Durante décadas — e ainda hoje em algumas cidades do interior — a Semana Santa no Brasil foi marcada por tradições que iam além das celebrações religiosas. Entre elas, a chamada malhação de Judas e o costume conhecido como tirar a aleluia ajudam a explicar como fé e cultura popular caminharam juntas, nem sempre de forma alinhada à prática oficial da Igreja.
Segundo o padre Rosimar Dias, essas tradições nasceram da religiosidade popular, um espaço em que elementos da fé se misturam com teatro, crítica social e costumes do cotidiano.
Um “castigo” simbólico que virou expressão popular
A malhação de Judas, realizada no Sábado de Aleluia, consiste na confecção de um boneco representando Judas Iscariotes — o discípulo que, segundo a Bíblia, traiu Jesus. Esse boneco é, então, destruído publicamente.
Apesar de parecer um ritual religioso, o padre explica que a prática nunca fez parte da liturgia oficial da Igreja. “Ela surgiu como uma manifestação cultural. Em muitos lugares, o Judas passa a representar não só o personagem bíblico, mas atitudes vistas como traição, injustiça ou até corrupção”, destaca.
Ou seja, mais do que relembrar a narrativa bíblica, a tradição acabou se tornando uma forma de crítica social, adaptada à realidade de cada época e comunidade.
Ainda assim, o religioso faz um alerta: a essência da Páscoa segue outro caminho. “A mensagem central não é de punição, mas de reconciliação, misericórdia e transformação de vida”, reforça.
Quando o medo fazia parte do Sábado de Aleluia
Outra tradição curiosa — e hoje bastante questionada — era o costume de “tirar a aleluia”. Em algumas famílias, especialmente no passado, o Sábado Santo era marcado por castigos físicos aplicados em crianças por comportamentos considerados inadequados durante o período da Quaresma.
O padre lembra que, quando era criança, esse momento era cercado de temor. Isso porque a Quaresma sempre foi vista como um tempo de disciplina, silêncio e contenção — inclusive na forma de educar.
Durante esse período, até mesmo na liturgia, o “aleluia” deixa de ser cantado, como sinal de sobriedade. A volta da expressão na Páscoa simboliza alegria e renovação. No entanto, em algumas culturas, essa “retomada” acabou sendo interpretada de forma equivocada.
“Criou-se a ideia de que, ao final desse tempo, haveria uma espécie de liberação. E isso foi traduzido, em alguns lugares, como a volta de práticas que haviam sido contidas — inclusive os castigos físicos”, explica.
Uma tradição que ficou no passado
Hoje, esse tipo de prática é vista com olhar crítico. Segundo o padre, ela reflete uma época em que a educação era mais rígida e o uso de punições físicas era socialmente aceito — algo que mudou com o passar dos anos.
Ele reforça que esse costume nunca foi orientação da Igreja e não faz parte da vivência litúrgica cristã.
Mais do que julgar o passado, compreender essas tradições ajuda a entender como a fé foi vivida em diferentes momentos históricos — e como a sociedade evoluiu.
“No fundo, a Páscoa não fala de violência. Ela fala de vida nova, de reconciliação e de um amor que transforma”, conclui.
Hoje, práticas como a malhação de Judas permanecem como manifestações culturais em algumas regiões, enquanto outras, como o “tirar a aleluia”, ficaram restritas à memória de gerações — lembranças de um tempo em que fé e costumes se misturavam de forma bem diferente da atual.
Fonte: primeirapagina





