Diversas mitologias antigas trazem exemplos de homossexualidade ou de relações amorosas diferentes da heterossexualidade, refletindo como esses temas eram tratados nas respectivas sociedades. Na Grécia Antiga, algumas formas de relacionamento afetivo e sexual entre pessoas do mesmo sexo eram socialmente aceitas em diversos contextos, embora o casamento e a formação de famílias permanecessem centrados em relações heterossexuais. Por isso, deuses como Zeus e Apolo aparecem em várias histórias com amantes tanto masculinos quanto femininos.
A lista abaixo traz alguns exemplos de como a não-heteronormatividade é apresentada na mitologia grega. Confira:
Zeus e Ganimedes

Zeus, a maior autoridade do Olimpo, era um deus bastante promíscuo: pegava deusas, ninfas e mortais e fazia filhos com quase todas, sem pudor nenhum. Por causa disso, sua árvore genealógica é uma bagunça.
Mas seu desejo não se restringia às mulheres. Segundo a lenda, Ganimedes era um mortal adolescente, príncipe de Tróia, que foi escolhido por Zeus para ser copeiro dos deuses e levado ao Olimpo. Em troca, o pai do garoto ganhou um par de cavalos. Em algumas variações da história, o deus se transforma num pássaro para capturar o mortal.
Há várias versões desse mito, mas, em geral, descreve-se que Zeus ficou arrebatado pela beleza de Ganimedes e o quis para si. Em algumas histórias, a relação dos dois é sexual; em outras, não.
“O mito de Zeus-Ganimedes ganhou imensa popularidade na Grécia e em Roma porque fornecia justificativa religiosa para o amor apaixonado de um homem maduro por um garoto”, escreve o historiador Robert Graves em sua seminal obra Os Mitos Gregos. Segundo ele, esse conto converteu a filosofia grega num “jogo intelectual em que os homens podiam jogar sem a ajuda das mulheres, agora que haviam encontrado um novo campo de romance”.
Também segundo Graves, o filósofo Platão usava o mito de Ganimedes para justificar seus próprios sentimentos pelos seus discípulos.
Apolo e Jacinto

Assim como seu pai Zeus, Apolo também se relacionou e engravidou uma série de ninfas e mulheres mortais. Mas talvez seu maior amor tenha sido o príncipe espartano Jacinto, por quem se apaixonou. Nesse jogo amoroso, Apolo tinha dois rivais: o poeta Tamiris e Zéfiro, deus do vento do Oeste.
Depois de providenciar que as musas deixassem Tamiris cego e mudo, Apolo se aproximou de Jacinto. Certo dia, Zéfiro viu Apolo ensinando Jacinto a arremessar um disco e, furioso de ciúmes, agarrou o disco no ar e lançou-o contra o crânio de Jacinto, matando-o. Do sangue brotou a flor que hoje leva seu nome.
Hermes

O mensageiro dos deuses é descrito em vários mitos como tendo amantes masculinos. Numa variação da história de Jacinto, foi Crocus, amante de Hermes, quem morreu atingido por um disco arremessado por um deus e depois foi transformado em flor. Alguns mitos sugerem um relacionamento romântico entre Hermes e o herói Perseu. E enquanto algumas histórias mencionam Dafnis, o inventor da poesia pastoral, como filho de Hermes, outras fontes afirmam que ele era o amante predileto do deus da velocidade.
Narciso

Conta-se que o semideus Narciso, aos 16 anos, já tinha um “caminho repleto de apaixonados de ambos os sexos, friamente rejeitados, tal era o obstinado orgulho que ele sentia de sua própria beleza”, segundo Robert Graves. O pretendente mais insistente era um jovem chamado Ameinias. Cansado dos avanços, Narciso mandou a ele uma espada e Ameinias se matou com ela, implorando aos deuses que vingassem sua morte.
Quem ouviu a súplica foi Artemis, deusa da caça. Ela fez Narciso se apaixonar por si mesmo ao ver sua própria imagem refletida na água de um riacho. De início, Narciso tentou abraçar e beijar o belo jovem que via. Quando se deu conta de que era ele mesmo, foi consumido pela dor e acabou se matando com uma adaga.
Pã

O deus dos pastores e da natureza selvagem Pã tem pais diferentes de acordo com o conto — os mais prováveis são Zeus e Híbris. Era conhecido pela feiura: nasceu com chifres, barba, rabo e pés de bode, de modo que não era bem-vindo no Olimpo. Ele preferia viver nas montanhas, onde cuidava de rebanhos, ajudava caçadores e participava de orgias animadas com as ninfas.
As esculturas geralmente retratam Pã com o pênis ereto e o escroto inchado, perseguindo homens e mulheres em busca de sexo.
Dionísio

O deus do vinho foi criado como menina entre mortais para escondê-lo de Hera, que odiava o garoto por ser filho de Zeus com outra pessoa. Cresceu afeminado e, já adulto, foi encontrado por Hera, que o enlouqueceu, fazendo-o deixar a Grécia. Passou um longo tempo longe, conduzindo campanhas militares sangrentas no Egito e na Índia. Quando voltou, foi purificado por Reia dos assassinatos que cometeu durante sua loucura e passou a organizar orgias no monte Citéron.
Embora Dionísio tenha casado com a bela Ariadne, as histórias também registram diversos amantes homens, como o sátiro Ampelos e o jovem mortal Adônis (que Dionísio raptou para tê-lo apenas para si, já que Afrodite também o queria). Devido à sua criação como menina, seu jeito afeminado e sua identidade andrógina, Dionísio é citado, em análises contemporâneas, como patrono das pessoas não-binárias e transgêneros.
Héracles

Segundo o historiador grego Plutarco, a lista de amantes do semideus Héracles (ou Hércules, no seu nome romano) “ia além de qualquer número”, incluindo muitos do sexo masculino, como Jasão, Adônis e Iolau. Esse último, Iolau, acompanhou Hércules em sua expedição contra Tróia, bem como em alguns de seus trabalhos, servindo como cocheiro e escudeiro.
Na ocasião em que foi capturado pela rainha mitológica Ônfale, Héracles foi forçado a usar roupas femininas enquanto ela vestia sua famosa pele de leão. Ao escrever sobre essa história, o autor cristão primitivo Tertuliano se refere a Hércules como “impudicus”, ou seja, sexualmente imoral, e sugere que Héracles foi obrigado a servir passivamente como escravo sexual de Ônfale. Nada disso, porém, alterou seu status de herói grego ou de símbolo masculino.
Artemis

A característica que Artemis nunca perde nas histórias é a de ser “infalivelmente virgem”. Protetora das mulheres e conectada à natureza, Artemis tinha a virgindade como um traço que ela prezava em si e nas companheiras que mantinha ao seu redor.
O poeta Calímaco lista algumas de suas companheiras virgens: a cretense Britomártis, “a quem ela amava acima de todas as outras”; a cretense Oupis; Cirene, filha de Hipsio; “a bela Anticleia, a quem ela amava como a seus olhos” e a corredora Atalanta.
A especialista em estudos helenísticos Rebecka Lindau afirma que “a aversão de Ártemis aos homens, sua virgindade eterna, sua companhia e proteção às mulheres e seu papel nos rituais de maturação das meninas têm um subtexto homoerótico semelhante ao de seu gêmeo Apolo”.
Fonte: abril





