Entre 2011 e 2024, o Brasil registrou uma média diária de 64 meninas vítimas de violência sexual. No período, foram contabilizados 308.077 casos envolvendo crianças e adolescentes de até 17 anos.
Somente em 2024, o sistema de notificações apontou 45.435 registros, o que representa cerca de 3,78 mil ocorrências por mês.
Os dados fazem parte do Mapa Nacional da Violência de Gênero, elaborado a partir de informações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde e divulgado em referência ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
O levantamento é resultado de uma parceria entre o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal e o Instituto Natura, entre outras instituições envolvidas na produção e análise das estatísticas.
Especialistas alertam que os números ainda podem estar abaixo da realidade, devido à subnotificação de casos e às falhas na integração de bases de dados públicos. Segundo analistas, a falta de padronização dificulta a compreensão do cenário e a formulação de políticas mais eficazes.
Crescimento dos casos
A série histórica indica aumento de 29,35% nas notificações desde 2011. Em 2020, houve uma queda pontual de 13,76%, atribuída à redução de registros durante a pandemia de covid-19.
Nos anos seguintes, os números voltaram a subir de forma expressiva, com alta de 22,75% em 2021 e pico de crescimento em 2023, quando o aumento chegou a 37,22%.
Em 2024, a tendência de alta se manteve. Representantes do Observatório da Mulher contra a Violência defendem a ampliação de políticas públicas voltadas à prevenção e proteção de meninas e adolescentes.
Perfil das vítimas
O estudo aponta maior vulnerabilidade entre meninas negras. Elas representam 56,5% dos casos registrados entre 2011 e 2024. Em 2024, somaram 52,3% das ocorrências.
Do total mais recente, meninas pardas responderam por 22.553 registros, enquanto meninas pretas somaram 1.223 casos, totalizando 23.776 notificações.
Também foram registrados 16.771 casos envolvendo meninas brancas, 769 entre populações amarelas e 342 entre indígenas. Em 3.777 notificações, não houve informação sobre raça ou cor.
Ambiente familiar
Os dados mostram que parte significativa das agressões ocorre dentro do ambiente doméstico. Em média, 31% dos casos têm como autores pais, mães, padrastos, madrastas ou irmãos.
Especialistas destacam que a violência sexual contra crianças e adolescentes muitas vezes não está associada a desconhecidos, mas a pessoas próximas do convívio diário.
Segundo análises do setor, a identificação desses casos depende de uma rede de proteção ativa, envolvendo escolas, unidades de saúde e órgãos de assistência social, já que a denúncia raramente parte da própria vítima.
Faixa etária e registros recentes
Crianças e adolescentes aparecem como o segundo grupo mais afetado por violência sexual no país, atrás apenas de jovens entre 18 e 29 anos.
No primeiro trimestre de 2025, foram registrados 8.662 casos, dos quais 2.776 envolveram menores de idade.
Diferenças entre sexos
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2024, aproximadamente 56 mil meninas foram vítimas de estupro de vulnerável, contra pouco mais de 11 mil meninos.
Isso indica que, para cada menino vítima, cinco meninas passaram pela mesma situação.
O levantamento também aponta maior concentração de casos entre meninas de 10 a 13 anos, enquanto entre meninos as idades mais recorrentes são 4 e 13 anos.
Pesquisadores ainda destacam que casos envolvendo vítimas do sexo masculino podem ser subnotificados devido a barreiras sociais e culturais.
Denúncias e canais oficiais
O Disque 100 registrou mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes entre janeiro e abril de 2026, aumento de quase 50% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O serviço reúne denúncias anônimas e funciona como porta de entrada para encaminhamentos a conselhos tutelares, Ministério Público e delegacias especializadas.
Autoridades reforçam que a população deve utilizar o canal sempre que houver suspeita ou confirmação de violência, garantindo proteção e acompanhamento às vítimas.
Fonte: cenariomt




