Saúde

Por que alguns defendem o fim dos zoológicos? Saiba mais sobre bem-estar e conservação animal

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Em outubro de 1789, um grupo de homens invadiu o Palácio de Versailles. Eles não estavam atrás da família real francesa, que já havia abandonado a residência em meio às revoltas que por meses pediam por liberdade, igualdade e fraternidade. 

Eles foram até a Ménagerie Royale de Versailles, coleção centenária de animais raros. Ao diretor do espaço, declararam que iriam libertar os animais “aprisionados pelo orgulho e pompa dos tiranos”, e que era vergonhoso gastar para alimentá-los quando havia gente morrendo de fome.

O diretor alertou que, uma vez soltos, alguns animais atacariam e devorariam seus libertadores. A pequena multidão murchou. Os invasores soltaram alguns animais inofensivos – mas os bravos foram mantidos em celas ou abatidos (1). 

Em 1794, os animais remanescentes foram para outra ex-propriedade real, o Jardin des Plantes, onde seriam exibidos para todos, não mais só para a nobreza. Era o início dos zoológicos modernos. 

É claro que, antes disso, existiram instituições para abrigar animais tirados da natureza. Há 5 mil anos, os egípcios já administravam elefantes, babuínos, antílopes e outros em um espaço de Hieracômpolis, o maior centro urbano deles da época. 

Os humanos sempre usaram animais em cativeiro como forma de demonstrar poder. Assim como com prisioneiros humanos, voltar para casa com animais exóticos impunha respeito pela “domesticação” do mundo. Foi assim que espécies africanas e americanas foram parar em coleções europeias tão logo os primeiros navios retornaram das expedições de colonização.

Mas o modelo pós-Revolução Francesa era diferente. A popularidade das coleções da nobreza caiu junto com os monarcas. Na Europa do século 19, virou moda expor animais para entreter o grande público, possibilitar investigações científicas e fortalecer o sentimento patriótico.

Os animais eram trazidos de longe por comerciantes, naturalistas e militares. Para cada bicho enjaulado, incontáveis outros haviam morrido – seja porque pode ser preciso matar uma família de gorilas para capturar um filhote, seja pelas péssimas condições de transporte.

Na América Latina, os zoos nasceram junto com a urbanização, no final do século 19. Havia demanda por lazer. E, embora muitos apenas copiassem o modelo europeu, alguns dos mais relevantes zoológicos latinos estabeleceram princípios inovadores. 

No de Chapultepec, Cidade do México, em 1924, a novidade foi dispor os animais de acordo com sua classificação em grupos. O criador do zoo, Alfonso Herrera, um socialista e darwinista apaixonado, apostava que, entendendo sobre ciências naturais, o povo mexicano romperia com as visões clericais e com os governos conservadores.

Ninguém passa indiferente por um zoo. Eles provocam sensações e reflexões sobre o mundo natural e a vida. Enchem os olhos, narinas e ouvidos de novidades. Mas essa história está longe de ser perfeita.

Por mais que disponham de comida, teto e cuidados que não teriam na natureza, os animais ainda têm sua vida inteira controlada, e algumas espécies apresentam mais dificuldade para se adaptarem ao cativeiro do que outras. Isso pode resultar em estresse – e agressividade.

No Brasil, vários zoológicos operam com algum tipo de pendência em sua regularização [mais sobre isso adiante]. A maior parte não está filiada aos órgãos nacionais e internacionais de referência na área, e falta fiscalização adequada. 

Há décadas, um movimento mundial pede o fim dos zoológicos, pelas condições dos animais que vivem dentro deles – e por talvez não ajudarem suficientemente os que estão fora. 

“Não há evidência inequívoca que os zoos estejam fazendo os visitantes se importarem mais ou tomarem atitudes para apoiar a conservação. Afinal, mais de 700 milhões de pessoas visitam zoos e aquários no mundo todo por ano, e a biodiversidade ainda está caindo”, escreveu a jornalista e ambientalista Emma Marris em um artigo de opinião no New York Times (2). 

