Não existe uma resposta simples para essa pergunta. Para começar, não dá para ter certeza sequer se os morcegos hospedam mais vírus do que outros mamíferos. Isso porque existe um viés de busca: desde a primeira associação de morcegos com doenças que afetam humanos, eles são esmiuçados com muito mais atenção do que a maioria dos outros animais.
Mas é fato que eles abrigam, sim, uma grande variedade de vírus que provocam doenças – chamados de vírus patógenos. Em parte, isso se deve à própria variedade do grupo: o que chamamos genericamente de “morcegos”, na verdade, são mais de 1.500 espécies. Entre elas, há inúmeras variações de tamanho, dieta, hábitats, padrões reprodutivos e metabolismos. Cada um desses fatores favorece uma microbiota diferentes.
Essa microbiota provavelmente acompanha essas espécies de morcegos há muito tempo. O grupo dos morcegos, a ordem Chiroptera, é muito antigo: os fósseis mais antigos datam de 52 milhões de anos atrás.
Ao longo do tempo, eles co-evoluíram com pequenos insetos parasitas e com vários tipos de microrganismos. É como se eles já fossem velhos amigos. O que é novidade é a entrada dos humanos no meio dessa relação. A devastação dos habitats naturais obriga os morcegos a se aproximarem de novos ambientes e terem contato com animais exóticos, que não faziam parte de suas cadeias ecológicas originais.
Metade do seu corpo não é humano
Imagine que alguém derruba uma parte da floresta para fazer uma roça. Os morcegos que viviam no coração da floresta têm agora novos vizinhos. Ao voarem por cima dos recintos de animais, eles deixam cair frutas comidas pela metade, fezes e urina – e, assim, fazem circular microrganismos que antes estavam restritos a outros ambientes.
Esse tipo de contato é muito favorável para os chamados vírus zoonóticos emergentes, que viajam de um bicho pro outro e, de mutação em mutação, podem chegar nos humanos e provocar doenças inteiramente novas.
Foi isso que aconteceu com o vírus Hendra, que passou dos morcegos para cavalos na Austrália em 1994, provocando sintomas respiratórios e encefalite. Naquele ano, sete humanos que tinham contato intenso com os cavalos também foram infectados e tiveram sintomas parecidos, alguns fatais. As histórias de vários arbovírus, do vírus Nipah e dos coronavírus são semelhantes.
Os morcegos são bons em espalhar essas doenças, em parte, porque eles não adoecem com a maioria delas. Eles apenas hospedam os vírus, funcionando como reservatórios. Ninguém sabe exatamente por que eles são assim: pode ter a ver com a co-evolução, que mencionamos, mas também com adaptações metabólicas específicas que eles desenvolveram por serem os únicos mamíferos voadores.
Uma comparação: diante de um patógeno, o sistema imunológico humano ativa uma cadeia de mecanismos inflamatórios para combater os invasores: dilata os vasos sanguíneos, aumenta a temperatura, produz muco, etc. Você conhece a história. O corpo está lutando uma guerra silenciosa, e você está deitado no sofá, sem energia para mais nada. Em resumo, doente.
Isso não acontece com os morcegos: mesmo quando infectados, são craques em combater vírus produzindo respostas inflamatórias mais leves. Assim, diferentemente de nós, eles continuam bem.
E, mesmo carregando um monte de microrganismos, eles podem prosseguir com as suas atividades normais: muito além da visão preconceituosa que muitas pessoas têm deles como espalhadores de doenças, os morcegos são essenciais para os ecossistemas que habitam.
Eles dispersam sementes, polinizam plantas, controlam prestes, produzem fertilizantes – afinal, suas fezes formam guano, um composto rico em nutrientes para o solo –, e ainda comem insetos que podem transmitir doenças para humanos. Eles também não merecem a fama de vampiros: entre os 1.500, só três espécies se alimentam de sangue.
Fonte: Luiz Gustavo Bentim Góes, pesquisador do Institut Pasteur de São Paulo.
Pergunta de @felipesinoble, via Instagram.
Fonte: abril





