A maioria dos vaga-lumes encontrados na Europa pertence à espécie Lampyris noctiluca, conhecida popularmente como vaga-lume-europeu. Esses besouros noturnos (sim, vaga-lumes são besouros) já foram relativamente comuns algumas décadas atrás, mas vêm sofrendo uma redução que faz com que seus avistamentos sejam cada vez mais difíceis.
Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), responsável pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, o vaga-lume-europeu é classificado como “quase ameaçado”. Isso significa que, no futuro, a espécie pode entrar em risco de extinção – um cenário preocupante justamente por ser um dos vaga-lumes mais comum do continente.
Uma notícia positiva, porém, é que essa espécie foi avistada na floresta tropical temperada de West Cowal, no oeste da Escócia. Na verdade, o vaga-lume é apenas uma entre mais de mil espécies de plantas, fungos e animais registradas recentemente na região, que permaneceu esquecida pela ciência durante quase meio século.

West Cowal tem mais de 45 mil hectares e abriga uma biodiversidade única, incluindo espécies raras. Mesmo assim, a região é pouco estudada, e o último grande levantamento científico da fauna e flora local foi feito na década de 1970.
Desde então, a floresta vem passando por diversas dificuldades. Entre elas, está o aumento da população de veados – que se alimentam de plantas nativas de crescimento lento, dificultando sua regeneração – e o avanço de espécies invasoras. Um dos principais exemplos é a planta Rhododendron ponticum, introduzida na Escócia como planta ornamental durante a Era Vitoriana e que hoje sufoca a vegetação nativa.
A região também foi impactada por construção de estradas, questões de uso de terra e efeitos das mudanças climáticas. A grande questão é que, como a área foi pouco documentada nas últimas décadas, não se sabe ao certo quais espécies continuam existindo por lá e nem quais partes da floresta tropical permanecem preservadas.
Por isso, a organização beneficente Argyll Countryside Trust (ACT) lançou, em 2024, o projeto West Cowal Habitat Regeneration Project (“Projeto de Regeneração do Habitat de West Cowal”). Nele, voluntários registram fotos das espécies que avistam na região (na maioria das vezes durante caminhadas e passeios) e as publicam na plataforma iNaturalist.
A tecnologia da plataforma registra a localização por GPS em que o animal, planta ou fungo foi encontrado e sugere possíveis espécies correspondentes. Depois, especialistas verificam as classificações.
Até agora, o iNaturalist acumula mais de 3.500 registros feitos em West Cowal por mais de 170 participantes. Mais de 1.110 espécies já foram documentadas, incluindo fungos, líquens, musgos, cogumelos e o próprio vaga-lume europeu. O clima úmido e ameno (com muita chuva) favorece o desenvolvimento desse tipo de espécie.
Grande parte dos registros envolve espécies raras, pouco documentadas ou em declínio populacional, como o vaga-lume-europeu. Felizmente, muitos dos organismos encontrados também são considerados indicadores que ajudam a medir o grau de preservação do ecossistema. A esperança é que, além de gerar conhecimento científico de forma colaborativa, os dados também possam orientar projetos de restauração ambiental e estratégias de conservação.
Fonte: abril