Só no Brasil, há pelo menos três projetos de lei em tramitação na Câmara propondo o fim dos zoos. Afinal, qual é o lugar dessas instituições hoje, à luz das discussões mais recentes sobre conservação e direito animal? Zoológicos são parte da solução ou mais atrapalham do que ajudam? É o que vamos discutir abaixo.

Estatuetas de animais embrulhadas em plástico bolha: um elefante, uma girafa, dois pinguins e um leopardo, com as cabeças e detalhes expostos, sobre um fundo bege claro.
(Felipe Del Rio/Superinteressante)

Ordem na jaula

As condições em que os animais viviam só começaram a ser criticadas nos anos 1970 e 1980, quando movimentos pela reforma de zoos e pelo bem-estar de animais incorporaram novos entendimentos científicos e veterinários.

Coisas que hoje parecem óbvias eram tidas como radicais demais naquele momento. Em 1979, o arquiteto David Hancocks propôs recintos que considerassem aspectos da fisiologia, psicologia e origem de cada espécie. Entre as propostas estavam as áreas de fuga, onde animais podem se esconder dos olhos do público se quiserem. Outros zoos criticaram a iniciativa por “esconder os animais”. Levou 12 anos até que replicassem a técnica, hoje adotada no mundo todo.

Até então, acreditava-se que, só de não estarem lutando pela própria sobrevivência, os animais já estariam menos estressados do que na natureza. Bichos de zoo vivem, em média, bem mais do que os seus colegas de vida livre. Mas, para um tigre que caça e anda quilômetros por dia, estressante é uma vida mansa, de papo pro ar.

Caixas de papelão abertas com animais de brinquedo envoltos em plástico bolha e isopor: uma girafa, um leopardo e um rinoceronte. Outras caixas fechadas estão espalhadas sobre um fundo bege, sugerindo transporte de itens frágeis.

Em 1956, a Associação Mundial de Zoológicos e Aquários (Waza, na sigla em inglês) definiu pela primeira vez critérios para o manejo. Até hoje, só instituições que atendem a todos os requisitos poderiam ser certificadas, ou acreditadas, pela Waza.

Ao longo das décadas, os padrões de cuidados de animais passaram a tentar fortalecer o bem-estar, em vez de apenas eliminar o sofrimento [veja no box abaixo]. Acabaram os castigos físicos e, duas décadas depois do teste de David Hancocks, os viveiros ganharam o direito a enriquecimentos ambientais e às áreas de fuga.

Infográfico sobre os cinco domínios do bem-estar animal: Nutrição, Ambiente, Saúde, Comportamento e Estado Mental. Cada domínio é numerado e detalhado com texto explicativo em fundo verde escuro e letras claras.
(Caroline Aranha/Superinteressante)

Em 2002, pela primeira vez, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) regulamentou os requisitos mínimos para o manejo de animais, formulados com apoio de especialistas. Até então, só o que existia era uma lei de 1983, que estabelecia que deveria haver ao menos um biólogo e um veterinário nessas instituições. De resto, tudo liberado.

Hoje, a coisa é específica. Bem específica. Um exemplo: muçuãs (um tipo de cágado) devem ficar em um recinto que seja feito 60% de água, com fundo de terra, e 40% de areia, com profundidade de 20 cm e sombra. Entre a areia e a água, deve haver um ângulo de inclinação de 20º. No caso de muçuãs filhotes, com menos de 10 cm, permite-se que vivam até dez indivíduos por m². Conforme crescem, cada vez mais espaço é necessário: espécimes de mais de 50 cm devem ter 2m² para si (3). Melhor que muita quitinete em São Paulo (rs).

Alguns animais, como os lobos-guarás, devem viver solitários, tal qual na natureza. Outros, como primatas e capivaras, precisam obrigatoriamente ter companhia. Em alguns casos, os zoos têm de, ainda, reproduzir dinâmicas naturais e separar ou unir animais em determinadas fases. 

Muitos especialistas opinam que os requisitos do Ibama, embora atualizados periodicamente, estão defasados e são insuficientes. Na prática, os profissionais do ramo acabam criando protocolos de manejo mais detalhados. Eles não são normas, mas referências seguidas pelas instituições filiadas à Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (Azab). 

