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A ascensão da vulgaridade e ostentação na música brasileira: O que está acontecendo?

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Faz décadas que canções de duplo sentido e com algum grau de concupiscência são populares na música brasileira. Mas elas costumavam dividir as paradas de sucesso com produções nacionais de maior qualidade. Em 1996, por exemplo, enquanto o É o Tchan atingia o ápice da fama, a música mais tocada foi Garota Nacional, do Skank.

Esses tempos se foram: hoje, a lista das músicas mais reproduzidas nas plataformas digitais é de arrepiar (de susto, não de emoção).

O que está acontecendo com a música brasileira?

Sexo, drogas e ostentação

As músicas mais populares do Brasil apelam aos instintos mais básicos do ser humano.

Em 30 de janeiro, a lista das mais tocadas no Spotify tinha três músicas com carimbo de conteúdo explícito. A maior parte das outras trazia letras pouco apropriadas para se ouvir em família.

A 1 do ranking, “Deja Vu”, é interpretada por Ana Castela e Luan Santana. O refrão diz:

Marca com outro um barzinho na sexta
Um motel no domingo
Mas aguenta os déjà vu comigo

A composição soa como música sacra perto do número 2 da lista: “Let’s Go 4”, gravada por DJ GBR, MC IG e elenco. A letra tem referências a droga intercaladas por palavrões, intercalados por ostentação, intercalada por referências vulgares a sexo casual.

Um dos poetas, MC Luki, descreve como pretende se relacionar com garotas ricas para cobrar uma dívida histórica:

Baccarat Rouge no perfume, as loira da PUC
Junta tudo pra vingar a escravidão

Em terceiro lugar, a lista do Spotify tem “POCPOC”, de Pedro Sampaio, que descreve uma relação sexual. E sim, o título da música é uma onomatopeia.

O sexto lugar ficou com “Macetando”, de Ivete Sangalo e Ludmilla, em que a palavra do título é repetida 41 vezes. A mistura de funk com axé descreve mulheres que chegam em uma festa dispostas a… macetar. A dupla canta:

Todas carinha de
Mas gostam da bagaceira

Ludmilla também aparece em sé lugar, agora com “Dia de Fluxo”. Dessa vez, o estilo é o funknejo — termo que, longe de se referir a uma fusão de James Brown com Tião Carreiro e Pardinho, se refere à mistura entre o funk carioca e o sertanejo universitário (neste caso, representado por Ana Castela). Diz a letra:

A cama arrumada já tá com as horas contadas
Porque hoje eu não volto sem ninguém aqui pra casa

O grande mérito da canção é conseguir encaixar a expressão “Dia de Fluxo” em quatro sílabas.

Poderia ser a lista de desejos de um estilista requintado: “Lacoste, Versace, Armani e Hugo”. Mas é um trecho da música “Loucura”, de Borges e companhia, em nono lugar. Mais armas, mais drogas e mais descrições da anatomia feminina em ritmo de rap.

A lista das dez mais também inclui “Tenho que me decidir”, do MC PH, com outra combinação de sexo, ostentação e drogas. Nela, o autor descreve os atributos físicos de uma jovem na qual ele está interessada. Ele também parece mandar um recado malcriado a alguém (talvez a professora de português).

Uh, nada pode me parar, eu te falei, sua p…
Hoje nós faz milhões, mas nunca faltou luta

As três outras músicas da lista do Spotify são menos problemáticas, mas dificilmente serão lembradas pelas próximas gerações.

“Me leva pra Casa”, de Lauana Prado, é uma gravação de Zezé di Camargo & Luciano, combinada com “Escrito nas Estrelas” de Tetê Espíndola.

“Barulho de Foguete”, de Cristiano e Zé Neto, ironiza:

Que pena que cês terminaram
Achei que ia durar pra sempre
Tô triste com um negócio desse
Escuta aí o barulho do foguete

“Fronteira”, de Ana Castela e Gustavo Miotto, tem a sua graça:

Cê tá cruzando a fronteira
Esquece não
Que mais um passo cê abre a porteira
Do coração
Vai dar namoro, vai ter igreja
Você e meu pai tomando cerveja

No saldo geral, entretanto, a pobreza musical e a falta de qualidade das letras se tornaram o padrão.

O cenário atual tem um paradoxo: nunca foi tão fácil produzir música, mas nunca a música consumida foi tão superficial.

Queda geral na qualidade

Alvaro Siviero, que já tocou em alguns dos principais palcos do mundo, não tem dúvidas de que a tendência é de empobrecimento.

“O estrago é real. Existe muita coisa com muita pobreza melódica. A letra pode até ser interessante comercialmente, mas o conjunto é muito fraco”, ele diz.

Siviero aponta que as músicas mais populares são rasas porque não buscam nada além de uma descontração momentânea, sem qualquer aspiração mais elevada. “As pessoas curtem porque descontrai, mas não leva a nenhum tipo de reflexão, de desembrutecimento ou de crescimento como pessoa”, diz ele.

“O ritmo faz o corpo dançar. A melodia e a harmonia fazem a alma racional humana dançar”, acrescenta Siviero. Para ele, a música brasileira tem se restringido à primeira parte.

“O ser humano se tornou imaturo, e desconhece até mesmo qual é a sua própria essência — que é a de pensar e fazer escolhas”, opina.

A ideia de que a simples demanda comercial devesse ditar os rumos da música aterrorizaria pensadores como Platão, que chegou a defender a censura estatal para impedir que os jovens fossem influenciados negativamente por certos ritmos.

Inspirado por Platão, o autor americano Allan Bloom lançou — ainda em 1987 — o clássico  “O declínio da cultura ocidental”. O livro estabelece uma relação entre o empobrecimento musical e o empobrecimento moral da juventude dos Estados Unidos.

Os algoritmos das redes sociais e de plataformas como o Spotify aprimoraram o problema. O ouvinte recebe exatamente aquilo de que já gosta, em um ciclo difícil de ser quebrado.

Proibidão já não é proibido

As mudanças na tecnologia também ajudam a explicar a queda na qualidade musical.

Primeiro, porque as novas ferramentas permitiram que pessoas sem formação musical se arriscassem como artistas.

Segundo, porque redes sociais como o Instagram e o TikTok valorizam conteúdos curtos e rasos. A dancinha de 15 segundos não exige letra rebuscada, harmonias tocantes ou complexidade instrumental.

Terceiro, porque a internet derrubou as barreiras tradicionais da música. A indústria fonográfica tem os seus pecados, mas ao menos servia como uma espécie de filtro. Para tocar no rádio e na TV, era preciso moderar o vocabulário e a agressividade. Por conta da classificação indicativa e da pressão de anunciantes, músicas mais explícitas praticamente não tinham espaço.

O “proibidão” era justamente o que não chegava ao ouvido do público pelos meios tradicionais. Mas a universalização da internet mudou as coisas. O proibidão não é mais proibido.

E alguns artistas exaltam abertamente o crime sem maiores consequências.

O rapper Oruam, filho do megatraficante Marcinho VP, gravou uma música de homenagem ao pai com MC Cabelinho, que por sua vez já fez uma parceria musical com Anitta. E o MC Poze do Rodo, que também faz menções simpáticas ao crime, gravou com o cantor de forró João Gomes, que já dividiu o palco com Vanessa da Mata.

Pesquisa mostra fenômeno global

O problema da queda da qualidade musical não se limita ao Brasil.

Analisando a estrutura da música contemporânea, pesquisadores espanhóis encontraram indícios de que as composições estão, de fato, se tornando mais pobres. São menos transições de tom, menos variação nos timbres e um volume cada vez maior. A música é “alta” o tempo todo, e não tem subidas e descidas como ocorria tradicionalmente. Não há lugar para nuances ou sutilezas.

Nas palavras dos autores: “Isso aponta para menos variedade nas transições de tons, para uma homogeneização consistente da paleta timbral e para dinâmicas de volume mais altas e, ao fim, potencialmente mais pobres.”

Em outro estudo, pesquisadores da Áustria constataram que, ao lado da música eletrônica, o hip hop é o estilo musical com a menor variedade de instrumentos. E é justamente este o estilo que ganhou mais espaço desde os anos 1980, ocupando o topo da preferência e destronando o rock’n roll.

Usando um modelo estatístico elaborado, o mesmo artigo demonstra que, conforme um novo estilo emerge, o nível de complexidade aumenta temporariamente e cai em seguida, conforme a popularidade aumenta. A tendência geral é de simplificação. “As vendas de álbuns de um estilo (…) normalmente aumentam com a diminuição da complexidade”, afirmam eles, que explicam: “Isto pode ser interpretado como a música se tornando cada vez mais estereotipada em termos de instrumentação sob números crescentes de vendas devido à tendência de popularizar estilos musicais com baixa variedade e músicos com habilidades semelhantes”.

No Brasil, o sertanejo universitário e o rap (com o seu derivado, o trap) ocupam todos os postos da lista de mais escutadas. Alguns desses números podem ter sido inflados artificialmente por fã-clubes. Mas o ranking da Billboard, que também considera as vendas de discos físicos, tem resultados parecidos.

Baixa procura nas universidades

Música de qualidade não é de música erudita: a bossa nova, reconhecida no mundo inteiro pela sofisticação, pertence à prateleira da música popular.

Mas a formação de músicos clássicos é um bom indicador da tendência geral da produção musical brasileira. E as notícias não são boas.

Professor do curso, Ebnezer Nogueira diz que o interesse pelos instrumentos musicais, especialmente os considerados clássicos, tem decaído em uma era na qual é possível construir uma orquestra no computador. “A procura é quase inexistente”, ele afirma.

No vestibular de 2023, na Universidade de Brasília, o curso noturno de licenciatura em Música teve oito inscritos para 13 vagas.

Dentre os que decidem estudar música na universidade, boa parte não se dispõe a um instrumento. “O que existe é falar sobre música, e não o fazer musical”, ele diz.

Para Nogueira, o país tem um longo caminho adiante para romper a tendência de empobrecimento musical. “O Brasil todo tem menos orquestras do que Nova York”, compara.

Alvaro Siviero acredita que, embora leve tempo, o modelo de educação correto pode desviar o Brasil da trajetória atual. “A música popular não tem que ser algo de baixa qualidade, pobre, imoral ou criminal. Basta a gente trabalhar o nível educacional pessoas e conscientizá-las sobre o que elas realmente estão consumindo”.

Fonte: gazetadopovo

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