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Parada LGBTQIA+ em MT: Memória e Resistência em Destaque

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2026

Mais do que celebrar o orgulho, a 23ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Mato Grosso transformou as ruas de Cuiabá em um espaço para lembrar quem abriu caminhos e reivindicou o direito de envelhecer com dignidade. Realizada no sábado (27), a manifestação reuniu cerca de 10 mil pessoas, segundo a organização, e teve como tema “Envelhecer com Orgulho: Democracia, Resistência e Memória”.

Organizada pela Associação da Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Mato Grosso, a edição deste ano propôs uma reflexão sobre os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ ao longo da vida e sobre a importância de políticas públicas que garantam saúde e dignidade. Desde 2021, a parada tem caráter estadual e reúne participantes de diferentes regiões de Mato Grosso, fortalecendo a articulação do movimento para além da capital.

Entre as pessoas que simbolizaram o tema da edição estava a professora Astrid Beatriz Bodstein. Cofundadora do Grupo Livremente, considerado o primeiro movimento político LGBTQIA+ organizado de Mato Grosso, criado em meados da década de 1990.

Ao caminhar pelas ruas da capital, ela também desafia uma estatística que ainda marca a realidade de travestis e mulheres transexuais no país. Já que segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), reconhecidos pelo Ministério dos Direitos Humanos, a expectativa de vida dessa população é de apenas 35 anos, menos da metade da média brasileira, atualmente em torno de 76 anos.

Ao olhar para décadas de ativismo, Astrid afirma que a maior satisfação está em perceber que sua trajetória ajudou a abrir caminhos para outras pessoas. Para ela, envelhecer também significa poder enxergar o impacto da luta coletiva ao longo dos anos.

“Quando eu olho para trás e vejo tudo o que caminhei, muitas vezes sozinha, Deus e eu, tudo o que conquistei e tudo o que colaborei para minha comunidade, para minha espécie, eu sinto um misto de alegria e orgulho. Tenho a sensação de que não passei pela vida em brancas nuvens, que tive um papel”, disse Astris em entrevista ao Portal Primeira Página.

Ela conta que esse sentimento vai além das conquistas individuais. A professora diz que sua caminhada só faz sentido porque também alcançou outras pessoas da comunidade, direta ou indiretamente.

“Outras pessoas se beneficiaram, umas mais diretamente, outras indiretamente. Olho para trás com esse sentimento de dever cumprido e de ter efetivamente contribuído nessa batalha incessante por dignidade, respeito e pela expectativa de felicidade e realização das pessoas da minha espécie”, comenta.

Para Astrid, falar sobre envelhecimento durante a parada também é falar sobre pertencimento e sobre a continuidade da luta iniciada por gerações anteriores. Segundo ela, essa memória coletiva é o que fortalece o movimento.

“Gosto de usar a palavra ‘espécie’ porque ela me dá um sentimento de pertencimento. Hoje eu olho para trás com tranquilidade e digo: vim, vi e colaborei”, finalizou.

Jeep leva história das marchas lésbicas

Entre os símbolos que chamaram a atenção durante o percurso esteve um jeep decorado com balões coloridos e bandeiras dos movimentos lésbico e bissexual. O veículo foi alugado por três amigas e ativistas como uma forma de tornar visível a presença dessas mulheres dentro da parada.

A proposta foi inspirada em movimentos históricos que ocuparam as ruas em diferentes países para reivindicar visibilidade e direitos. Mais do que um elemento estético, o veículo representava uma escolha política.

Uma das integrantes do Jeep é a professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Bruna Irineu, que conta de onde veio a ideia.

“A ideia veio de uma tradição combativa inspirada em grupos de lésbicas e mulheres bissexuais como as Lesbian Avengers, que construíram as Dyke Marches, nos Estados Unidos, e ao ‘Go Dyke’. Tem o sentido de um grito de existência e de ocupação das ruas, e não de pedido de licença.”

A professora explica ainda que a iniciativa dialoga com uma história de enfrentamento construída por mulheres que recusaram a mudar seu jeito de ser e existir para serem aceitas na sociedade

“Essas marchas nasceram para dizer que mulheres lésbicas e bissexuais não precisam se tornar palatáveis, não precisam suavizar, feminilizar ou normatizar sua presença para caber no mundo”, defende.

Na avaliação dela, a escolha do jeep reforça justamente essa ruptura com símbolos tradicionalmente associados ao universo masculino, transformando o veículo uma ferramenta de afirmação e de busca pelo reconhecimento.

“O jeep entrou nessa lógica porque carrega uma imagem de força que a nossa sociedade nunca associou à feminilidade. A gente chegou nele enfeitadas com balões arco-íris, ocupando esse símbolo. É uma celebração da potência das mulheres lésbicas e bissexuais nas ruas, fazendo barulho, tomando espaço e gritando: a Parada é nossa também”, reivindica a professora.

O veículo chamou atenção dos participantes e virou um dos símbolos da Parada em 2026. – Vídeo: Marcos Salesse/ Primeira Página

Homenagens aos nomes históricos

A 23ª edição da Parada também homenageou lideranças históricas do movimento LGBTQIA+ em Mato Grosso. O ativista e educador Clóvis Arantes foi escolhido como Rei da Parada 2026. Fundador do Grupo Livre-Mente e um dos fundadores da ABGLT, ele é reconhecido nacionalmente pela atuação em defesa dos direitos humanos, da educação e da cidadania LGBTQIA+.

O jornalista Valdomiro Arruda foi homenageado como Padrinho da Parada. Ele é um dos pioneiros na construção da primeira Parada da Diversidade em Cuiabá e figura importante na luta pela visibilidade da população LGBTQIA+ no estado.

A Parada contou com apoio da Prefeitura de Cuiabá na organização, mobilidade, limpeza urbana e oferta de serviços públicos. A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob) coordenou o planejamento viário e o ordenamento do trânsito, enquanto a Ordem Pública acompanhou os licenciamentos e autorizações do evento.

A Limpurb reforçou os serviços de limpeza antes, durante e após a programação.

Fonte: primeirapagina

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