Com 307 anos, celebrados nesta quarta-feira (8), Cuiabá carrega na própria história a influência da comunidade sírio-libanesa, presente há mais de um século no comércio e na cultura da capital.
Ao longo de mais de um século, as histórias deles se entrelaçaram à história cuiabana, ajudando a moldar não apenas o comércio, mas também a identidade cultural da cidade, que hoje celebra mais de três séculos de existência marcada pela diversidade e pelo encontro de povos.
A chegada
A presença sírio-libanesa em Cuiabá está profundamente ligada à formação histórica do comércio local e ao próprio processo de urbanização da capital mato-grossense. Mais do que uma comunidade de imigrantes, sírios e libaneses constituíram uma rede econômica e social que, ao longo de décadas, ajudou a estruturar o centro da cidade e consolidar práticas comerciais que ainda hoje deixam marcas.
Essa trajetória é detalhada na pesquisa do historiador Gilbert Anderson Brandão, autor do livro ‘Sírios e Libaneses em Cuiabá: Imigração, Espacialização e Sociabilidade’. No estudo, ele demonstra como a presença desses imigrantes foi decisiva para transformar ruas centrais em polos comerciais dinâmicos e articulados.
Da imigração ao interior do Brasil
A imigração sírio-libanesa para o Brasil teve início por volta de 1860, intensificando-se após a viagem de Dom Pedro II ao Oriente Médio, em 1876. À época, tanto o Líbano quanto a Síria integravam o Império Otomano, o que fez com que esses imigrantes fossem identificados como “turcos” ao chegarem ao país.
As motivações para emigrar estavam ligadas às dificuldades econômicas e sociais na região de origem. Muitos partiam com a intenção de trabalhar temporariamente, acumular recursos e retornar — especialmente para cidades, na região do Vale do Beca ou Becaa, ou ainda Bekaa. No entanto, como aponta a pesquisa de Gilbert, o envio de remessas financeiras acabou incentivando novas migrações, criando um efeito em cadeia que consolidou comunidades no Brasil.
No caso de Cuiabá, o deslocamento até o interior era longo e complexo. Muitos imigrantes chegavam por Buenos Aires ou Montevidéu e seguiam viagem pelo Rio Paraguai até alcançar a capital mato-grossense, que funcionava como ponto final dessa rota.
Os ‘turcos’ e a construção do comércio cuiabano
De acordo com a pesquisa de Gilbert, já no censo de 1890 há registros da presença de imigrantes de origem árabe em Cuiabá. Famílias como os Jorge e os Nadaf estão entre as primeiras a se estabelecer na cidade.
Nas primeiras décadas do século XX, essa presença se torna mais significativa. Em 1920, os sírios e libaneses já representavam mais de 20% da população imigrante da capital. Nesse período, o comércio começa a se consolidar como principal atividade econômica do grupo.
Embora muitos fossem agricultores em seus países de origem, no Brasil encontraram no comércio uma forma acessível de inserção econômica. A prática da mascateação — venda ambulante de mercadorias — foi fundamental nesse processo, permitindo que circulassem por diferentes regiões, acumulassem capital e, posteriormente, abrissem lojas fixas.
As ruas 13 de Junho, 7 de Setembro, Cândido Mariano e a região da Prainha tornaram-se os principais eixos dessa ocupação comercial. Segundo o levantamento histórico, em 1920 já havia 18 estabelecimentos na Rua 13 de Junho, entre drogarias, casas de tecidos e gêneros alimentícios.
O crescimento foi contínuo e diversificado. Casas tradicionais passaram a vender não apenas tecidos, mas também roupas prontas, calçados e outros produtos — acompanhando mudanças no consumo urbano.
“Acompanhando a expansão do comércio na rua 13 de junho, encontramos Gabriel Haydammus & Abib Haydammus, Jorge Mutran, César Saddi, Antônio Abdalla Herani, Felipe Jorge & Filho, Nagib Badur, José Abdalla Herani, Hid & Irmão, todos vendendo fazendas, armarinhos e chapéus”, diz um trecho do livro.
Centro comercial e espaço de convivência
Mais do que um polo econômico, o Centro de Cuiabá tornou-se um espaço de sociabilidade para a comunidade sírio-libanesa. As lojas funcionavam também como locais de encontro, troca de informações e manutenção de vínculos culturais.
“A Rua 13 de Junho funcionava como um ponto de encontro. Ali, além das vendas, aconteciam conversas sobre o Líbano, trocas de informações entre os patrícios e fortalecimento dos laços comunitários”, afirma Gilbert.
Esse ambiente reforçava tanto a identidade do grupo quanto a integração com a sociedade cuiabana, já que o comércio era também um ponto de contato direto com a população local.
Infância no comércio e memória viva
O próprio Gilbert, que também assina Dahroug, vivenciou esse cotidiano. Filho e neto de comerciantes, ele cresceu no centro da cidade, acompanhando a movimentação intensa das lojas.
