A pressão arterial é o motor que mantém o sangue circulando pelo corpo, levando oxigênio e nutrientes a cada célula. Quando esse sistema funciona bem, tudo flui. Mas, quando a pressão sobe além do limite, o risco de eventos como infarto e AVC (acidente vascular cerebral) cresce na mesma proporção.
Na maioria dos casos, essa elevação não vem de uma única causa identificável. A chamada hipertensão primária é resultado de uma combinação de fatores: genética, sedentarismo, tabagismo, uso de certos medicamentos e, com destaque especial, o consumo excessivo de sal.
Mas o impacto do sal vai além. Pesquisas conduzidas no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e publicadas nos periódicos Molecular and Cellular Neuroscience e Experimental Physiology revelam que o sódio não atua apenas nos vasos sanguíneos. Parte dele chega ao sistema nervoso central, influenciando diretamente os comandos que regulam a pressão arterial, como se o aumento da pressão obedecesse a uma espécie de ordem superior.
O papel do sódio no cérebro
O sal de cozinha —o cloreto de sódio— é formado por dois componentes, mas é o sódio que assume o protagonismo quando o assunto é pressão arterial. Esse mineral, que representa cerca de 40% do composto, desempenha funções essenciais no organismo, participando da regulação celular.
O problema começa quando o consumo ultrapassa o necessário. O sódio tem a capacidade de atrair água. Quando em excesso, puxa líquido para dentro dos vasos sanguíneos, aumentando o volume de sangue em circulação. Como o diâmetro das artérias não se expande na mesma proporção, a pressão nas paredes vasculares sobe.
Mas esse é apenas um dos mecanismos. Estudos mostram que o sódio também se acumula no cérebro, especialmente em regiões ligadas ao controle automático do corpo, como o sistema nervoso autônomo. Esse sistema regula funções vitais sem depender da vontade, incluindo batimentos cardíacos, respiração, digestão e a contração e relaxamento dos vasos sanguíneos.
Sensores cerebrais e o gatilho da hipertensão
O organismo possui sensores capazes de detectar alterações na concentração de sódio. No cérebro, esses sensores estão concentrados no hipotálamo, uma região estratégica que funciona como um centro de comando do sistema nervoso autônomo. Quando identificam excesso de sódio, disparam respostas que elevam a pressão arterial.
Nesse circuito, entra em cena o ATP. Conhecido como a principal fonte de energia celular, essa molécula também atua como neurotransmissor. Estudos indicam que ele é liberado em maior quantidade quando há excesso de sódio, intensificando a atividade neural que leva à contração dos vasos e ao aumento da pressão.
Outro ponto importante é o papel das células glia, antes vistas apenas como suporte do cérebro. Hoje se sabe que elas também participam ativamente da comunicação neural, liberando ATP e contribuindo para esse processo.
O que acontece após o excesso de sal
Nem sempre o excesso de sal leva a um aumento imediato e contínuo da pressão. Em alguns casos, ocorrem picos temporários. Experimentos mostram que, mesmo sem aumento significativo de sódio no sangue —graças à atuação dos rins—, o cérebro pode manter níveis elevados do mineral por mais tempo.
Isso explica por que, após refeições ricas em sal, como um churrasco, a pressão pode subir e depois normalizar. O problema é que o cérebro não lida bem com essas oscilações. Mesmo quando o sangue volta ao normal, o sistema nervoso pode continuar reagindo ao excesso anterior.
Um dos achados mais preocupantes é que o cérebro parece “memorizar” exposições repetidas ao excesso de sal. Cada novo episódio pode reforçar um padrão de resposta maior que favorece a elevação da pressão arterial no futuro.
Isso significa que o consumo elevado desde a infância, especialmente por meio de alimentos ultraprocessados, pode programar o organismo para uma maior tendência à hipertensão ao longo da vida.
A recomendação global da OMS é de até 5 gramas de sal por dia. No entanto, o consumo médio do brasileiro costuma ultrapassar esse limite com folga.
No fim das contas, o sal não atua apenas no prato, ele também interfere nos circuitos mais profundos do cérebro. E, ao que tudo indica, essa é uma memória que o organismo não esquece facilmente.
*Com informações de reportagem publicada em 13/07/2023.
Fonte: uol




