Quando chega a época do acasalamento, é comum que golfinhos machos assumam um comportamento agressivo em relação às fêmeas. Tão agressivo, em alguns casos, que eles podem ficar com a reputação manchada: é comum que golfinhos fêmeas comecem a evitar ativamente machos com um histórico de violência.
Em um estudo lançado no início de junho, pesquisadores analisaram o comportamento de golfinho-roaz para entender como suas fêmeas lidavam com os machos especialmente agressivos. Os novos achados sugerem que elas não apenas reagem experiências passadas, como também tendem a evitar certos indivíduos com base no histórico de agressão de outras fêmeas.
Essa diferenciação ocorre por meio do som. Mais especificamente, as fêmeas se atentam aos sons característicos – os “nomes” por assim dizer – que são usados para diferenciar cada um desses animais dentro de suas próprias sociedades.
Nos golfinhos, a reprodução acontece de maneira coercitiva. Para garantir suas parceiras sexuais, é comum que machos se reúnam em grupos e “sequestrem” as fêmeas férteis com quem pretendem acasalar. Tal cativeiro muitas vezes se sustenta na base da intimidação – os machos mordem, agridem e ameaçam as fêmeas usando posturas ou vocalizações específicas para impedir que elas escapem e se reproduzam com machos rivais.
Ainda assim, até onde se tem evidência, o ato da cópula em si não é forçado (fêmeas já foram observadas se afastando de machos que tentavam as montar), apesar dele acontecer muitas vezes em um contexto de intimidação. Além disso, também é comum, por exemplo, que as fêmeas tentem escapar para testar a aptidão física de seus possíveis parceiros. A anatomia das vaginas dos golfinhos também permite que as fêmeas escolham qual esperma irá fertilizá-las. Em outras palavras, nossas ideias humanas de consentimento provavelmente não se aplicam tão facilmente aos mamíferos aquáticos.
Pesquisas passadas já haviam explorado algumas dimensões dessa forma coercitiva de acasalamento. Agora, os autores do novo estudo queriam entender se as fêmeas tentavam, de alguma forma, se safar das situações de coerção.
Para isso, eles precisaram olhar para as dinâmicas sociais dos golfinhos da natureza. No estudo divulgado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, os pesquisadores monitoraram golfinhos-roaz do Indo-Pacífico (Tursiops aduncus) localizados na baía Shark, na Austrália Ocidental – uma população que vem sendo estudada há mais de 40 anos.
De fato, as sociedades de golfinhos são complexas o suficiente para dar margem a décadas e décadas de pesquisa. A começar pela comunicação: golfinhos têm sons comparáveis a “nomes”, isto é, assobios específicos que correspondem a cada um dos indivíduos de suas sociedades.
Além disso, é comum que alguns desses animais se conheçam por décadas, e, não raro, os dois sexos também constroem relações de afinidade, uma vez que o afeto também pode ajudar esses animais a acasalarem. Nesses casos, machos costumam fazer carícias e realizar certas demonstrações para agradar as fêmeas.
Ainda assim, quando o objetivo é afastar machos rivais, a principal tática para o acasalamento é a formação de alianças – uma vez que, em uma única temporada reprodutiva, fêmeas tendem a acasalar com múltiplos machos. Nesses casos, geralmente dois ou três machos se juntam e abordam uma fêmea nadando pelas suas laterais, o que restringe seu movimento. Esse “sequestro” pode durar desde alguns minutos até alguns meses (quando a apreensão começa antes do pico de fertilidade). Frequentemente, isso vem acompanhado de alguma forma de agressão ou intimidação para impedir que a fêmea se afaste.
No estudo, os cientistas reuniram um total de 34 assinaturas sonoras (os “nomes”) de golfinhos machos, e reproduziram essas gravações em uma caixa de som debaixo d’água para 17 fêmeas. Cada uma ouviu entre uma e três dessas gravações isoladas, e os pesquisadores monitoraram todos seus movimentos pela câmera de um drone acima da água.
Os assobios de machos conhecidos por serem agressivos eram os que causavam o maior alvoroço. Fêmeas provavelmente férteis ou próximas do período fértil fugiam imediatamente desses barulhos e mantinham uma boa distância por períodos maiores.
“É como se elas pensassem: ‘Eu fico de olho em quais machos têm maior probabilidade de me coagir. E, se eu não quiser ser coagida, vou demonstrar um comportamento de evasão.’”, explica ao The Guardian a pesquisadora Stephanie King, que coordenou o estudo. “Já as fêmeas indisponíveis – as mais velhas ou aquelas com filhotes, e que provavelmente não seriam alvo desse comportamento – não apresentaram o mesmo nível de resposta.”
Além disso, até quando alguma fêmea nunca havia tido uma experiência passada com algum macho agressivo, ela fugia mesmo assim. Então a reação, como indica o estudo, poderia estar mais relacionada ao histórico dos machos. Os pesquisadores não conseguem determinar exatamente como as fêmeas conseguem essa informação – mas é possível, como sugerem, que elas aprendam observando o comportamento dos machos em relação a outras fêmeas.
Para além da sororidade, o principal achado do estudo, segundo os pesquisadores, tem a ver com as assinaturas sonoras. “Demonstramos que as fêmeas podem usar rótulos vocais individuais para diferenciar os machos com base em seus comportamentos passados, o que lhes permite antecipar e evitar interações coercitivas”, escrevem.
Fonte: abril





