A rotina de trabalho na escala 6×1, comum em setores como o comércio, serviços e a indústria, tem sido apontada por especialistas ouvidos pelo Primeira Página como um dos principais impasses para a saúde mental dos trabalhadores. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), os afastamentos por transtornos mentais cresceram de forma acentuada nos últimos anos. De outro lado, as empresas já preveem impactos bilionários com a mudança.
Na prática, essa realidade já é sentida por trabalhadores em Cuiabá. A produtora Camila Dalmolin Santos, de 30 anos, que atua em escala 6×1, relata que a rotina limita até atividades básicas do dia a dia. “A gente gasta mais tempo trabalhando do que dentro da própria casa. E quando chega em casa, continua trabalhando”, afirma.
A gente gasta mais tempo trabalhando do que dentro da própria casa.
Camila Dalmolin
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Segundo ela, o pouco tempo livre acaba sendo consumido por cansaço e tarefas acumuladas. “São poucos os momentos de descanso. Muitas vezes, o que dá pra fazer é jantar e dormir pra acordar no outro dia e trabalhar de novo”, diz.
Camila conta que já vivenciou uma rotina mais flexível, próxima da escala 4×3, e percebeu impactos diretos na saúde mental. “O impacto foi grandioso. Eu consegui ter equilíbrio entre trabalho e vida pessoal”, relata.
Em 2023 foram 219.850 benefícios concedidos, já em 2024 o número saltou para 367.909, chegando a mais de 390 mil até novembro de 2025.
Com aumento de mais de 70% em relação a 2023, especialistas apontam que a rotina de seis dias de trabalho e um de descanso tem acentuado diagnósticos de Burnout, estresse e ansiedade.
Jornada extensa e adoecimento
Essa exaustão leva a um estresse extremo e crônico, que pode desencadear depressão e ansiedade.
Jéssica Costa, psicóloga
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Para a psicóloga clínica Jéssica Costa, a relação entre a jornada 6×1 e o adoecimento mental é direta. Ela afirma que o modelo contribui para um estado contínuo de exaustão, que pode evoluir para quadros mais graves.
“A gente pode sim atribuir a carga de trabalho ao aumento dos afastamentos. Essas pessoas deixam de conviver em sociedade, estão sempre exaustas, e essa exaustão leva a um estresse extremo e crônico, que pode desencadear depressão e ansiedade”, explica a especialista em entrevista ao Portal Primeira Página.
Além disso, segundo a psicóloga, o impacto é ainda mais intenso entre trabalhadores de baixa renda. “Quem ganha menos é mais prejudicado, porque muitas vezes não consegue se manter com um único emprego. Então, o pouco tempo livre que teria acaba sendo vendido para outro trabalho”, complementa Jéssica.
Essa dinâmica cria um ciclo de desgaste constante: pouco descanso, múltiplas jornadas e ausência de tempo para lazer e convivência social.
Principais problemas identificados
Entre os quadros mais comuns associados à rotina exaustiva estão ansiedade, depressão e síndrome de burnout. O psicólogo organizacional Pedro Cruz destaca que os sinais costumam aparecer tanto no comportamento quanto no desempenho profissional.
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“A pessoa fica mais fechada, perde a qualidade das relações interpessoais e apresenta queda de desempenho. Isso está ligado não só à carga horária, mas também à pressão por resultados e ao acúmulo de tarefas”, afirma o especialista na área de atração e seleção.
Jéssica complementa que o adoecimento frequentemente vem acompanhado de sintomas físicos, como dores de cabeça, problemas gastrointestinais, respiratórios e até cardiológicos.
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Queixas mais frequentes
A principal reclamação entre trabalhadores submetidos à escala 6×1 é a falta de tempo. Tempo para descansar, para conviver com a família e até para cuidar de si, já que boa parte do dia não trabalhado é utilizado para outros afazeres que inclusive podem envolver o trabalho.
“Quando alguém trabalha seis por um, ele só tem um dia para descanso e existem várias formas de descansar, seja dormindo, convivendo ou tendo lazer. Um único dia não dá conta disso tudo”, afirma Jéssica.
“Tem uma redução de transtornos psicológicos, da depressão, ansiedade, mas também, a gente pode, futuramente, reduzir problemas intrafamiliares, como, por exemplo, o divórcio, o estresse entre pares e entre as pessoas que moram na mesma residência. Inclusive, diminui-se a violência”
Psicóloga clínica
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A situação é ainda mais complexa para as mulheres. Segundo a psicóloga, elas enfrentam uma sobrecarga que vai além do trabalho formal, acumulando também responsabilidades domésticas.
