A Secretaria de Comunicação do governo julgou uma ideia genial usar bonĂ©s com o lema “O Brasil Ă© dos brasileiros” como uma espĂ©cie de contraponto aos bonĂ©s da militância trumpista nos EUA pregando o famoso mantra “Make America Great Again”. O texto escolhido pelo governo brasileiro emula mais diretamente, a rigor, outro lema de Trump, o famoso “America First”. Em resumo: para os americanos que seguem a linha de Donald Trump, os EUA devem figurar em primeiro lugar na lista de prioridades afetivas e estratĂ©gicas. Para os brasileiros, o mesmo princĂpio em relação ao Brasil.
Nada teria a censurar em que as autoridades brasileiras considerassem em primeira linha o bem de nossa pátria e de seus habitantes, se isso fosse verdade. Sua responsabilidade maior como governantes é mesmo para com os brasileiros, e o apreço pelos mais próximos e pelos que andam sobre o nosso próprio torrão natal é o caminho mais seguro sobre o qual se pode alicerçar a fraternidade entre todos.
O problema Ă© que, infelizmente, os “brasileiros” a quem o Brasil pertence, na concepção de Lula e seus sequazes, constituem um grupo um tanto restrito demais. O mal do patrimonialismo, que o PT nĂŁo inventou de modo algum na cultura polĂtica brasileira, mas de que se serviu profusamente, consiste na exata confusĂŁo entre o pĂşblico e o privado. No figurino patrimonialista, o governante e o burocrata encastelado na estrutura estatal confundem o Estado e suas manifestações com “coisas suas”, propriedades privadas que lhes cabem por direito. O Estado e os rumos da comunidade polĂtica nĂŁo sĂŁo instrumentos pelos quais se expressa a vontade dos cidadĂŁos eleitores, mas simples extensões das vontades e determinações desse pequeno grupelho. O Brasil, na verdade, seria apenas de alguns brasileiros, nĂŁo de todos os compatriotas conscientes.
Para boa parte de nossa elite, os brasileiros a quem o Brasil pertence sĂŁo ainda mais verdadeiramente apenas “alguns”, circunscrevendo-se aos membros do “consĂłrcio” autoritário que ora dá as cartas. O “Brasil” — esse Brasil que decide, que pavimenta os caminhos, que determina oficialmente para onde rumamos — Ă© dos togados, Ă© de Alexandre de Moraes, Ă© de Gilmar Mendes, Ă© de Toffoli; Ă© dos veĂculos de imprensa que se alimentam das vantagens de que podem desfrutar enquanto exercitarem o “puxa-saquismo” profissional ao governo; Ă© de certos caciques do “centrĂŁo”, presenteado com votos do governo e da oposição para comandar as casas legislativas.
Ele pertence aos que decretam o que se pode ou nĂŁo falar, pertence aos que fazem malabares com emendas e orçamentos. Pertence aos que decidem quais entre os brasileiros sĂŁo mais iguais que os outros, afinal, determinam quando os princĂpios constitucionais serĂŁo ou nĂŁo aplicados. Basta que se remeta Ă decisĂŁo do STJ do Ăşltimo dia 4 de fevereiro dando conta de que sĂł existe racismo contra negros — afinal, racismo Ă© racismo, a discriminação com base em diferenças biolĂłgicas que supostamente, sem alicerce factual algum, ensejariam superioridade ou inferioridade. NĂŁo existe uma etnia especĂfica Ă qual a regra deveria ser aplicada com exclusĂŁo das demais. Os donos do Brasil, porĂ©m, atendendo a preferĂŞncias ideolĂłgicas, dizem que há; entĂŁo, está decidido. NĂŁo sucumbamos a ilusões. O Brasil deveria ser dos brasileiros. Infelizmente, sobretudo devido Ă erosĂŁo, nĂŁo direi de um Estado de Direito solidificado, mas de nossas pretensões por algo que minimamente se aproximasse desse ideal, bem como Ă estrutura disfuncional de nossas organizações polĂticas (mesmo que elas operassem exatamente como foram projetadas para operar), a maioria dos cidadĂŁos se vĂŞ constrangida a assistir a um espetáculo que se desenrola em picadeiro putrefato. Antes que o Brasil como um todo, tamanha a voracidade fiscal do atual governo, já parece pedir muito que a riqueza produzida pelos brasileiros a eles pertença.
Fonte: revistaoeste





