Em 30 de junho de 2020, o Sul do Brasil viveu uma das madrugadas mais intensas da sua história recente.
Rajadas de vento a mais de 100 km/h deixaram 13 mortos, quase 3 mil desalojados e partes do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná sem energia elétrica. A explicação para o desastre estava em um fenômeno até então pouco comentado: os ciclones-bomba.
Trata-se de um fenômeno natural, tecnicamente chamado de bombogênese, caracterizado pelo encontro rápido entre massas de ar frio e quente. O ar fica preso em um grande vai-e-vem, em que ele esquenta e sobe, e logo depois esfria e desce. Esse movimento repetitivo, chamado de convecção, acaba gerando uma queda da pressão atmosférica no centro do sistema.
Quando essa queda de pressão acontece repentinamente, em menos de 24 horas, o ciclone ganha força muito rapidamente – daí o nome “bomba”.
E o apelido faz jus à sua fama. Vários municípios foram afetados por sua passagem naquele ano. Em cidades como Florianópolis e Balneário Camboriú, em Santa Catarina, o fenômeno deixou um rastro de destruição. Veja um exemplo no vídeo abaixo:
#STBP #LOGN
Cuidado ai @clubedopairico, um ciclone passando pelo Sul. Porto de Imbituba SC. pic.twitter.com/s791sb3RC9— Cicero (@CorollaZS) June 30, 2020
O estado catarinense foi o mais afetado, com 11 mortes confirmadas. O levantamento das Coordenadorias Regionais da Defesa Civil, no dia do evento, indicava 25 municípios atingidos no estado. No final, 184 municípios foram atingidos – o que corresponde a 62% das cidades catarinenses.
Na cidade de Chapecó, uma idosa de 78 anos morreu atingida por uma árvore. Já em Santo Amaro da Imperatriz, um pedestre foi atingido por fios de alta tensão após a queda de uma árvore e também não resistiu.
As madrugadas seguintes também não deram trégua e forçaram o Governo catarinense a decretar calamidade pública. No dia 1 julho, uma quarta-feira, os ventos chegaram a 90 km/h e 369.600 imóveis continuaram sem luz, mais de 24 horas após a primeira queda de energia.
Já no Rio Grande do Sul, o ciclone-bomba deixou 2.331 pessoas desabrigadas ou desalojadas em 23 cidades, atingidas por alagamentos e vendavais. Em Porto Alegre, as rajadas foram mais brandas, de cerca de 80 km/h, mas ainda assim derrubaram postes e árvores, bloquearam pelo menos 28 ruas e causaram danos em edificações.
No Paraná, o ciclone-bomba deixou rastro de destruição em pelo menos 84 dos 399 municípios do estado, segundo relatório da Defesa Civil, com ao menos uma morte registrada. Em Curitiba, ventos de quase 100 km/h derrubaram árvores e deixaram 193 mil imóveis sem energia.
No Sudeste, os efeitos foram menores. O ciclone apenas tangenciou o estado de São Paulo em sua passagem pela região.
Em 2026, a chegada de um novo ciclone-bomba preocupa, principalmente no Sul e em partes do Sudeste.
Seria este o novo “normal”?
Na América do Sul, os ciclones extratropicais costumam ter origem no oceano, perto do litoral da Argentina e do Uruguai. O episódio observado em 2020 teve início próximo ao Paraguai e seguiu pela costa sul brasileira, onde continuou até perder força e se dissipar no oceano.
A tendência, com o aquecimento global, é que os efeitos dos ciclones-bomba fiquem cada vez mais intensos. Isso acontece porque o aquecimento dos oceanos e da atmosfera tende a acentuar o contraste entre as massas de ar frio e quente que dão origem ao fenômeno.
O ciclone-bomba anterior ao de 2020, que ocorreu no ano excepcionalmente quente de 2016, teve uma passagem mais branda. Vale lembrar que, segundo um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), a humanidade tem vivido os dez anos mais quentes de sua história recente.
Fonte: abril





