O MinistĂ©rio da SaĂșde lançou, em 12 de maio, uma nova versĂŁo da Caderneta da Gestante, que conta agora, alĂ©m da versĂŁo em papel, com uma possibilidade de acesso virtual por meio do aplicativo Meu SUS Digital. Ao apresentar o novo documento no Instagram, o ministro da SaĂșde, Alexandre Padilha, conta como a novidade tecnolĂłgica pode ser benĂ©fica caso a mulher entre em trabalho de parto e nĂŁo tenha a caderneta fĂsica em mĂŁos.Â
Mas, para alĂ©m disso, a nova Caderneta da Gestante traz ânovidadesâ bastante preocupantes, em relação ao seu conteĂșdo, do ponto de vista de alguns mĂ©dicos. Pela primeira vez, um documento voltado ao prĂ©-natal passa a incluir um capĂtulo com informaçÔes sobre aborto. A nova versĂŁo tambĂ©m substitui os termos âmulherâ e âmĂŁeâ por expressĂ”es como âpessoas que gestamâ e ainda cita questĂ”es sobre a violĂȘncia obstĂ©trica de maneira incorreta, no entender dos especialistas.
Em um vĂdeo publicado no Instagram, o obstetra Raphael CĂąmara, ex-secretĂĄrio de Atenção PrimĂĄria do MinistĂ©rio da SaĂșde, membro do Conselho Federal de Medicina (CFM) pelo estado do Rio de Janeiro e criador da versĂŁo anterior da Caderneta da Gestante, e o infectologista Francisco Cardoso, membro do CFM pelo estado de SĂŁo Paulo, fazem duras crĂticas ao documento que traz, no sĂ©timo capĂtulo, informaçÔes especĂficas sobre a âgestação nĂŁo planejadaâ e a âgestação nĂŁo desejadaâ.Â
Para CĂąmara, incluir orientaçÔes sobre aborto e em quais situaçÔes o procedimento pode ser realizado Ă© inadequado em um documento voltado justamente a mulheres que optaram pelo prĂ©-natal e que querem aquela criança. âNĂŁo faz sentido algum falar de aborto nesse documento! Isso preocupa bastante, porque começa-se a usar o prĂ©-natal como, por exemplo, um momento para se estimular o aborto. Isso seria muito perigosoâ, alerta.
Em concordĂąncia com a avaliação de CĂąmara, Francisco Cardoso aponta que, da maneira como estĂŁo colocadas as informaçÔes nesta nova versĂŁo da caderneta, o atual governo estĂĄ introduzindo uma agenda que relativiza a gestação jĂĄ em curso. âA caderneta de prĂ©-natal deveria ser um instrumento de proteção da gestante, da mĂŁe e do bebĂȘ, voltado ao acompanhamento da gravidez, Ă prevenção de riscos, ao parto seguro e ao cuidado materno-infantilâ.
Cardoso tambĂ©m critica o uso da expressĂŁo âdireitos reprodutivosâ nesse contexto. Segundo ele, o termo funciona como um eufemismo, jĂĄ que, no caso do aborto, trata-se do encerramento de uma gestação â ou seja, de um suposto direito Ă nĂŁo reprodução apĂłs o inĂcio da vida intrauterina.
âSe vocĂȘ se sente malâ e âpessoas que gestamâ
Tecnicamente falha, na opiniĂŁo de CĂąmara, a caderneta conta com apenas um obstetra entre os especialistas que assinam o documento. Ele aponta ainda que o conteĂșdo da caderneta traz expressĂ”es que deixam margem para interpretaçÔes equivocadas. JĂĄ para Cardoso, ela tambĂ©m apaga a centralidade feminina da maternidade.Â
HĂĄ um trecho, por exemplo, em que o documento abre brecha para o aborto fora das possibilidades nĂŁo punidas pela lei: âSe vocĂȘ se sente mal, constrangida ou percebe que nĂŁo desejava a relação sexual que resultou nesta gestação, procure a equipe da UBSâ. O aborto, a morte de uma criança no Ăștero, Ă© crime no Brasil, nĂŁo punido em casos de gestação decorrente de estupro, risco de vida da mĂŁe e quando o bebĂȘ sofre de anencefalia.
âO que Ă© se sentir mal? Essa expressĂŁo nĂŁo quer dizer nada e Ă© completamente genĂ©rica. Se depois de grĂĄvida jĂĄ hĂĄ algum tempo a mulher se sente mal e acha que aconteceu alguma coisa, ela pode procurar a UBS. E neste caso ela jĂĄ estĂĄ fazendo o prĂ©-natal e entende-se que quer o filho. Ă muito vaga essa expressĂŁo e perigosaâ, cita CĂąmara.Â
Ă importante lembrar que ainda estĂĄ suspensa, desde maio de 2024, a Resolução 2.378/2024, do CFM, que proĂbe matar bebĂȘs com mais de 22 semanas de gestação, por meio da assistolia fetal. Portanto, a indução da morte intrauterina de bebĂȘs entre 5 e 9 meses de gestação, por meio de fĂĄrmacos, Ă© possĂvel, caso a mĂŁe declare que foi estuprada (sem necessidade de prova), sem que o CFM possa sancionar mĂ©dicos que o fizerem. O texto da caderneta pode ser, entĂŁo, um passo a mais para sugerir essa opção Ă s mulheres.
