Entre a dor e a esperança de se curar, ela escolheu transformar vidas! Por quase duas décadas, Sandra Helena Pinheiro, de 61 anos, enfrentou duas batalhas contra o câncer, entre medos e tratamentos exaustivos.
Mas, nesse caminho ela encontrou dois propósitos: ajudar o marido a construir seu empreendimento em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, e mais tarde auxiliar na fundação de uma casa de apoio que hoje acolhe pessoas que também passam por tratamento oncológico.
Inesperadamente, um câncer
Em entrevista ao Primeira Página, Sandra contou que no final de 2010 recebeu o diagnóstico de câncer de mama e, no ano seguinte, iniciou o tratamento.
O diagnóstico foi um susto. Ela vivia sem sintomas aparentes e só descobriu a doença durante um exame de mamografia de rotina, inesperadamente, aos 46 anos.
Mais de um ano se passou em meio a radioterapias diárias, quimioterapias e cirurgia. A perda dos cabelos, segundo ela, foi o menor dos problemas nessa caminhada!
Naquela época, ela já tinha um histórico de batalha pela vida: enfrentou a depressão antes e, após o parto do filho, até então com 11 anos.
Agora, uma vida completamente diferente, em meio a mais uma dificuldade, iniciava para Sandra. Mas, quem foi que disse que ela se deixaria abater?
“Olhei no espelho e disse: quer saber? vou dar um susto nesse câncer! Eu estava decidida a enfrentar, porque tem uma coisa no câncer: ele não fica na sua vida, ele é um recomeço, uma nova história que você tem para contar, você revê vários pontos, onde você deve melhorar, o que você fez, você perdoa, é perdoado, vê tudo que ficou para traz… ai você tem que seguir” contou.
Nesse caminho, ela percebeu que precisava focar em outro ponto da sua vida para encontrar forças, ter um propósito para seguir! Então, se dedicou completamente ao trabalho como gerente administrativa, cargo que ocupava há cerca de 30 anos, o único que teve na vida.
Meses depois, Sandra viu “um pedaço de si ir embora”, quando a chefe, Carmem Lúcia – que também enfrentava um câncer, de pulmão –, não resistiu à doença.
Como continuar seguindo?
Os altos e baixos continuavam presentes no caminho, quando um outro ponto inesperado surge: o marido, Odilson Gonçalo de Arruda, decidiu abrir uma peixaria na cidade, em 2012, quando a esposa já estava quase encerrando o tratamento.
Acontece que Sandra não queria deixar a carreira de gerente administrativa e, por outro lado, não conseguia permanecer naquele emprego após a morte da chefe. Então, ela decidiu “se jogar” no empreendimento do marido.
Após cerca de 13 anos, a Peixaria Bom Gosto, localizada no centro de Várzea Grande, continua sendo um dos focos de Sandra para viver bem e partilhar momentos com o marido, que nunca saiu do lado dela em meio à luta contra o câncer.
Um novo câncer e o amparo a quem também luta
Mas, se engana quem pensou que a história se encerraria na peixaria do casal. Em 2016, Sandra estava na fase final dos medicamentos e passou os próximos cinco anos sem nenhum sintoma, livre do câncer!
Até que em 2020, ela precisou refazer alguns exames de rotina. O resultado, até então, não mostrou nada incomum e gerou alívio.
Ela voltou para casa pensando que continuaria livre, até que uma grande amiga, Janaína Santana, que também enfrentava um câncer mama, decidiu pegar o exame de Sandra e pedir análise de sua própria médica, para excluir de vez qualquer desconfiança sobre a doença.
A especialista, ao contrário do médico anterior, pediu uma segunda biópsia à Sandra e, no resultado, o aperto no coração: um novo câncer, maior que o primeiro, em outra mama.
Novamente uma batalha, mas, esse novo câncer não precisava de quimioterapia, o que amenizou um pouco os problemas de saúde da paciente. Ela passou por outra cirurgia e continuou com radioterapias, em meio à pandemia de covid-19.
Três anos depois, em 2023, uma outra parte de Sandra ficou pelo caminho, após perder o enteado, Kenio Carlos Orben, que foi morto. “Desde um aninho ele entrou na minha vida, isso foi difícil para mim”, contou.
Hoje, Sandra que possui delimitações de movimento, devido aos resquícios do tratamento. Mas, em nenhum momento, perdeu a fé! “Deus olhou muito por mim nesse momento”, disse ao Primeira Página.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Sandra conta um pouco de sua trajetória; veja:
Então, surge o outro ponto da vida dela, que a ajudaria atravessar aquela caminhada contra o câncer: a amiga Janaína deu a ideia de montar uma associação para acolher outras pessoas que enfrentavam a doença e chamou Sandra para auxiliá-la.
A ideia delas não ficou no papel! Sandra ajudou Janaína a fundar a Associação de Apoio aos Pacientes Oncológicos de Cuiabá (AAPOC), chegando a atuar como presidente durante os primeiros meses até que, mais tarde, a presidência passou a ser responsabilidade de Janaína – que permanece no cargo atualmente.
Agora, Sandra atua como uma das diretoras da associação, que conta com doações para doar a quem precisa, auxiliando no tratamento e possibilitando conforto a cerca de 350 assistidos.
“Lá é minha vida, acolhendo os pacientes… eu lembro que aquilo ali me deu um acalento, porque você estar passando por aquela situação e dar uma palavra pra quem está ali precisando… Já vi pessoas que tinham câncer não terem onde ficar em Cuiabá, mas a gente acolhe ali, a gente vai dar toda assistência… Isso não tem preço!”, afirma Sandra emocionada.
Apesar de todas as dificuldades, o olhar de Sandra encontrou esperança pelo caminho e a fez capaz de cuidar não só de si, mas de outros a sua volta.
Agora, ela está na fase final do tratamento, tomando comprimidos à base de hormônio. Otimismo, fé e as imprescindíveis presenças do marido, da família e de amigos foram como “mãos dadas” nesse processo.
“Para você que está enfrentando, passando por tratamento oncológico, que a gente nunca deixe de fazer o autoexame, que nunca deixe de fazer exames de rotina, coloque Deus em primeiro lugar na sua vida! Não é todos os dias que estamos 100%, mas no dia que você tem que levantar da cama, você tem que ver que tem motivos para seguir. Cuide-se, o câncer não é o fim”, finaliza Sandra.
Fonte: primeirapagina