“Muitas vivem uma dupla ou até tripla jornada, acumulando o trabalho remunerado com o cuidado da casa, dos filhos e até de familiares idosos. É um trabalho interminável, que tem levado muitas mulheres ao adoecimento”, complementa a psicóloga.
Mudança de rotina pode trazer benefícios
Para os especialistas, uma eventual mudança na jornada, como a adoção de escalas menos exaustivas, pode trazer ganhos significativos tanto para trabalhadores quanto para empresas.
- Ansiedade Tensão constante, preocupação excessiva e dificuldade de relaxar.
- Depressão Desânimo persistente, perda de interesse e queda na qualidade de vida.
- Burnout Esgotamento extremo ligado ao trabalho, com exaustão física e mental.
- Estresse crônico Sobrecarga contínua que afeta o corpo e a mente ao longo do tempo.
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Para Jéssica, um dos impactos imediatos seria a redução do estresse crônico. Segundo ela, isso pode levar à diminuição de casos de ansiedade, depressão e burnout, além de melhorar relações familiares e até reduzir conflitos domésticos.
“Tem uma redução de transtornos psicológicos, da depressão, ansiedade, mas também, é, a gente pode vir futuramente a reduzir problemas intrafamiliares, como, por exemplo, o divórcio, o estresse entre entre pares e entre as pessoas que moram na mesma residência. Inclusive diminui-se a violência”, avalia a psicóloga clínica.
Pedro Cruz acrescenta que há reflexos diretos na produtividade. “Quando a pessoa está bem, com qualidade de vida, isso aparece no trabalho. Diferente de quando ela está adoecida”, complementa.
Empresas e novas exigências legais
A discussão também tem avançado dentro das organizações. Segundo Pedro, empresas têm investido mais em estratégias de cuidado com a saúde mental, inclusive por exigências legais.
A Portaria nº 1.419/2024 atualizou a NR-01 e reforçou a obrigatoriedade de considerar riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo fatores como estresse, sobrecarga e organização da jornada. Veja o trecho da portaria:
Especialista no processo de recrutamento e seleção, o psicólogo aponta ainda que já começa a sentir mudanças culturais no mercado, em especial entre as novas gerações. A busca por oportunidades que permitam ter mais tempo de descanso tem pesado na decisão dos trabalhadores.
“Hoje há dificuldade de recrutamento em vagas com escala 6×1, porque muitos trabalhadores, especialmente os mais jovens, buscam melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, afirma Pedro.
Sindicatos defendem redução
A defesa pela redução da jornada de trabalho também é uma pauta histórica de entidades sindicais. Em Mato Grosso, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Henrique Lopes, afirma que o fim da escala 6×1 seria um passo importante para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Segundo ele, a proposta em debate no país, que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, já representa um avanço, mas o ideal defendido pela entidade é a carga de 36 horas semanais, sem redução salarial.
“O trabalhador passaria a ter dois dias de descanso. Isso permite cuidar mais da saúde, da família e até da espiritualidade”, afirma.
De acordo com Lopes, a redução da jornada também pode impactar positivamente na produtividade e diminuir o adoecimento relacionado ao trabalho. Ele cita experiências internacionais que apontam melhora no desempenho dos trabalhadores e redução de doenças ocupacionais.
O dirigente reconhece que há resistência de alguns setores, mas avalia que esse cenário é comum em mudanças trabalhistas. “Todas as conquistas dos trabalhadores enfrentaram resistência antes de serem implementadas”, diz.
Para ele, a mobilização social será decisiva para que o tema avance no Congresso Nacional.
A proposta em debate no Congresso prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte de salário. Sindicatos defendem um avanço ainda maior: 36 horas por semana, também sem redução salarial. A mudança busca garantir mais tempo de descanso, convívio familiar e cuidado com a saúde mental dos trabalhadores.
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Debate avança no Congresso
No campo político, a discussão ganhou força nos últimos meses. O governo do presidente Lula enviou ao Congresso um projeto de lei em regime de urgência para extinguir a escala 6×1 e reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial.
O formato de urgência obriga a votação em até 45 dias, sob pena de travar a pauta legislativa. Paralelamente, a proposta também é discutida a partir de iniciativas parlamentares, como a da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que trata do tema na Câmara dos Deputados.
Fonte: primeirapagina





