Assinada pela Nischi Arquitetura, com interiores da Luiza Leptich Arquitetura, a transformação desta antiga creche em moradia parte de decisões precisas e bem direcionadas. A construção existente foi reinterpretada para criar espaços amplos, integrados e bem iluminados, com materiais aparentes e soluções que aproveitam o que fazia sentido manter e renovam o que precisava ser atualizado. Conforto térmico, ventilação, uso inteligente do espaço e uma decoração construída ao longo do tempo aparecem como desafios centrais que ajudam a revelar uma casa viva, funcional e cheia de identidade.
Conheça a especialista
Andressa Oliveira é arquiteta e urbanista especialista no cultivo de plantas em casa e com experiência em projetos arquitetônicos e de interiores.
As marcas do tempo como ponto de partida
A antiga edificação escondia soluções construtivas como tijolos assentados em barro, que revelavam seu valor histórico. Em vez de apagar essas camadas, o projeto optou por incorporá-las à identidade da casa. “O principal desafio foi transformar a estrutura de uma antiga creche em uma residência acolhedora e funcional”, explica Pedro Nischimura, da Nischi Arquitetura. Para isso, as antigas salas pequenas deram lugar a ambientes amplos e integrados, enquanto o entulho da demolição foi reaproveitado no nivelamento do terreno, reforçando uma lógica de continuidade e aproveitamento.
Planta integrada, luz natural e conforto no dia a dia
A reorganização dos espaços priorizou a integração dos ambientes e a sensação de amplitude. O pé-direito alto existente foi preservado e valorizado com um telhado em madeira aparente, que ajuda a criar uma atmosfera acolhedora e, ao mesmo tempo, generosa em luz e ventilação. A planta aberta favorece a circulação de ar entre os ambientes e reforça a fluidez do espaço, tornando o uso cotidiano da casa mais confortável e natural.
Interiores construídos a partir do que já existia
No projeto de interiores, a prioridade foi trabalhar com o que já existia e com o acervo dos moradores. “A estrutura não foi alterada, apenas reparada nos pontos necessários”, explica Luiza Leptich, que também conduziu intervenções pontuais, como a renovação do paisagismo e ajustes na fachada. O foco passou a ser a organização de livros, objetos e memórias em ambientes menores, o que exigiu soluções precisas para garantir funcionalidade sem perder conforto.
O centro da casa é a área social, pensada como um grande espaço fluido e integrado. “A sala reúne cozinha, jantar, estante, TV e uma área mais baixa para música e receber amigos. A partir dela, os outros ambientes se organizam ao redor”, explica Luiza. Acima dessa área, o mezanino amplia as possibilidades de uso, funcionando como espaço de filmes, jogos, descanso e trabalho. A estante em marcenaria e serralheria se tornou um dos principais elementos do projeto. “Ela tem de tudo um pouco: livros, música, objetos de viagem, plantas. É quase um retrato dos moradores”, resume a arquiteta.
A cozinha como intervenção contemporânea
Na cozinha, o projeto evidencia o diálogo entre o novo e o existente. Por se tratar de uma área construída dentro da antiga estrutura, o uso de concreto aparente marca a intervenção e cria contraste com o restante da casa. O teto de vidro reforça essa leitura, trazendo leveza e iluminação natural e quebrando a lógica tradicional dos ambientes. O móvel amarelo com portas de vidro organiza utensílios e alimentos, ao mesmo tempo em que adiciona personalidade à composição e reforça o caráter vivido da casa.
Materiais aparentes como linguagem do projeto
A escolha dos materiais define a identidade da casa e aparece sem disfarces. Concreto aparente, cimento queimado, tijolo e madeira constroem uma base rústica e simples, que valoriza texturas e marcas do tempo. O piso de cimento queimado cinza substitui o antigo revestimento e ajuda a unificar os ambientes.
A paleta nasce desses materiais e ganha pontos de cor que trazem personalidade ao espaço, como o vermelho no mezanino, o amarelo na cozinha, o rosa no sofá e o azul claro no escritório. Elementos metálicos em portas, janelas e na porta acrescentam referências industriais pontuais, equilibradas por móveis de linhas modernas e atemporais.
Marcenaria como extensão da arquitetura
Para responder às demandas de uso e organização, a marcenaria entrou como uma continuação natural da arquitetura. “Ela preencheu os espaços que a casa pedia, como paredes altas, criando proporção, segurança e novos usos”, explica Luiza.No quarto do filho, uma escada com estante integrada permite o acesso à área superior, ampliando as possibilidades de uso.
Suíte: soluções sob medida para o cotidiano
Na área íntima, o principal desafio foi adaptar ambientes menores às necessidades reais dos moradores. A suíte, mais compacta, exigiu um desenho cuidadoso para garantir conforto.
Jardim e áreas externas como extensão da casa
As áreas externas foram pensadas como uma continuação natural dos espaços internos. Na frente e nos fundos, os jardins reforçam a relação entre interior e exterior, ampliando a sensação de respiro e tornando a casa mais aberta e conectada ao cotidiano.
A área de lazer com churrasqueira complementa esse uso, criando um espaço convidativo para encontros e momentos de convivência. Integrado à casa e ao jardim, o ambiente reforça a ideia de que viver bem também passa por ocupar os espaços externos de forma simples, funcional e sem excessos.
Uma casa viva e em constante transformação
No fim, o projeto não busca rigidez nem acabamento impecável. “A casa é ampla, cheia de detalhes, mas não foi completamente preenchida por móveis ou marcenarias. A fluidez dela é muito gostosa”, resume Luiza. A imperfeição, os contrastes e a simplicidade convivem com conforto e personalidade.
“Gosto de trabalhar com materiais naturais e imperfeitos, e nessa casa consegui mantê-los como parte do projeto”, finaliza a arquiteta. Uma casa que não se encerra na obra, mas continua se transformando junto com quem vive ali.
Para quem se interessa por projetos que valorizam o tempo, os materiais aparentes e soluções inteligentes em imóveis existentes, vale conferir também a matéria sobre ideias para reformar e valorizar casas antigas.
Fonte: tuacasa






