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Projeto revitaliza patrimônio ferroviário, conectando passado e presente

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2026

Durante boa parte do século XX, a antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) foi o principal eixo de desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. Foi pelos trilhos que chegaram trabalhadores, mercadorias, investimentos e novas formas de ocupação do território.

Em Campo Grande, a ferrovia ajudou a consolidar a cidade como um importante centro econômico e logístico, moldando bairros, criando vilas ferroviárias e impulsionando o crescimento urbano.

Mesmo após o fim da operação ferroviária em grande parte do Estado, os vestígios desse período continuam espalhados pela capital. Estações, armazéns, residências de antigos funcionários, caixas d’água, oficinas e vagões permanecem como testemunhas silenciosas de uma história que ultrapassa a arquitetura e ajuda a explicar a própria formação de Mato Grosso do Sul.

Apesar da relevância histórica, boa parte desse patrimônio ainda é pouco conhecida pela população. Muitos campo-grandenses frequentam o Complexo Ferroviário para eventos culturais, feiras e apresentações artísticas, mas desconhecem a função original daqueles espaços e o papel que desempenharam na construção da cidade.

Foi justamente desse contraste entre um patrimônio presente no cotidiano, mas ausente da memória coletiva, que nasceu a segunda edição do projeto Resquícios do Tempo, idealizado pela artista visual Sara Welter, conhecida como Syunoi.

A iniciativa utiliza arte, pesquisa histórica e educação patrimonial para aproximar a população da história ferroviária por meio de uma cartilha ilustrada dedicada ao Complexo Ferroviário.

Patrimônio tombado

O material reúne ilustrações e informações sobre 12 edificações e estruturas históricas ligadas à antiga NOB, entre elas a Estação Ferroviária, o Casarão Thomé, a Casa da Chefia, a Casa dos Empregados, a Caixa D’Água, a antiga baldeação para Ponta Porã e os vagões que ainda permanecem no complexo.

Além da publicação, o projeto prevê oficinas em escolas, distribuição gratuita da cartilha em instituições culturais e exemplares em braile, ampliando o acesso ao conteúdo.

Mais do que apresentar fatos históricos, a proposta busca despertar o sentimento de pertencimento e estimular um novo olhar sobre um patrimônio que, embora tombado, ainda enfrenta desafios relacionados à preservação e ao reconhecimento de sua importância cultural.

“A importância de tirar o patrimônio de livros empoeirados e trazer para a nova geração é entender que esses lugares e essas histórias nos pertencem, e fazemos parte de cada uma delas, ainda mais falando do Complexo Ferroviário de Campo Grande, onde grande parte de todos os encontros culturais acontece e as pessoas não têm noção da importância desses lugares que são frequentados, então o projeto tem o intuito de trazer esse olhar”.

Sara Welter

A pesquisa que deu origem ao projeto foi desenvolvida ao longo de seis meses, período em que Sara percorreu o complexo, consultou fotografias antigas, documentos históricos e observou de perto as marcas deixadas pelo tempo nas construções.

Esse processo resultou em 12 ilustrações produzidas em nanquim e carvão, técnicas escolhidas justamente para evidenciar a estética do envelhecimento e do abandono presentes em parte do patrimônio.

“A escolha de material para desenvolver os desenhos tem a intenção de trazer esse desgaste, essa estética do antigo, do velho, do abandono. O processo de fazer cada desenho foi demorado e requer tempo, demorei em torno de 3 meses para fazer os 12 desenhos, e cada um surgia, um em cima do outro, e foi um processo intenso de ir estudando cada lugar, fotos antigas, observação ao vivo, incorporar os desgastes, as rachaduras, os pixos, e cada detalhe que faz o lugar único”.

Sara Welter

Para a artista, a arte possui um papel importante na preservação da memória porque permite criar conexões emocionais entre as pessoas e os espaços históricos.

“A arte traz conexão com as pessoas, porque um trabalho artístico não pertence apenas a quem criou, ele se desenvolve no contato com o outro, e por isso a arte possibilita que as pessoas repensem e reolhem as coisas por meio de um desenho, uma pintura, uma escultura. Os desenhos desenvolvidos no projeto Resquícios do Tempo têm essa intenção de trazer um novo olhar para eles lugares que passam despercebidos no dia a dia”.

Sara Welter

Ao longo da pesquisa, Sara afirma que compreendeu a dimensão da influência exercida pela Noroeste do Brasil sobre o desenvolvimento do Estado.

“Durante esses 6 meses de projeto, cheguei à conclusão de que a história da NOB é muito grande, e ela que fez o que hoje entendemos como Mato Grosso do Sul, tanto o estado quanto a capital e as cidades, se construíram pela ferrovia que possibilitou cruzar as 7 fronteiras que estão em nossa volta”.

Sara Welter

A artista também defende que preservar esses espaços não significa impedir o crescimento urbano, mas encontrar formas de integrar patrimônio e cidade contemporânea.

“Olha, estamos numa fase da sociedade onde convivemos com muitos lugares “velhos” ainda mais em grandes capitais, até em SP, essa ideia que precisam ser demolidos para modernizar é totalmente ambígua, pois, na verdade, deveríamos repensar como tornar esses lugares parte da modernização”.

Com a edição dedicada ao Complexo Ferroviário concluída, o projeto já mira novos patrimônios históricos espalhados por Mato Grosso do Sul, reforçando a proposta de transformar a arte em ferramenta de preservação da memória e valorização da identidade cultural do estado.

“O projeto continua firme e minha curiosidade ainda mais, quero pesquisar ainda mais, ir atrás da história de muitos lugares e ainda mais aqui no MS, onde temos muitas histórias para contar”.

Sara Welter

Para conferir a cartilha em formato digital, clique aqui e acesse.

Fonte: primeirapagina

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