Existe uma teoria, bastante espalhada pela internet, de que a palavra âdragâ seria um acrĂŽnimo de âDressed Resembling A Girlâ (âvestido para parecer uma garotaâ) e que teria sido criada por William Shakespeare, o famoso dramaturgo britĂąnico. Essa histĂłria Ă© um mito, mas com pitadas de verdade. Para desfazer esse nĂł, precisamos voltar alguns sĂ©culos no tempo.
Em primeiro lugar, Ă© preciso separar a palavra drag como verbo, no sentido de âpuxarâ ou âarrastarâ, do substantivo que abriga o sentido de pessoa travestida. O verbo vem do inglĂȘs mĂ©dio draggen, que jĂĄ existia sĂ©culos antes de Shakespeare. Esse termo, por sua vez, vem do nĂłrdico antigo draga, jĂĄ com o sentido de âpuxarâ ou âarrastarâ. Isso coloca a palavra dentro de um grupo antigo de vocabulĂĄrio germĂąnico comum no norte da Europa â ou seja, nĂŁo Ă© uma criação literĂĄria, mas uma herança linguĂstica.Â
Agora, âdragâ como referĂȘncia a pessoas travestidas Ă© um conceito com origem mais nebulosa. Acredita-se que o termo tenha nascido no teatro, relacionado aos vestidos que os homens travestidos usavam. Segundo o jornalista e pesquisador Roger Baker, em seu livro Drag: uma histĂłria da imitação feminina no palco, o termo âdragâ era uma gĂria que descrevia âa anĂĄgua ou saia usada por atores ao interpretarem papĂ©is femininosâ, sugerindo que a palavra deriva do arrasto do vestido no chĂŁo, em contraste com o fato de as calças nĂŁo arrastarem.
Essa teoria Ă© muito difundida, mas nĂŁo existe certeza absoluta sobre sua veracidade. E, mesmo que seja verdadeira, hĂĄ ainda outro problema: quando surgiu?
Para além da etimologia
Ă aqui que entra Shakespeare. O escritor começou a fazer as montagens das suas peças no final do sĂ©culo 16 e começo do sĂ©culo 17, quando as regras da Igreja eram claras: apenas homens podiam trabalhar como atores. Por isso, eles faziam tambĂ©m os papĂ©is femininos. Ă possĂvel que, nesse momento, o termo tenha começado a se difundir.
Uma aposta mais segura, entretanto, Ă© que essa definição de âdragâ apareceu mais tarde, nos sĂ©culos 18 ou 19. Lady J, uma artista drag que pesquisa a histĂłria dessa arte, traça a origem do termo Ă Inglaterra vitoriana da dĂ©cada de 1860, quando Ernest Boulton, da dupla Boulton e Park, descreveu sua performance de travestismo como âdragâ â o primeiro uso documentado conhecido do termo.Â
Os homens que se vestiam com roupas femininas em pĂșblico e criavam pseudĂŽnimos para essa nova persona existiam pelo menos desde o sĂ©culo 18. Eles nĂŁo necessariamente se chamavam de âdrag queensâ, mas o conceito estava ali. A primeira drag queen do Reino Unido, chamada Seraphina e apelidada por muitos de âprincesaâ, viveu no começo do sĂ©culo 18.
De qualquer forma, foi no século 20 que o termo se popularizou e passou a descrever não apenas uma atividade (o travestismo), como também uma forma de arte e uma identidade. Os bailes drag no bairro do Harlem em Nova York, que explodem a partir da década de 1920, marcam a exposição desse grupo para fora do circuito fechado, numa época em que as drags também passaram a se proliferar em shows de casas noturnas e apresentaçÔes de cabaré.
Nos anos 1960, com a ascensĂŁo da cultura gay, as drag queens ganharam ainda mais visibilidade social. âFoi durante esse perĂodo pĂłs-guerra que as drag queens emergiram como figuras importantes na comunidade gay. Na dĂ©cada de 1960, elas se tornaram muito visĂveis durante a violĂȘncia entre a polĂcia e as comunidades gays tanto em SĂŁo Francisco quanto na cidade de Nova Yorkâ, afirma um estudo da Universidade de Nevada.
Ao longo da histĂłria, as drags foram sinĂŽnimo de arte, irreverĂȘncia e desafio Ă s convençÔes da sociedade (especialmente as excludentes e preconceituosas). Pode ser que nunca saibamos ao certo de onde o termo vem. Mas sabemos que veio para ficar.
Fonte: abril





