Economia

Importância de um Estado eficiente para a Classe C

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2026

A classe C, que representa 53% da população brasileira, não apresenta uma posição única sobre o tamanho ideal do Estado. Segundo o pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, a principal expectativa desse grupo é que o poder público consiga funcionar de maneira eficiente.

Meirelles lançou nesta semana o livro “Brasil da maioria: 25 anos da classe C”, no qual aborda as transformações econômicas e sociais vividas por essa parcela da população. Para ele, a classe C deseja serviços públicos de melhor qualidade e com menos burocracia.

O pesquisador destaca que esse grupo reúne a maioria dos consumidores, trabalhadores urbanos, pequenos empreendedores, usuários de serviços públicos e eleitores do país. Após avanços registrados nas últimas décadas, a desaceleração econômica teria aumentado a percepção de que a melhoria das condições de vida perdeu ritmo.

Segundo Meirelles, famílias com renda média de cerca de R$ 3,5 mil, considerando os ganhos de todos os moradores da residência, integram a classe C. Ele avalia que esse segmento ganhou importância nas decisões econômicas e políticas brasileiras ao longo dos últimos 25 anos.

O pesquisador relaciona parte dessa transformação ao Plano Real, em 1994. Antes da estabilização da moeda, afirma, o planejamento financeiro de longo prazo era limitado. Com a mudança econômica, os brasileiros passaram a ampliar seus planos e estabelecer objetivos para o futuro.

Posteriormente, os processos de distribuição de renda contribuíram para um ciclo de expansão do consumo. Segundo Meirelles, o aumento da renda de famílias da classe D estimulou compras em pequenos negócios, muitos deles administrados por integrantes da classe C. A maior demanda também impulsionou a indústria e a contratação de trabalhadores.

Esse processo ampliou os objetivos da classe C. No consumo, um dos símbolos citados pelo pesquisador foi a possibilidade de viajar de avião pela primeira vez. Na educação, ganhou força o desejo de ter o primeiro universitário da família. Esse movimento contribuiu para o crescimento do segmento até aproximadamente 2010 e 2011.

Com a desaceleração da economia, porém, a percepção mudou. Meirelles compara o período a uma redução brusca de velocidade: uma classe que vinha avançando rapidamente em poder de compra e qualidade de vida passou a perceber um ritmo menor de melhoria.

A partir de 2013, segundo o pesquisador, parte dos sonhos começou a ser frustrada. A redução do crescimento econômico afetou o avanço do poder de compra e também gerou mudanças na percepção sobre o mercado de trabalho.

Para Meirelles, a relação da classe C com o trabalho também passou por transformação. Ser dona do próprio tempo passou a ser associado à ideia de dignidade, o que ajuda a explicar a busca por atividades realizadas por meio de aplicativos e pelo empreendedorismo.

Ele afirma ainda que as mudanças trabalhistas e previdenciárias contribuíram para alterar a percepção sobre as garantias associadas ao emprego formal e à CLT. Isso não significa, segundo o pesquisador, que as pessoas deixaram de desejar proteção social, mas que passaram a enxergar de outra maneira as garantias oferecidas pelo emprego tradicional.

Meirelles também aborda a vulnerabilidade à desinformação. Para ele, o Brasil como um todo está sujeito ao problema, com participação dos algoritmos, mas as decisões tomadas pela classe C precisam ser analisadas considerando sua realidade cotidiana.

Um exemplo citado pelo pesquisador é o de uma mulher que trabalhava em um restaurante, enfrentava longos deslocamentos e recebia dois salários mínimos. Durante a pandemia, com o fechamento do estabelecimento, ela passou a utilizar seus conhecimentos de confeitaria para produzir bolos em casa.

A atividade permitiu que ela atravessasse aquele período e, posteriormente, a fez valorizar a autonomia proporcionada pelo trabalho em casa. Segundo Meirelles, essa experiência ajuda a explicar por que parte da classe C passou a priorizar maior controle sobre o próprio tempo.

No campo político, o pesquisador avalia que a classe C está cansada da política tradicional e procura alternativas, ainda que nem sempre saiba exatamente qual modelo deseja.

Sobre o papel do poder público, a avaliação de Meirelles é direta: a classe C quer um Estado que funcione. Enquanto os campos políticos discutem se o Estado deve ser maior ou menor, esse grupo estaria mais interessado na entrega efetiva de serviços públicos de qualidade.

A expectativa inclui menos burocracia e uma relação mais próxima entre governo e cidadão. Para Meirelles, a experiência cotidiana com aplicativos e compras pela internet também elevou a exigência por avaliação e prestação de contas. Nesse cenário, a população espera que os serviços públicos tenham eficiência semelhante e que exista maior conexão entre governantes e governados.

Fonte: cenariomt

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