“Se faltava alguma peça numa loja e o cliente queria levar, eu atravessava o centro para ir em outra unidade buscar o que o consumidor queria”, contou ele
A fala revela não apenas a dinâmica do comércio, mas também a articulação entre diferentes estabelecimentos — muitas vezes pertencentes à mesma família — e o esforço para atender a clientela.
Trabalho, adaptação e pertencimento
A história de Feiz Fares, de 75 anos, também reflete esse processo. Ele chegou a Cuiabá ainda criança, em 1963, e foi rapidamente inserido no trabalho familiar.
“Cheguei em novembro de 1963… no outro dia meu pai já pediu para ir com o meu irmão na loja. Eu sentava na porta chamando os clientes… foi assim que fui aprendendo”.
A adaptação à língua portuguesa e à cultura local ocorreu de forma gradual, muitas vezes conciliando trabalho e estudo.
“Eu comecei a pedir para ir à escola… depois acabei formando o segundo grau”.
Feiz também destaca o papel da solidariedade entre os imigrantes no fortalecimento do comércio:
“Um ajudava o outro… juntava dinheiro para comprar mercadoria em São Paulo, vendia e depois pagava. Era tudo na confiança”.
Expansão, auge e transformação
Segundo a pesquisa de Gilbert, o auge do comércio sírio-libanês em Cuiabá ocorreu entre as décadas de 1970 e 1980. Nesse período, o centro era marcado por uma intensa atividade comercial, com forte presença de famílias libanesas.
“Na década de 1980, a Rua 13 de Junho era praticamente toda ocupada por comerciantes árabes”, lembra o historiador.
Esse cenário começou a mudar a partir dos anos 1990. A aposentadoria dos patriarcas, a ascensão educacional das novas gerações e a diversificação profissional contribuíram para o esvaziamento gradual da comunidade no comércio central.
“Os filhos seguiram outros caminhos… hoje são médicos, advogados, dentistas”.
Além disso, fatores como o surgimento de shopping centers e mudanças no comportamento do consumidor impactaram diretamente o comércio tradicional.
Tradição que resiste
A história da família Zaque ajuda a manter viva uma das tradições comerciais mais antigas de Cuiabá. À frente do Armazém Abraão, reaberto recentemente, Francisco Zaque dá continuidade a um legado que atravessa gerações.
Ele admite que não se recorda com exatidão da origem do avô, Abraão Zaque — se libanês ou sírio —, já que era criança quando ouviu as primeiras histórias da família. Ainda assim, uma memória permanece firme: a do armazém, que sempre foi o esteio familiar.
Patriarca, Abraão percorreu diferentes municípios de Mato Grosso, tentou diversas atividades — inclusive a mineração — até se fixar no comércio, onde consolidou o negócio que se tornaria referência ao longo dos anos.
A continuidade veio com o filho, Alberto Zaque, que herdou o armazém e, por décadas, manteve o comércio ativo no centro de Cuiabá. Mesmo com períodos de interrupção, o negócio resistiu e acompanhou as mudanças da cidade, sendo posteriormente transferido para a Rua 24 de Outubro, onde funciona até hoje.
Após a morte do pai, o armazém voltou a fechar as portas por um tempo. Foi então que Francisco, já aposentado do serviço público, decidiu retomar a atividade. Com o apoio do filho, Leonardo, ele reabriu o espaço, preservando não apenas o comércio, mas também a história da família.
Hoje, o chamado “bulixo” mantém uma clientela fiel, formada principalmente por moradores antigos, que buscam no local não apenas produtos, mas também lembranças de um tempo em que o Centro era o principal ponto de encontro da cidade.
Apesar da tradição, os desafios são evidentes. Muitos dos itens vendidos no passado já não são mais encontrados com facilidade, o que dificulta a reposição do estoque.
“Hoje não encontramos quase ninguém que faz peneira ou os objetos como antigamente, então mantemos o que temos”, afirma Francisco.
Entre permanências e mudanças, o Armazém Abraão segue vínculos vivos com esse passado comercial — sustentado agora por quem cresceu vendo o negócio de pé e decidiu não deixar essa história se perder.
Um legado incorporado à cidade
A presença sírio-libanesa em Cuiabá vai além do comércio e está incorporada ao dia a dia da cidade. Nomes de ruas, praças e instituições ajudam a contar essa história, mesmo que, muitas vezes, isso passe despercebido pela população.
Mesmo com a redução de comerciantes no Centro, o impacto deixado por esses imigrantes continua visível. A base do comércio cuiabano — que hoje reúne milhares de empresas e trabalhadores — foi construída, em grande parte, a partir do trabalho dessas famílias.
Essa herança também está espalhada pelo mapa da cidade. Estão em locais como a Rua Monte Líbano, a Travessa Tufik Afif, a Praça Rashid Jaudy, Museu do Rio Cuiabá, que leva o nome de Alfredo Scaff, e a Avenida República do Líbano, onde fica o Clube Monte Líbano, ponto de encontro e confraternização dos membros da comunidade.
Fonte: primeirapagina





