CenĂĄrio PolĂ­tico

PolĂȘmica: Caderneta da Gestante do governo Lula aborda tema do aborto e menciona pessoas que gestam

Grupo do Whatsapp CuiabĂĄ
2026

O MinistĂ©rio da SaĂșde lançou, em 12 de maio, uma nova versĂŁo da Caderneta da Gestante, que conta agora, alĂ©m da versĂŁo em papel, com uma possibilidade de acesso virtual por meio do aplicativo Meu SUS Digital. Ao apresentar o novo documento no Instagram, o ministro da SaĂșde, Alexandre Padilha, conta como a novidade tecnolĂłgica pode ser benĂ©fica caso a mulher entre em trabalho de parto e nĂŁo tenha a caderneta fĂ­sica em mĂŁos. 

Mas, para alĂ©m disso, a nova Caderneta da Gestante traz “novidades” bastante preocupantes, em relação ao seu conteĂșdo, do ponto de vista de alguns mĂ©dicos. Pela primeira vez, um documento voltado ao prĂ©-natal passa a incluir um capĂ­tulo com informaçÔes sobre aborto. A nova versĂŁo tambĂ©m substitui os termos “mulher” e “mĂŁe” por expressĂ”es como “pessoas que gestam” e ainda cita questĂ”es sobre a violĂȘncia obstĂ©trica de maneira incorreta, no entender dos especialistas.

Em um vĂ­deo publicado no Instagram, o obstetra Raphael CĂąmara, ex-secretĂĄrio de Atenção PrimĂĄria do MinistĂ©rio da SaĂșde, membro do Conselho Federal de Medicina (CFM) pelo estado do Rio de Janeiro e criador da versĂŁo anterior da Caderneta da Gestante, e o infectologista Francisco Cardoso, membro do CFM pelo estado de SĂŁo Paulo, fazem duras crĂ­ticas ao documento que traz, no sĂ©timo capĂ­tulo, informaçÔes especĂ­ficas sobre a “gestação nĂŁo planejada” e a “gestação nĂŁo desejada”. 

Para CĂąmara, incluir orientaçÔes sobre aborto e em quais situaçÔes o procedimento pode ser realizado Ă© inadequado em um documento voltado justamente a mulheres que optaram pelo prĂ©-natal e que querem aquela criança. “NĂŁo faz sentido algum falar de aborto nesse documento! Isso preocupa bastante, porque começa-se a usar o prĂ©-natal como, por exemplo, um momento para se estimular o aborto. Isso seria muito perigoso”, alerta.

Em concordĂąncia com a avaliação de CĂąmara, Francisco Cardoso aponta que, da maneira como estĂŁo colocadas as informaçÔes nesta nova versĂŁo da caderneta, o atual governo estĂĄ introduzindo uma agenda que relativiza a gestação jĂĄ em curso. “A caderneta de prĂ©-natal deveria ser um instrumento de proteção da gestante, da mĂŁe e do bebĂȘ, voltado ao acompanhamento da gravidez, Ă  prevenção de riscos, ao parto seguro e ao cuidado materno-infantil”.

Cardoso tambĂ©m critica o uso da expressĂŁo “direitos reprodutivos” nesse contexto. Segundo ele, o termo funciona como um eufemismo, jĂĄ que, no caso do aborto, trata-se do encerramento de uma gestação — ou seja, de um suposto direito Ă  nĂŁo reprodução apĂłs o inĂ­cio da vida intrauterina.

“Se vocĂȘ se sente mal” e “pessoas que gestam”

Tecnicamente falha, na opiniĂŁo de CĂąmara, a caderneta conta com apenas um obstetra entre os especialistas que assinam o documento. Ele aponta ainda que o conteĂșdo da caderneta traz expressĂ”es que deixam margem para interpretaçÔes equivocadas. JĂĄ para Cardoso, ela tambĂ©m apaga a centralidade feminina da maternidade. 

HĂĄ um trecho, por exemplo, em que o documento abre brecha para o aborto fora das possibilidades nĂŁo punidas pela lei: “Se vocĂȘ se sente mal, constrangida ou percebe que nĂŁo desejava a relação sexual que resultou nesta gestação, procure a equipe da UBS”. O aborto, a morte de uma criança no Ăștero, Ă© crime no Brasil, nĂŁo punido em casos de gestação decorrente de estupro, risco de vida da mĂŁe e quando o bebĂȘ sofre de anencefalia.

“O que Ă© se sentir mal? Essa expressĂŁo nĂŁo quer dizer nada e Ă© completamente genĂ©rica. Se depois de grĂĄvida jĂĄ hĂĄ algum tempo a mulher se sente mal e acha que aconteceu alguma coisa, ela pode procurar a UBS. E neste caso ela jĂĄ estĂĄ fazendo o prĂ©-natal e entende-se que quer o filho. É muito vaga essa expressĂŁo e perigosa”, cita CĂąmara. 

É importante lembrar que ainda estĂĄ suspensa, desde maio de 2024, a Resolução 2.378/2024, do CFM, que proĂ­be matar bebĂȘs com mais de 22 semanas de gestação, por meio da assistolia fetal. Portanto, a indução da morte intrauterina de bebĂȘs entre 5 e 9 meses de gestação, por meio de fĂĄrmacos, Ă© possĂ­vel, caso a mĂŁe declare que foi estuprada (sem necessidade de prova), sem que o CFM possa sancionar mĂ©dicos que o fizerem. O texto da caderneta pode ser, entĂŁo, um passo a mais para sugerir essa opção Ă s mulheres.