Os zoos membros da Azab se apoiam em quatro grandes pilares: lazer, educação ambiental, pesquisa científica e conservação de espécies. Esses dois últimos ajudam a entender como o impacto dos zoos pode ir muito além das suas grades. 

Quem ama cuida

Nos anos 1960, pesquisadores soaram um alarme: havia menos de 200 micos-leões-dourados na natureza. Não só o grupo poderia ser destruído rapidamente por alguma fatalidade, como a reprodução entre parentes próximos era cada vez mais inevitável. Com o tempo, isso teria impactos sérios na diversidade genética e na saúde dos animais. 

O sumiço de bichos que se alimentam de frutas, como micos, antas, tucanos e veados, cria um ciclo de prejuízos para a Mata Atlântica: sem eles para dispersar parte das sementes, a vegetação fica mais rala, menos diversa e mais frágil. A floresta vai minguando (5). 

Nas décadas de 1970 e 1980, 140 zoos do mundo todo enviaram espécimes de mico-leão-dourado para a Mata Atlântica. Além disso, áreas de conservação foram demarcadas e unidas por corredores de reflorestamento, e rolou uma grande campanha de educação ambiental.

Foi um sucesso: em 2003, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) considerou que a espécie estava “só” ameaçada de extinção, e não mais criticamente ameaçada. Hoje, há 4.800 micos-leões-dourados no Brasil. O caso virou modelo de como instituições de diferentes tipos podem colaborar para a conservação.

Os cuidados com animais são divididos em dois grandes grupos: in situ, para animais que estão livres na natureza; e ex situ, para aqueles sob cuidados humanos. Evitar o desmatamento: cuidado in situ. Cuidar de bichos no zoo: ex situ. 

Miniaturas de pessoas e objetos em um cenário bege. Uma girafa coberta por plástico bolha está no centro, com um homem de chapéu e roupa verde tocando-a. Outro homem de chapéu e roupa verde segura um caderno. Uma mulher de camiseta azul e calça clara, uma mulher de jaleco branco e um homem de camisa vermelha e calça marrom observam. À esquerda, uma caixa de papelão derrama bolinhas brancas, e outras duas caixas fechadas estão próximas. No canto superior direito, um cercado verde com grama simula um habitat.
(Felipe Del Rio/Superinteressante)

Ambos são feitos por várias partes interessadas: biólogos, veterinários, povos tradicionais, fazendeiros, policiais ambientais, administradores de criadouros, pesquisadores, ativistas, legisladores, servidores públicos… 

E a lista continua.

Aos poucos, os especialistas em conservação começaram a perceber que não dava mais para todo mundo trabalhar isoladamente. Mesmo que eles nem sempre concordassem entre si, suas decisões muitas vezes se sobrepunham e tinham o mesmo objetivo: conter as crescentes extinções.

Por isso, desde 2013, a IUCN passou a usar a abordagem do plano único para planejar o futuro das espécies. A ideia é botar todas as partes na mesa para entender a raiz das ameaças e decidir um plano que faça sentido, com atribuições para todos.

É preciso uma metodologia específica para criar um diálogo entre fazendeiros que atiram em onças para proteger o gado e ativistas de direitos dos animais. A IUCN conduz oficinas desse tipo mundialmente e, para cada espécie, elabora-se um plano de ação diferente.

Dali podem sair medidas de campo, como proteger ninhos, retirar espécies invasoras e conscientizar moradores da região. Muitos zoos apoiam financeiramente programas de conservação in situ (na natureza).

Medidas menos invasivas são sempre prioridade, mas, a depender da ameaça, pode ser necessário retirar os animais da natureza, para o bem da espécie. O planejamento foca a proteção a médio e longo prazo.

Em alguns casos, uma amostra de animais serve para criar populações de segurança, como se fosse um backup. Eles também podem ser capturados para evitar ameaças iminentes, para serem reintroduzidos onde já foram extintos ou para aumentar a variabilidade genética de populações cuidadas por humanos. 

Isso tudo tem custos e riscos. No caso de espécies muito visadas pelo tráfico, por exemplo, a transferência pode ser feita em sigilo. Os zoos não estão autorizados sequer a dizer que possuem esses animais, quanto mais exibi-los. 

Se o objetivo for devolver os espécimes para a natureza, é preciso que eles conservem os instintos e não se acostumem com humanos. Como você pode imaginar, isso não envolve crianças gritando e batendo em vidros. 

Ou seja: pela primeira vez nos 250 anos de história dos zoos modernos, eles têm animais para escondê-los dos visitantes.

Quem ama estuda

A pesquisa também tem seu lugar nisso tudo. No caso dos micos-leões-dourados, por exemplo, os primatas que viviam em zoos foram essenciais quando a febre amarela dizimou um terço da população selvagem em 2016 e 2017. Foi neles que os cientistas testaram uma dose mais fraca da vacina da febre amarela para humanos – e descobriram que funcionava. 

Desde então, mais de 500 micos-leões-dourados selvagens já foram imunizados, numa bela mistura de cuidados in situ e ex situ (6). Além disso, depois que o auge da epidemia passou, alguns micos de zoos foram devolvidos para a natureza, para fortalecer determinados traços genéticos que poderiam ter sido perdidos.

Esse tipo de manejo é parte importante. Reproduzir animais desordenadamente pode ter impactos sérios em uma população. É como misturar cachorros de várias raças. No final, você teria vários vira-latas genéricos. Fofos, mas talvez não os mais bem adaptados para a neve ou para a caça.

“Em termos de diversidade, é muito mais interessante você garantir que [a genética de uma população] seja a mais variada possível”, explica Thomas Christensen, analista ambiental do ICMBio. “O ambiente sempre muda, e, se você considerar as mudanças climáticas, a gente não sabe bem quais adaptações dos animais serão úteis para eles.”

Instituições do mundo inteiro precisam manter registros genealógicos dos animais. Assim, mesmo sem exames genéticos, dá para mapear informações demográficas e das linhagens dos indivíduos.

A partir daí, estão abertas as portas para um intercâmbio sem fronteiras. Nos programas de conservação, os animais não pertencem a uma ou outra instituição, e sim à União – e precisam ser cedidos caso animais de outros lugares necessitem de companheiros ou parceiros sexuais. 

Para Regina Horta Duarte, professora de história dos animais da UFMG, diante de hábitats degradados que, muitas vezes, não podem receber os bichos de volta, “os zoológicos do mundo se tornaram um pouco como corredores ecológicos, por onde os animais transitam.”

Dia de passeio

Hora de falar sobre os outros dois pilares de um zoológico moderno: o lazer e a educação ambiental. 

Zoos são áreas verdes acessíveis para rolês em família. Proporcionam contato com uma parte da natureza que a maioria das pessoas dos centros urbanos jamais veria. 

“Os animais que estão lá são embaixadores das suas espécies”, diz Yara Barros, coordenadora do projeto Onças do Iguaçu e ex-presidente da Azab. “Eles têm que ser usados para mobilizar, eu acredito no encantamento do público como ferramenta de conservação.”

O papel educacional é um princípio para justificar a visitação de zoos – mas é muito questionado pelos críticos.

Em tempos de internet, documentários, IA e projeções 3D, há quem defenda que animais vivos não são necessários para a educação. “As crianças ficam infinitamente fascinadas por dinossauros, apesar de nunca terem visto um de verdade”, diz Catie Cryar, gerente sênior da PETA (em português, “Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais”), a maior ONG de direitos animais do mundo.

A verdade é que, enquanto muitos zoos estão em plena mudança, uma grande parte ainda opera como no século passado. E é por esses que passa a maior parte das polêmicas. “Os piores inimigos dos zoológicos não são os [movimentos] antizoos, são os zoológicos ruins”, aponta Barros. 

Regulados pelo Ibama e por normas estaduais, os zoos são fiscalizados prioritariamente pelas secretarias dos estados desde 2011. A decisão tem como objetivo distribuir as atividades e adaptá-las às demandas de cada região. O problema é que ela dificulta a centralização de informações. 

