Esse termo, por sua vez, vem do nĂłrdico antigo draga, jĂĄ com o sentido de “puxar” ou “arrastar”. Isso coloca a palavra dentro de um grupo antigo de vocabulĂĄrio germĂąnico comum no norte da Europa — ou seja, nĂŁo Ă© uma criação literĂĄria, mas uma herança linguĂ­stica. 

‘William’ e ‘Guilherme’ são o mesmo nome; entenda

Agora, “drag” como referĂȘncia a pessoas travestidas Ă© um conceito com origem mais nebulosa. Acredita-se que o termo tenha nascido no teatro, relacionado aos vestidos que os homens travestidos usavam.  Segundo o jornalista e pesquisador Roger Baker, em seu livro Drag: uma histĂłria da imitação feminina no palco, o termo “drag” era uma gĂ­ria que descrevia “a anĂĄgua ou saia usada por atores ao interpretarem papĂ©is femininos”, sugerindo que a palavra deriva do arrasto do vestido no chĂŁo, em contraste com o fato de as calças nĂŁo arrastarem.

Essa teoria Ă© muito difundida, mas nĂŁo existe certeza absoluta sobre sua veracidade. E, mesmo que seja verdadeira, hĂĄ ainda outro problema: quando surgiu?

Para além da etimologia

É aqui que entra Shakespeare. O escritor começou a fazer as montagens das suas peças no final do sĂ©culo 16 e começo do sĂ©culo 17, quando as regras da Igreja eram claras: apenas homens podiam trabalhar como atores. Por isso, eles faziam tambĂ©m os papĂ©is femininos. É possĂ­vel que, nesse momento, o termo tenha começado a se difundir.

Uma aposta mais segura, entretanto, Ă© que essa definição de “drag” apareceu mais tarde, nos sĂ©culos 18 ou 19. Lady J, uma artista drag que pesquisa a histĂłria dessa arte, traça a origem do termo Ă  Inglaterra vitoriana da dĂ©cada de 1860, quando Ernest Boulton, da dupla Boulton e Park, descreveu sua performance de travestismo como “drag” — o primeiro uso documentado conhecido do termo. 

Os homens que se vestiam com roupas femininas em pĂșblico e criavam pseudĂŽnimos para essa nova persona existiam pelo menos desde o sĂ©culo 18. Eles nĂŁo necessariamente se chamavam de “drag queens”, mas o conceito estava ali. A primeira drag queen do Reino Unido, chamada Seraphina e apelidada por muitos de “princesa”, viveu no começo do sĂ©culo 18.

De qualquer forma, foi no século 20 que o termo se popularizou e passou a descrever não apenas uma atividade (o travestismo), como também uma forma de arte e uma identidade. Os bailes drag no bairro do Harlem em Nova York, que explodem a partir da década de 1920, marcam a exposição desse grupo para fora do circuito fechado, numa época em que as drags também passaram a se proliferar em shows de casas noturnas e apresentaçÔes de cabaré.

Nos anos 1960, com a ascensĂŁo da cultura gay, as drag queens ganharam ainda mais visibilidade social. “Foi durante esse perĂ­odo pĂłs-guerra que as drag queens emergiram como figuras importantes na comunidade gay. Na dĂ©cada de 1960, elas se tornaram muito visĂ­veis durante a violĂȘncia entre a polĂ­cia e as comunidades gays tanto em SĂŁo Francisco quanto na cidade de Nova York”, afirma um estudo da Universidade de Nevada.

Ao longo da histĂłria, as drags foram sinĂŽnimo de arte, irreverĂȘncia e desafio Ă s convençÔes da sociedade (especialmente as excludentes e preconceituosas). Pode ser que nunca saibamos ao certo de onde o termo vem. Mas sabemos que veio para ficar.

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo