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Colapso da Era do Bronze: Entenda a Odisseia e os MistĂ©rios dos ‘Povos do Mar’

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2026

Em A Odisseia, o novo filme de Christopher Nolan que adapta a clássica história de Homero, há menções frequentes aos temidos “povos do mar”. Na história, esses invasores são descritos como uma ameaça misteriosa que chega de barco e pode devastar cidades da região do Mediterrâneo, incluindo Ítaca, a terra de Odisseu.

Os “povos do mar” são, inclusive, uma peça central na mensagem final da adaptação de Nolan, que traz uma espécie de reflexão sobre as guerras e seus impactos na sociedade.

O filme também faz menções frequentes à ideia de uma “civilização em colapso” – que, às vezes, soam forçadas e descritivas demais, além de para lá de anacrônicas. Isso porque o longa está claramente fazendo referência a uma acontecimento histórico real, que aconteceu no século 12 a.C., mais ou menos na mesma época retratada no filme: o “apocalipse da Idade do Bronze”.

Não se sabe se a Guerra de Troia realmente aconteceu, mas é possível que ela tenha se inspirado em um ou mais conflitos reais que aconteceram nesta época, que foram preservados na tradição oral até serem eternizados nos poemas de Homero, A Odisseia e A Ilíada, no século 8 a.C. 

De qualquer forma, logo depois da suposta guerra, a região do Mediterrâneo, que abrigava diversas civilizações poderosas, complexas e interconectadas, passou por um processo de declínio intenso.

Cidades foram destruídas ou abandonadas, a população da região diminuiu fortemente, a produção artística e literária caiu ou cessou em vários locais, redes de comércio deixaram de existir. Em poucas décadas, o mundo como aquelas pessoas conheciam acabou. Por quê?

Romanos usavam fĂłssil de trilobita como joia

Um dos motivos possíveis são justamente os “povos do mar”, misteriosos atacantes que vinham do oceano e podem ter ajudado a destruir impérios com violência. Até hoje, não sabemos a identidade exata de quem foram esses navegantes, no entanto.

E, de qualquer forma, historiadores vêm questionando na última década essa narrativa simplista. O colapso parece ter sido resultado de um processo complexo e multifatorial, e os “povos do mar” podem ser mais vítimas do que algozes. Vamos entender.

O que foi o “colapso da Era do Bronze”?

A Idade do Bronze é o período da história da Eurásia que vai do ano 3300 a.C. a 1200 a.C., mais ou menos. Como o nome sugere, ele é marcado pelo uso do bronze (uma liga de cobre e estanho) para fabricar armas e utensílios.

Nesse período, a região do Mediterrâneo e do chamado Oriente Próximo abrigava grandes civilizações. O Egito era, claro, uma das maiores forças da região. A fase conhecida como Império Novo é apontada como uma espécie de “era de ouro” egípcia, o auge do poder dos faraós.

No centro-leste da atual Turquia, existia o Império Hitita, também uma potência econômica e militar. No que hoje é a Grécia ficavam os micênicos; essa civilização, retratada em A Odisseia, funciona como uma espécie de “proto-gregos”, vivendo em reinos independentes como Ítaca, Micenas e Tebas.

Na ilha de Creta, a sociedade minoica dominava. Na Mesopotâmia, atual Iraque, os dois grandes poderes eram a Babilônia e a Assíria. Havia também os cananeus, na região do Levante, e os cipriotas, na ilha de Chipre. 

O mais interessante é que essas civilizações estavam em contato direto uma com a outra, numa espécie de “mini-globalização”. Havia muitas redes de comércio, contatos diplomáticos e políticos, alianças militares e casamentos entre as famílias reais etc.

Grafico - mapa
(Rodrigo Damatti/Superinteressante)

Mas no século 12 a.C. tudo isso mudou repentinamente. Algumas dessas civilizações, como o poderoso Império Hitita e os reinos micênicos, desapareceram. Outras entraram em declínio, com cidades abandonadas e a adoção de um estilo de vida mais simples por décadas ou até mesmo séculos. A interconexão econômica e política dessas sociedades também foi quase toda destruída.

Esse processo é chamado de colapso ou apocalipse da Idade do Bronze. A região do Mediterrâneo continuou habitada, claro, mas a vida mudou radicalmente por lá.

Na Grécia, por exemplo, iniciou-se a chamada “Idade das Trevas grega”. O sistema utilizado para a escrita, conhecido como Linear B, foi totalmente abandonado e, por séculos, não houve textos escritos em grego, e a produção artística como um todo minguou. Demorou quatrocentos anos para a escrita voltar à Grécia, dessa vez com um novo alfabeto grego, adaptado da escrita utilizada pelos fenícios.

 Mas por que isso aconteceu? Por muito tempo, historiadores culparam os chamados “povos do mar”. Os registros mostram que, de fato, atacantes vindos do oceano invadiram diversos desses reinos, matando, saqueando e destruindo cidades. O rastro de caos deixado por esses inimigos, que até hoje nunca foram identificados com certeza, parece ter contribuído para o colapso. Essa visão, no entanto, vem sendo questionada por especialistas na última década.

Quem eram os povos do mar?

Os melhores registros sobre o assunto vêm do Egito. Isso porque os faraós registraram que o império foi atacado por inimigos vindo em barcos – mas que conseguiram derrotá-los e expulsá-los da terra das pirâmides.

Os registros egípcios não chamam esses invasores de “povos do mar”; esse é um termo criado por estudiosos do século 19. (As citações do filme A Odisseia, portanto, soam ainda mais anacrônicas). Na verdade, os textos dão nomes específicos a eles: denyen, peleset, shekelesh, sherden e outros termos esquisitos.

Mistério resolvido, então? Não. O problema é que não sabemos exatamente quem eram esses povos apenas pelos nomes usados pelos egípcios. Não há certeza de onde no globo eles vinham, nem se a arqueologia e a historiografia conhecem esses povos por outros nomes.

Há mais de um século especialistas debatem quem podem ser esses invasores. O único consenso é que eles de fato parecem ser povos distintos, vindos de locais distintos.

“Peleset” pode ser o nome egípcio para os “filisteus”, um povo que aparece inclusive na Bíblia como inimigos dos israelitas. A hipótese mais aceita é que eles tenham origem micênica, talvez de Creta, e que migraram posteriormente para a costa do Mediterrâneo onde hoje ficam Israel e Palestina.

“Sherden” pode ser uma referência à ilha de Sardenha, na atual Itália; já “Shekelesh” pode se referir à também ilha italiana da Sicília.

Seja como for, o Egito parece ter sido invadido por povos vindos de regiões periféricas dos grandes impérios da Idade do Bronze. Os faraós venceram a ameaça, mas, ao que tudo indica, esses mesmos povos causaram estrago em outras sociedades do Mediterrâneo, como na Grécia, na Turquia e no Levante. Possivelmente, até deram fim a algumas delas.

Mas por que povos distintos, vindos de áreas diferentes, decidiram atacar ao mesmo tempo as principais cidades da região?

A visĂŁo moderna da arqueologia

Hoje, a maioria dos especialistas concorda que o colapso dessas civilizações foi multifatorial – e que os “povos do mar” foram mais uma consequência do que a causa deles. Essa é, inclusive, a visão do historiador Eric Cline, professor da Universidade George Washington (EUA) e autor do livro 1177 a.C.: O ano em que a civilização entrou em colapso, referência no tema.

Historiadores encontraram indícios de que uma grande seca, que pode ter durado anos ou mesmo décadas, pode ter diminuído drasticamente a produção de comida na região. A fome se espalhou aos poucos, causando mortes em massa. Há documentos por escrito, feitos por sociedades diferentes, que registram a escassez de alimentos nas cidades. 

Existem até cartas enviadas aos faraós do Egito por reis e líderes de outros impérios da região pedindo o envio de grãos e outros alimentos para salvar seus habitantes. Ao que parece, o Egito, que era a maior potência econômica, de fato enviou ajuda a outros poderes mediterrâneos.

O fracasso das plantações pode ter levado povos de regiões muito afetadas a migrar em direção a terras mais férteis. Esses seriam os “povos do mar”, que chegavam em grandes quantidades de barcos.

Nessa visão, eles seriam mais parecidos com “refugiados climáticos” do que com a imagem de “invasores bárbaros” que ficou dominante por décadas. De qualquer forma, a chegada deles não foi bem recebida na maioria dos locais, claro. Houve conflitos, e essa violência toda pode ter mesmo contribuído para o “fim do mundo” visto na época.

Mas essas invasões não seriam a única causa do colapso, nem sequer a principal. Nessa interpretação, a chegada desses povos é mais um sintoma de um fenômeno complexo.

Além da seca, da fome e das invasões, é possível que epidemias de doenças e fenômenos naturais, como terremotos, tenham contribuído também para o apocalipse. É o que o historiador Eric Cline chama de “tempestade perfeita” de fatores.

E a humanidade não acabou na região, claro. O que aconteceu foi uma reorganização e uma mudança profunda. No vácuo do poder que seguiu o colapso, a civilização dos fenícios aproveitou o espaço e floresceu como um importante e próspero poder da região, estabelecendo-se como grandes navegadores e comerciantes pelos próximos séculos.

Esse tema foi abordado numa longa reportagem da Super publicada em 2024, que você pode ler aqui se quiser se aprofundar ainda mais. 

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo