Séculos antes da conquista romana da Grã-Bretanha, no ano 43 depois de Cristo, vivia no nordeste da Inglaterra uma sociedade possivelmente organizada em torno de mulheres. Foi o que revelou um estudo que ainda aguarda revisão por pares, disponível no repositório bioRxiv.
A cultura Arras era famosa por seus sepultamentos: naquela sociedade, indivíduos de alto status social eram enterrados junto a sua carruagem. Pesquisadores sequenciaram o DNA de 534 indivíduos sepultados e observaram hábitos que fogem do esperado para mulheres daquela época. Pelo menos 12 delas tiveram filhos com mais de um homem e foram enterradas próximo de parentes mulheres, como sua mãe.
Os homens, por sua vez, frequentemente não estavam nestes locais. Em alguns casos, um homem nascido em uma região teve filhos em outra – ou seja, eram os homens que se deslocavam, enquanto as mulheres permaneciam no mesmo lugar. Houve apenas um caso em que um homem teve filhos com mais de uma mulher (no caso, com a mulher e com a filha dela).
A análise genética também revelou que indivíduos da mesma linhagem evitavam ter filhos entre si. Pesquisadores acreditam que o comportamento foi deliberado, já que os indivíduos viviam em pequenos grupos onde grande parte dos integrantes possuía laços de parentesco. “Esse comportamento demonstra um conhecimento detalhado do pertencimento a linhagens maternas ao longo de muitas gerações e, possivelmente, de centenas de anos”, observa o estudo.
Ainda assim, não podemos dizer que se trata de uma sociedade verdadeiramente matriarcal. Isso porque não há provas de que as mulheres exercessem o monopólio do poder. O que se observa, na prática, é uma cultura em que as mulheres têm papel importante – às vezes central –, mas não exclusivo. Até hoje, não há evidências de que tenha existido, de fato, um matriarcado ao longo da história.
Termos como “matrilinearidade” (quando a herança e a linhagem passam pela mãe) ou “matrifocalidade” (quando a mulher ocupa o centro da vida familiar) descrevem melhor esse sistema social.
Pesquisadores tratam o caso de Arras como uma sociedade matrilocal. Nesse sistema, o homem se muda para a casa da mulher após o casamento, e não o contrário. A matrilocalidade, por si só, não significa necessariamente que as mulheres governavam a sociedade, mas ela está associada a um status mais elevado e a melhores condições para as mulheres. Pense assim: o indivíduo que deixa sua casa para viver com a família do parceiro depende dessa família e, portanto, está em uma posição mais vulnerável do que o outro.
A ideia de que as primeiras sociedades teriam sido lideradas por mulheres surgiu na década de 1860. Logo, porém, antropólogos rejeitaram a hipótese, acreditando que o patriarcado seria a ordem natural desde o início dos tempos. Foi somente em 1950, com a descoberta de mulheres sepultadas na antiguidade, que a ideia ressurgiu. Sabemos agora que, no mínimo, algumas mulheres desfrutaram de um status elevado em seus círculos sociais.
No ano passado, por exemplo, outro estudo fez o sequenciamento genético de cerca de 50 indivíduos sepultados no sudoeste da Inglaterra. Assim como em Arras, as mulheres deste caso permaneciam em suas terras de origem, enquanto os homens se deslocavam.
No caso da Grã-Bretanha, as evidências arqueológicas agora apontam para uma Idade do Ferro mais igualitária do que o imaginado anteriormente.
À NewScientist, especialistas afirmam que é possível dizer até mesmo que algumas mulheres participaram de combates contra Roma – isso com base em lesões ósseas encontradas nos corpos sepultados.
“A descendência por linhagem materna não era um aspecto incidental das comunidades da cultura Arras, mas sim um princípio organizador central – tal como provavelmente ocorria, de modo mais amplo, nas comunidades da Grã-Bretanha durante a Idade do Ferro.”
Fonte: abril