Hoje, o Ibama não tem dados completos sobre o número de zoológicos do País, qual o porte de cada um, quantos sofreram sanções por irregularidades etc. Essas informações precisam ser obtidas com cada uma das secretarias estaduais. 

A Super levantou que há 122 zoos em funcionamento regular no País, e 44 com algum tipo de pendência . Em todo o Brasil, apenas 48 são filiados à Azab e, consequentemente, acreditados pela Waza.

A qualidade dos zoos, claro, reflete no bem-estar dos seus moradores. Espécies com mais dificuldade em se adaptar ao cativeiro podem desenvolver comportamentos repetitivos em resposta ao estresse. Tigres e ursos andam de um lado para o outro em seus viveiros, enquanto primatas e aves podem arrancar seus próprios pelos ou penas. 

Miniaturas de dois pinguins, um leopardo e duas girafas em um cercado com grama verde, simulando um zoológico. O cercado tem formato irregular, com bordas marrons e divisórias transparentes. O fundo é bege claro.
(Felipe Del Rio/Superinteressante)

Percalços financeiros e sinais de estresse nos bichos fortalecem os argumentos de um movimento que começou a ganhar força nos anos 1980: os ativistas que pedem pelo fim definitivo de todos os zoológicos. A ideia seria parar de reproduzir os animais em cativeiro, interromper as visitações e tentar devolvê-los para a natureza (ou cuidar deles até que morram). 

É compreensível. Mas, assim como os revolucionários de Versailles, esses ativistas correm o risco de descobrir que esvaziar jaulas é muito mais complicado do que parece. 

Os sem-floresta

Até os maiores amantes de zoológicos sabem que animais pertencem à vida livre. Mas o primeiro obstáculo está em encontrar uma natureza que possa receber os bichos em segurança. 

No ano passado, por exemplo, a França proibiu shows com cetáceos. Desde então, duas orcas adultas são mantidas nos tanques de um parque desativado, aguardando a decisão relativa ao seu destino. 

As ações humanas impactam cada um dos ecossistemas na Terra. Mesmo onde há áreas de conservação, elas são fragmentadas. Não é raro que, após meses de reabilitação, um animal recém-libertado morra tentando atravessar uma rodovia. 

“Há muitos riscos envolvidos na soltura de animais”, diz Amos Courage, diretor internacional da Fundação Aspinall, referência mundial no tema. A entidade inglesa devolve gorilas para a natureza no Congo e no Gabão desde 1980, e hoje faz o mesmo com uma dúzia de outras espécies na Europa e na África. 

No caso dos gorilas, animais sociais, foi preciso encontrar uma área sem outros gorilas e cercada de barreiras naturais para separá-los das suas maiores ameaças: os humanos. Achar um lugar assim hoje é muito raro.

Para um indivíduo voltar à natureza, há uma longa lista de aspectos a serem considerados: idade, sexo, saúde física, linhagem genética, padrões da espécie, temperamento, autonomia em relação aos humanos, e por aí vai. É comum que animais criados por nós não saibam o básico da sobrevivência em seu hábitat natural.

Há também o risco de, ao se entrosarem com os primos distantes, os bichos que viviam em cativeiro transmitam novas doenças que podem ser fatais. 

Courage e seu colega Tony King, coordenador de conservação e reintrodução que também trabalha na área há décadas, narram ainda as dificuldades logísticas da coisa, desde o desafio de transportar animais enormes até cumprir burocracias e articular várias instituições no mundo todo.

“Uma reintrodução bem-feita é um processo caro, e com uma logística custosa, porque você tem que monitorar o bicho por bastante tempo”, explica Fabiana Rocha, coordenadora do Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil da IUCN. 

Rocha coordena oficinas de planejamento de conservação em todo o mundo, e ressalta que é preciso pensar na viabilidade e na segurança biológica da espécie, e não só naquele indivíduo que gostaríamos de ver longe das jaulas. 