AlĂ©m disso, hĂĄ em todo o documento o uso da expressĂŁo “pessoa que gesta”, o que segundo Francisco Cardoso nada mais Ă© do que “transformar uma experiĂȘncia humana, biolĂłgica, afetiva e social profundamente ligada Ă  mulher em uma fĂłrmula burocrĂĄtica e despersonalizada”.

Para ele, a medicina deve acolher a todos com respeito, mas nĂŁo pode negar a realidade de que quem engravida, em regra biolĂłgica e social, Ă© a mulher. “Quando o Estado troca ‘mĂŁe’ por uma expressĂŁo abstrata, ele nĂŁo amplia humanidade, ele esvazia a maternidade”. 

Aborto em caso de estupro

No subcapĂ­tulo destinado Ă s informaçÔes sobre “violĂȘncia e gestação”, a caderneta explica que “nĂŁo Ă© obrigatĂłrio registrar boletim de ocorrĂȘncia para receber atendimento de saĂșde”, em casos de gestação que resulte de violĂȘncia sexual, porque “a interrupção da gravidez Ă© um direito legal se essa for a sua decisĂŁo”. 

A informação Ă© pautada na Portaria GM/MS nÂș 1.508, de 1 de setembro de 2005, que orienta que “as vĂ­timas de violĂȘncia sexual podem solicitar a interrupção da gravidez no SUS sem necessidade de boletim de ocorrĂȘncia ou autorização judicial”. Essa portaria foi revogada em 2020 (GM/MS nÂș 23/2020), durante a gestĂŁo de Raphael CĂąmara Ă  frente da secretaria de SaĂșde PrimĂĄria do MinistĂ©rio da SaĂșde. Em 2023, no inĂ­cio do terceiro mandato de Lula, o MinistĂ©rio da SaĂșde voltou a permitir o aborto sem boletim de ocorrĂȘncia.

“Nossa portaria [de 2020] obrigava a denunciar o estupro. Ao nĂŁo obrigar a denunciar o estupro, a mulher, mesmo apĂłs o aborto, pode continuar na situação de risco de violĂȘncia, o que acontece com crianças e adolescentes em casa. Pela lei penal, o estupro Ă© alvo de notificação obrigatĂłria e Ă© uma ação pĂșblica incondicionada Ă  vontade da vĂ­tima”, explica CĂąmara. 

Cardoso comenta tambĂ©m que a portaria de Lula de 2023 (GM/MS nÂș 13/2023) retirou barreiras procedimentais que buscavam dar maior segurança jurĂ­dica, controle e rastreabilidade em casos sensĂ­veis.

“Colocar essa lĂłgica dentro da caderneta da gestante normaliza, no material de prĂ©-natal, uma polĂ­tica que deveria ser excepcionalĂ­ssima. O problema nĂŁo Ă© apenas jurĂ­dico, Ă© simbĂłlico, pois o documento que deveria proteger a maternidade passa a carregar uma sinalização estatal de facilitação do aborto”, finaliza.

Nova caderneta e custos operacionais

O obstetra Raphael Cùmara também questiona a necessidade de uma nova versão da caderneta porque, segundo ele, nada mudou tecnicamente desde a impressão do documento anterior, em 2022.

“E as milhĂ”es de cadernetas impressas em nossa gestĂŁo? Elas foram distribuĂ­das ou nĂŁo? NĂŁo temos essa informação. Houve um dinheiro destinado na Ă©poca para imprimirmos e nĂŁo sabemos o que fizeram das impressĂ”es de 2022”, diz ele ao citar que a caderneta anterior era extremamente tĂ©cnica.

A reportagem questionou o MinistĂ©rio da SaĂșde a respeito das informaçÔes sobre o aborto contidas na nova Caderneta da Gestante e sobre o destino dos exemplares impressos na gestĂŁo anterior.

A pasta se manifestou por meio de nota, mas nĂŁo respondeu ao questionamento sobre o aborto.

Com relação Ă  pergunta sobre as cadernetas antigas, o MinistĂ©rio da SaĂșde informou que “as versĂ”es anteriores que jĂĄ estĂŁo em uso permanecem vĂĄlidas durante o acompanhamento gestacional, de modo a garantir continuidade do cuidado”.

Confira a nota do MinistĂ©rio da SaĂșde na Ă­ntegra:

“A Caderneta Brasileira da Gestante estĂĄ direcionada a informaçÔes sobre prĂ©-natal, parto, puerpĂ©rio e os primeiros cuidados com o bebĂȘ, assim como orientaçÔes sobre o direito da mulher no acompanhamento durante o parto e licença-maternidade. Um avanço relevante Ă© o registro de qual maternidade deverĂĄ assistir a gestante, inclusive em casos de gestação de alto-risco, para reduzir a peregrinação na hora do parto.

Constam ainda informaçÔes complementares sobre situaçÔes que essas mulheres podem enfrentar, como saĂșde mental, luto materno e casos de violĂȘncia.

A nova Caderneta jĂĄ estĂĄ disponĂ­vel no Meu SUS Digital e sua distribuição fĂ­sica serĂĄ de forma gradual. As versĂ”es anteriores que jĂĄ estĂŁo em uso permanecem vĂĄlidas durante o acompanhamento gestacional, de modo a garantir continuidade do cuidado.“

Fonte: gazetadopovo

Sobre o autor

Redação

Estamos empenhados em estabelecer uma comunidade ativa e solidåria que possa impulsionar mudanças positivas na sociedade.