Lifestyle

Vestígios de sangue encontrados no DOI-Codi de São Paulo: descoberta chocante revela possíveis indícios de crimes do passado

Grupo do Whatsapp Cuiabá
2026

O bairro Vila Mariana, em São Paulo, abrigou um dos principais centros de repressão da ditadura militar brasileira, o antigo complexo do DOI-Codi – sigla para Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna. Com celas, salas de interrogatório e espaços destinados à tortura, estima-se que mais de 7 mil pessoas passaram pelo local e que ao menos 52 morreram ali durante seu funcionamento, entre as décadas de 1960 e 1970. Foi lá que, em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado.

Hoje, pesquisadores de diferentes áreas estudam o complexo para reconstruir e documentar exatamente o que acontecia em seu interior. A tarefa, porém, não é simples: o edifício passou por diversas reformas ao longo das décadas, o que dificulta a identificação de vestígios do período da ditadura.

Uma nova pesquisa conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicada em julho no periódico científico Forensic Archaeology, Anthropology and Ecology conseguiu identificar vestígios de sangue humano no local, trazendo novos indícios físicos sobre sua história.

Os pesquisadores concentraram a investigação no edifício 2-a do complexo, que abrigava o setor de inteligência e era um dos principais espaços destinados a interrogatórios e sessões de tortura.

O primeiro passo foi decifrar a organização interna original do prédio e identificar a função de cada ambiente durante a ditadura. Para isso, a equipe reuniu depoimentos de sobreviventes, analisou documentos históricos e estudou a arquitetura do edifício para entender como ela foi modificada ao longo do tempo. Os pesquisadores também utilizaram um radar de penetração no solo para produzir um escaneamento tridimensional da estrutura.

Com essas informações, selecionaram áreas para iniciar a investigação arqueológica: salas de interrogatório, um banheiro, uma sala associada à tortura e uma possível enfermaria. Nesses ambientes, realizaram escavações e abriram pequenas áreas de prospecção (recortes) em pisos e paredes para revelar as diferentes camadas de tinta e reboco acumuladas ao longo das décadas.

Assim, conseguiram alcançar, em alguns pontos, o contrapiso de madeira original da época da ditadura. Sobre ele, realizaram análises forenses utilizando diferentes técnicas. Uma delas foi o luminol, substância química que reage na presença de hemoglobina, um dos principais componentes do sangue.

O teste apresentou resultado positivo em amostras coletadas na enfermaria e nas salas de interrogatório (confira na imagem abaixo). Posteriormente, análises químicas indicaram que se tratava de sangue humano.

Manchas azul-violeta fluorescentes, indicando vestígios de sangue, em um piso de concreto danificado, com duas setas vermelhas apontando para as áreas de maior concentração. Uma régua de escala branca e preta está no chão, abaixo das manchas
(Syntia Alves/Archaeological Investigation of a Former Detention and Torture Site: Integrating Forensic Techniques in the Analysis of Built Environments of State Violence. Forensic Archaeology, Anthropology and Ecology, v. 1, n. 2/Reprodução)

No entanto, devido às sucessivas reformas e ao avançado estado de degradação do material, não foi possível determinar sua idade nem identificar sua origem biológica. Também não foi possível recuperar DNA. Assim, os pesquisadores não conseguem afirmar a quem o sangue pertencia nem associá-lo a um episódio ou prática específica.

No banheiro, por baixo das camadas de tinta, a equipe não encontrou vestígios de sangue, mas identificou um calendário gravado na parede, provavelmente feito por uma pessoa presa no local para manter a noção da passagem do tempo. A inscrição marcava os dias 13 a 31 de outubro e 1º a 4 de novembro. Veja:

Uma superfície cinza clara com anotações manuscritas em vermelho e preto, incluindo 14o, dias da semana e datas de 23 a 30 de outubro e 1 a 4 de novembro, com uma régua de 100 mm
(LENS, Cláudia Regina; HAERTEL, Maryah Elisa Morastoni; FRIDMAN, Cintia. Archaeological Investigation of a Former Detention and Torture Site: Integrating Forensic Techniques in the Analysis of Built Environments of State Violence. Forensic Archaeology, Anthropology and Ecology, v. 1, n. 2/Reprodução)

Ao comparar essas datas com os dias da semana com os calendários da época, os pesquisadores concluíram que poderia se referir ao ano de 1970 ou de 1981. Um depoimento de uma testemunha, porém, afirma ter visto a inscrição durante sua prisão, em 1971. Por isso, os autores consideram que a hipótese mais provável é que o calendário tenha sido gravado em 1970.

Investigados em diálogo com documentos e testemunhos, esses vestígios acrescentam uma dimensão material ao conhecimento sobre a repressão política”, afirma um comunicado da Unifesp. “Também podem contribuir para a investigação de outros locais associados à violência política e às violações de direitos humanos, além de apoiar políticas de memória, verdade e justiça.”

Fonte: abril

Sobre o autor

aifabio

Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo