Saúde

Pesquisa revela os principais fatores sociais e estruturais por trás da alta das cesarianas no Brasil

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2026

Uma pesquisa divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta segunda-feira (13) concluiu que a elevada incidência de cesariana no Brasil resulta de um conjunto de fatores psicológicos, sociais e estruturais, e não apenas da escolha individual das gestantes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que até 15% dos nascimentos ocorram por cesariana, procedimento essencial em situações de emergência, mas que envolve riscos por se tratar de uma cirurgia de grande porte. No Brasil, entretanto, mais de 60% dos partos acontecem por essa via, percentual que se aproxima de 90% na rede privada, colocando o país entre os que registram as maiores taxas do mundo.

O levantamento teve como base uma pesquisa anterior da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgada em 2014, que mostrou que sete em cada dez mulheres desejavam o parto normal no início da gestação. O novo estudo buscou compreender por que muitas acabam passando por uma cesariana.

Intitulada Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes, a pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, nas cidades de São Paulo (SP) e Belém (PA), abrangendo tanto os sistemas público quanto privado.

Aspectos econômicos, sociais e emocionais

Em São Paulo, 56,19% dos nascimentos registrados em 2024 ocorreram por cesariana, índice que chega a 71,05% nos hospitais privados. Em Belém, a taxa é de 69,28%, alcançando 80,41% na rede particular.

Segundo o Unicef, muitas mulheres associam o parto normal a uma recuperação mais rápida, enquanto o medo da dor frequentemente favorece a opção pela cesariana. As experiências compartilhadas por familiares e conhecidas também exercem forte influência na decisão.

De acordo com a especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, relatos de experiências traumáticas e de violência obstétrica ajudam a construir uma percepção negativa sobre o parto normal, mesmo quando essas situações decorrem de práticas inadequadas e evitáveis.

Entre usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), o parto normal costuma ser valorizado pela necessidade de recuperação mais rápida, especialmente quando há pouca rede de apoio para cuidar do bebê e da família. Já entre mulheres atendidas na rede privada, a escolha pelo parto normal costuma estar associada ao conhecimento de seus benefícios e à possibilidade de contratar equipes especializadas.

O estudo também identificou que algumas gestantes atendidas pelo SUS optam pela cesariana para realizar a laqueadura, indicando falhas na orientação sobre outros métodos contraceptivos de longa duração e sobre a possibilidade de realizar o procedimento após um parto normal.

Desafios na assistência ao parto

Outro ponto destacado pela pesquisa é o papel das equipes de saúde. Embora os profissionais continuem sendo a principal fonte de informação durante o pré-natal, muitas gestantes relatam receber orientações insuficientes sobre trabalho de parto, plano de parto e seus direitos.

No SUS, também foram apontadas dificuldades como adesão tardia ao pré-natal, acolhimento inadequado de adolescentes e a percepção de que a decisão final sobre o tipo de parto depende exclusivamente da equipe médica.

Na rede privada, as participantes demonstraram maior preparação para o parto, muitas vezes por iniciativa própria, chegando inclusive a trocar de profissional quando percebiam resistência ao parto vaginal.

Outro fator relevante é o acesso à analgesia. Enquanto esse recurso é amplamente disponível na rede privada, permanece restrito a poucos hospitais de referência no SUS, situação que, segundo o Unicef, compromete uma experiência de parto mais digna e respeitosa.

Recomendações do Unicef

Entre as principais recomendações estão a ampliação da oferta de analgesia e de métodos não farmacológicos para alívio da dor, fortalecimento do pré-natal com informações claras sobre trabalho de parto, direitos das gestantes e planejamento reprodutivo, além do incentivo à participação de acompanhantes e doulas.

O relatório também defende o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao parto humanizado, expansão dos Centros de Parto Normal, melhoria da formação dos profissionais de saúde e revisão de modelos que possam incentivar cesarianas sem indicação clínica.

Segundo o Unicef, promover uma experiência positiva de parto exige que a mulher seja respeitada, tenha acesso à informação de qualidade e participe das decisões relacionadas ao nascimento do bebê.

Fonte: cenariomt

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