AlĂ©m disso, hĂĄ em todo o documento o uso da expressĂŁo âpessoa que gestaâ, o que segundo Francisco Cardoso nada mais Ă© do que âtransformar uma experiĂȘncia humana, biolĂłgica, afetiva e social profundamente ligada Ă mulher em uma fĂłrmula burocrĂĄtica e despersonalizadaâ.
Para ele, a medicina deve acolher a todos com respeito, mas nĂŁo pode negar a realidade de que quem engravida, em regra biolĂłgica e social, Ă© a mulher. âQuando o Estado troca âmĂŁeâ por uma expressĂŁo abstrata, ele nĂŁo amplia humanidade, ele esvazia a maternidadeâ.Â
Aborto em caso de estupro
No subcapĂtulo destinado Ă s informaçÔes sobre âviolĂȘncia e gestaçãoâ, a caderneta explica que ânĂŁo Ă© obrigatĂłrio registrar boletim de ocorrĂȘncia para receber atendimento de saĂșdeâ, em casos de gestação que resulte de violĂȘncia sexual, porque âa interrupção da gravidez Ă© um direito legal se essa for a sua decisĂŁoâ.Â
A informação Ă© pautada na Portaria GM/MS nÂș 1.508, de 1 de setembro de 2005, que orienta que âas vĂtimas de violĂȘncia sexual podem solicitar a interrupção da gravidez no SUS sem necessidade de boletim de ocorrĂȘncia ou autorização judicialâ. Essa portaria foi revogada em 2020 (GM/MS nÂș 23/2020), durante a gestĂŁo de Raphael CĂąmara Ă frente da secretaria de SaĂșde PrimĂĄria do MinistĂ©rio da SaĂșde. Em 2023, no inĂcio do terceiro mandato de Lula, o MinistĂ©rio da SaĂșde voltou a permitir o aborto sem boletim de ocorrĂȘncia.
âNossa portaria [de 2020] obrigava a denunciar o estupro. Ao nĂŁo obrigar a denunciar o estupro, a mulher, mesmo apĂłs o aborto, pode continuar na situação de risco de violĂȘncia, o que acontece com crianças e adolescentes em casa. Pela lei penal, o estupro Ă© alvo de notificação obrigatĂłria e Ă© uma ação pĂșblica incondicionada Ă vontade da vĂtimaâ, explica CĂąmara.Â
Cardoso comenta tambĂ©m que a portaria de Lula de 2023 (GM/MS nÂș 13/2023) retirou barreiras procedimentais que buscavam dar maior segurança jurĂdica, controle e rastreabilidade em casos sensĂveis.
âColocar essa lĂłgica dentro da caderneta da gestante normaliza, no material de prĂ©-natal, uma polĂtica que deveria ser excepcionalĂssima. O problema nĂŁo Ă© apenas jurĂdico, Ă© simbĂłlico, pois o documento que deveria proteger a maternidade passa a carregar uma sinalização estatal de facilitação do abortoâ, finaliza.
Nova caderneta e custos operacionais
O obstetra Raphael Cùmara também questiona a necessidade de uma nova versão da caderneta porque, segundo ele, nada mudou tecnicamente desde a impressão do documento anterior, em 2022.
âE as milhĂ”es de cadernetas impressas em nossa gestĂŁo? Elas foram distribuĂdas ou nĂŁo? NĂŁo temos essa informação. Houve um dinheiro destinado na Ă©poca para imprimirmos e nĂŁo sabemos o que fizeram das impressĂ”es de 2022â, diz ele ao citar que a caderneta anterior era extremamente tĂ©cnica.
A reportagem questionou o MinistĂ©rio da SaĂșde a respeito das informaçÔes sobre o aborto contidas na nova Caderneta da Gestante e sobre o destino dos exemplares impressos na gestĂŁo anterior.
A pasta se manifestou por meio de nota, mas nĂŁo respondeu ao questionamento sobre o aborto.
Com relação Ă pergunta sobre as cadernetas antigas, o MinistĂ©rio da SaĂșde informou que âas versĂ”es anteriores que jĂĄ estĂŁo em uso permanecem vĂĄlidas durante o acompanhamento gestacional, de modo a garantir continuidade do cuidadoâ.
Confira a nota do MinistĂ©rio da SaĂșde na Ăntegra:
âA Caderneta Brasileira da Gestante estĂĄ direcionada a informaçÔes sobre prĂ©-natal, parto, puerpĂ©rio e os primeiros cuidados com o bebĂȘ, assim como orientaçÔes sobre o direito da mulher no acompanhamento durante o parto e licença-maternidade. Um avanço relevante Ă© o registro de qual maternidade deverĂĄ assistir a gestante, inclusive em casos de gestação de alto-risco, para reduzir a peregrinação na hora do parto.
Constam ainda informaçÔes complementares sobre situaçÔes que essas mulheres podem enfrentar, como saĂșde mental, luto materno e casos de violĂȘncia.
A nova Caderneta jĂĄ estĂĄ disponĂvel no Meu SUS Digital e sua distribuição fĂsica serĂĄ de forma gradual. As versĂ”es anteriores que jĂĄ estĂŁo em uso permanecem vĂĄlidas durante o acompanhamento gestacional, de modo a garantir continuidade do cuidado.â
Fonte: gazetadopovo





