Saúde

Polipílula inovadora previne AVC em 8,5 mil pessoas: estudo revela resultados promissores

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2026

Pesquisadores brasileiros ampliaram o estudo de uma polipílula desenvolvida para prevenir o primeiro acidente vascular cerebral (AVC) e outras doenças cardiovasculares. O projeto pretende reunir 8,5 mil voluntários, que serão acompanhados por um período de três a quatro anos.

A polipílula combina rosuvastatina 10 mg, valsartana 80 mg e anlodipina 5 mg. A proposta é reunir em um único comprimido medicamentos utilizados no controle do colesterol e da pressão arterial.

A primeira etapa dos testes em humanos foi considerada bem-sucedida e contou com 370 participantes em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, entre 2020 e 2023. A nova fase é conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), além de unidades de atenção primária e secretarias de saúde.

A coordenação é da neurologista Sheila Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento. Segundo a pesquisadora, a participação de um número elevado de voluntários é fundamental para produzir evidências mais consistentes e avaliar o potencial da estratégia de prevenção.

Quem pode participar do estudo

O estudo busca pessoas entre 50 e 75 anos que nunca tiveram AVC ou infarto e que não utilizem medicamentos para colesterol, hipertensão ou diabetes. A participação é gratuita e inclui acompanhamento periódico realizado por uma equipe especializada.

O recrutamento ocorre em 14 centros especializados em AVC nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Acre, além do Distrito Federal. Outros centros ainda estão sendo incorporados à pesquisa.

Os voluntários serão distribuídos por sorteio em dois grupos. Um deles receberá a polipílula com os medicamentos ativos, enquanto o outro utilizará placebo, sem os princípios ativos.

Durante aproximadamente três anos, os pesquisadores vão avaliar se o tratamento reduz o risco de AVC, demência e piora da memória. Também serão analisados como resultados secundários os possíveis efeitos sobre infarto, insuficiência cardíaca e mortes provocadas por doenças circulatórias.

Aplicativo acompanha risco cardiovascular

O projeto também utiliza o aplicativo Riscômetro, criado para ajudar os participantes a compreender e acompanhar seus riscos cardiovasculares. A ferramenta permite estimar o risco de AVC, infarto e outras doenças circulatórias e acompanhar mudanças relacionadas à prevenção.

De acordo com Sheila Martins, a experiência da fase inicial mostrou que o uso do aplicativo também estimulou mudanças de hábitos. Entre os exemplos citados estão o aumento da atividade física e a interrupção do tabagismo.

Hipertensão é um dos principais fatores de risco

Segundo a médica, o AVC é a principal causa de morte no Brasil e está entre as principais causas de incapacidade. Dados do Portal da Transparência do Registro Civil apontam que 89.490 brasileiros morreram em decorrência da doença no ano passado.

No cenário mundial, a Organização Mundial do AVC estima que as mortes provocadas pela doença podem aumentar nas próximas décadas, passando de 6,6 milhões em 2020 para aproximadamente 9,7 milhões em 2050.

A pesquisadora destaca que 90% dos casos de AVC podem ser prevenidos com o controle dos principais fatores de risco. Entre eles, a hipertensão ocupa posição de destaque.

A pressão arterial começa a elevar o risco de AVC a partir de 115 mmHg de pressão sistólica e 75 mmHg de pressão diastólica. Quanto maiores os níveis de pressão, maior tende a ser o risco.

Em situações de pressão levemente elevada, as orientações normalmente envolvem mudanças no estilo de vida, como reduzir o consumo de sal, praticar atividade física e evitar o consumo excessivo de álcool. Segundo Sheila Martins, a medicação também costuma ser prescrita a partir de níveis de 140 por 90 mmHg.

Pesquisa avalia prevenção antes do primeiro AVC

A pesquisa busca verificar se o uso antecipado da combinação de medicamentos pode evitar o primeiro AVC em pessoas consideradas de baixo ou médio risco. O estudo inclui participantes de 50 a 75 anos com fatores de risco modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada e tabagismo.

Segundo a neurologista, pessoas com pressão nesse nível e que não utilizam medicamentos para hipertensão, diabetes ou colesterol representam 85% dos casos de AVC no mundo. A proposta, portanto, é avaliar uma estratégia preventiva antes que ocorra o primeiro evento cardiovascular.

Resultados apresentados pela equipe em congressos internacionais após os primeiros testes indicaram que a combinação reduziu a pressão arterial em 12 mmHg. O colesterol também apresentou redução de 40 miligramas por decilitro.

Estudo pode influenciar políticas públicas

Para Sheila Martins, a expansão da pesquisa representa uma etapa decisiva. A fase piloto indicou que a polipílula foi bem tolerada, apresentou baixo risco e reduziu a pressão arterial, mas a nova etapa deverá verificar se esses efeitos se traduzem em menor ocorrência de AVC, demência, doenças circulatórias e mortes cardiovasculares.

Com 8,5 mil participantes previstos em diferentes regiões do país, o estudo também poderá contribuir para futuras políticas públicas de prevenção. A expectativa da coordenação é que, caso os resultados sejam positivos, a polipílula possa futuramente ser disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A combinação foi desenvolvida por um comitê executivo nacional liderado por Sheila Martins, com participação de um comitê internacional formado por especialistas em AVC e hipertensão da Austrália, dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Fonte: cenariomt

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