Infográfico, em fundo verde escuro, de bons exemplos sobre recuperação de espécies ameaçadas. Quatro painéis com ilustrações e textos: tartaruga-verde (Oceanos tropicais), sapo-de-kihansi (Garganta de Kihansi, Tanzânia), águia-de-cabeça-branca (América do Norte) e castor-europeu (Europa e Ásia), detalhando seus casos de sucesso na conservação.
(Caroline Aranha/Superinteressante)

E os santuários?

Nas discussões sobre o futuro dos animais de zoológicos, os santuários costumam ser colocados como uma alternativa mais compassiva. Essas instituições, que legalmente se chamam “mantenedouros de animais silvestres”, não podem reproduzir os animais nem exibi-los para visitas públicas (a não ser em casos excepcionais). Eles focam o cuidado dos indivíduos, e não da espécie; trata-se mais de direito animal do que ambiental. 

Embora o nome remeta a um lugar de descanso paradisíaco, nem sempre os animais vivem soltos em vastas áreas. Na realidade, os santuários não são obrigados a seguir nem aquelas regras do Ibama que definem dimensões mínimas de viveiros, por exemplo. Também não precisam da presença permanente de profissionais especializados, como veterinários, biólogos e zootecnistas. 

Isso abre margem para manejos inapropriados, que viralizam facinho na internet: chimpanzés comendo ultraprocessados, onças abraçando tratadores, lobos-guarás recebendo carinho na barriga. Parece fofo, mas é inadequado para os animais, perigoso para os tratadores, e desinforma os espectadores, incentivando contatos indevidos com bichos silvestres e o tráfico.

“Vídeos que mostram interação física direta com esses animais [grandes carnívoros e ursos] soltos indicam descumprimento do protocolo obrigatório”, esclareceu o Ibama, em nota. Mesmo assim, casos do tipo não param de aparecer em nossos feeds.

Em geral, mantenedouros são organizações pequenas, mantidas por doações. Yuri Lima, especialista em direito animal e advogado de santuários, explica que muitos passam por perrengues financeiros para cuidar de animais resgatados de maus-tratos – seja do tráfico, de fazendas, de circos ou zoos. Para ele, falta apoio do Estado para ações assim. 

Na falta de regulação específica, dinheiro garantido e visitantes para cobrar boas condições, nem todos os santuários conseguem garantir o manejo ideal. 

Maquete de um zoológico com três recintos: duas girafas em gramado com árvore, dois pinguins em área de gelo com iceberg, e um leopardo sobre rocha em gramado com planta.
(Felipe Del Rio/Superinteressante)

Isso não é exclusividade dos mantenedouros, vale dizer, nem faz desse tipo de instituição pior ou melhor que os zoos. Embora frequentemente colocadas em oposição, essas duas categorias não precisam competir. Em vez disso, podem se aliar no objetivo comum de cuidar de animais e da natureza. 

Mantenedouros bem-estruturados, por exemplo, podem aliviar a capacidade de centros de triagem e zoos, que muitas vezes não dão conta de receber um volume alto de animais resgatados nem de criar novos espaços para espécies prioritárias.

Esse debate levanta outra questão: o rearranjo dos tipos de animais que vivem em um zoo. É comum que espécies carismáticas e filhotes recebam prioridade porque atraem visitantes, mas muitas vezes eles não estão ameaçados nem integram estratégias de conservação.

Estudos apontam que, organizando direitinho, daria para usar a estrutura existente dos zoos mundiais para abrigar todas as espécies ameaçadas de mamíferos, aves e répteis. Não seria fácil, mas seria possível (8). 

Fora o desafio logístico, seria preciso convencer os visitantes do valor e da beleza da conservação, mais do que do exotismo e do carisma de animais do outro lado do mundo. “É preciso toda uma construção de narrativa para tornar essa pauta [a conservação da fauna nativa] relevante para as pessoas”, aponta Christensen. 

A revolução dos bichos

Encher os recintos apenas com animais ameaçados é um dos muitos sonhos para o futuro dos zoológicos. Mas, como já dissemos, há quem peça pelo fim definitivo deles. Outros aplicam níveis de pragmatismo. Seria o caso de acabar com as visitas? E se as visitas fossem mantidas, mas o público fosse orientado a ser menos intrusivo (e bem mais silencioso)?

No Brasil, um projeto de lei (PL) propõe atualizar a lei dos zoos de 1983, incluindo mantenedouros, criadouros científicos e comerciais e incorporando novas preocupações com manejo, sustentabilidade financeira e conservação (9). O PL já foi aprovado pela Câmara e aguarda votação no Senado desde 2024.

Muitos movimentos internacionais preferem pressionar as instituições e exigir a acreditação. Em outra linha, pesquisadores e diretores de zoos do mundo todo trabalham em um novo paradigma desde 2023, propondo que as instituições usem sua influência para ir muito além dos quatro pilares – lazer, educação, pesquisa e conservação –, funcionando como agentes de mudanças sistêmicas.

Uma pessoa em miniatura, de pele escura e camisa azul, aponta para um mapa-múndi em um cavalete, enquanto outras cinco pessoas sentam-se ao redor de uma mesa. Acima, um recinto de zoológico com duas girafas e dois pinguins.
(Felipe Del Rio/Superinteressante)

Os zoos são, por exemplo, grandes compradores de insumos (experimente encher a pança de um elefante ou enriquecer o ambiente de um leão). Ao comprar apenas madeira certificada ou exigir embalagens recicláveis, eles podem estimular mudanças entre os fornecedores e na economia local. 

A proposta também vê nos zoos o papel de reparar os danos de seu passado colonialista (como corrigir representações que associam animais africanos a povos “primitivos”) e se relacionar com indígenas e comunidades locais. 

Um exemplo veio do zoo de Toronto, no Canadá, em 2023. Após a morte de um urso-pardo, o corpo do bicho foi entregue a representantes do povo indígena tsimshian, que vive na região há 10 mil anos e enxerga esses animais como guias espirituais de cura, força e proteção. Os tsimshian, então, fizeram a cerimônia fúnebre tradicional reservada ao animal (10).

David Hancocks, o arquiteto que repensou os viveiros nos anos 1970, dizia que os zoos tinham que ser como museus que contam histórias, e não que meramente exibem objetos. Por isso, a proposta das esferas de influência aponta ainda que a educação ambiental deve conscientizar o público sobre as ameaças que atingem os animais silvestres e seus hábitats. 

Regina Horta Duarte, da UFMG, diz que a história dos zoológicos é também a história do domínio do homem sobre a natureza – mas, em vez de dominar para só destruir, muita gente acredita que os zoos têm um papel fundamental para virar essa maré. 

Para salvar os animais do dilúvio, Noé construiu do zero uma arca gigante. Estamos em uma situação parecida – mas as arcas já estão prontas. A missão da humanidade é fazer dos zoológicos casas dignas para os animais. Só não podemos esquecer que a verdadeira casa é lá fora. Podemos até preparar os animais para o mundo, mas há muito mais trabalho em preparar o mundo para os animais. 

Agradecimentos Ana Raquel Faria, diretora de conservação da Azab; Bernardo Britto, coordenador dos Planos de Ação Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção do ICMBio; Carolina Lorieri, veterinária e diretora técnica da Conservare Wild Consulting; Mara Marques, presidente da Azab.

Referências livro Genealogia dos Zoos na América Latina: civilização, ciência e sensibilidades (1875-1939) ; (1) livro Zoo Culture: the book about watching people watch animals; (2) texto “Modern zoos are not worth the moral cost”, New York Times; (3) Instrução normativa do Ibama n º7/2015 (4) Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (5) artigo “Defaunation affects carbon storage in tropical forests”; (6) relatório anual da Associação Mico-Leão-Dourado, 2025; (7) dados do Ibama e do Departamento de Gestão da Fauna Silvestre do Estado de SP; (8) livro Zoo Ethics: the challenges of compassionate conservation; (9) PL n° 3336, de 2019;(10) artigo “The zoo sphere of influence model”.

Fonte: abril

Sobre o autor

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Jornalista DRT 0003133/MT - O universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber. Vamos ser a mudança que, queremos ver no Mundo