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Impacto da Criminalidade no Aumento do Custo de Vida: Entenda as ConsequĂȘncias

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Desde que consigo me lembrar, mesmo antes de “acessibilidade financeira” se tornar um tema proeminente no discurso pĂșblico americano, polĂ­ticos e comentaristas acompanhavam os preços de casas, gasolina, leite, ovos e outros itens bĂĄsicos de supermercado. A acessibilidade financeira, ou a falta dela, hĂĄ muito tempo Ă© o objetivo explĂ­cito ou a principal reclamação de formuladores de polĂ­ticas que debatem habitação, finanças pĂșblicas e regulação econĂŽmica. Nessas discussĂ”es, cada lado quer demonstrar que suas propostas tornarĂŁo a vida dos cidadĂŁos melhor — ou seja, mais acessĂ­vel. O foco geralmente recai sobre questĂ”es como oferta de moradias, alĂ­quotas de impostos e gastos com bem-estar social.

A ascensĂŁo de Zohran Mamdani Ă  prefeitura de Nova York Ă© um exemplo perfeito. Sua campanha enfatizou incansavelmente a acessibilidade financeira. De congelar aluguĂ©is e oferecer ĂŽnibus gratuitos a construir mais moradias pĂșblicas e lançar supermercados sem fins lucrativos administrados pelo governo, a maioria das mensagens de Mamdani girava em torno da redução de custos.

Ao mesmo tempo, Mamdani adotou posiçÔes preocupantes sobre questĂ”es de segurança pĂșblica — abolir o banco de dados de gangues do NYPD (Departamento de PolĂ­cia de Nova York), recusar-se a contratar mais policiais e impor uma moratĂłria na remoção de acampamentos de sem-teto. Muitos preveem que, se implementadas, essas iniciativas erodiriam a segurança e a ordem pĂșblicas. Na medida em que isso se provar correto, a agenda de segurança pĂșblica de Mamdani tambĂ©m minaria seu compromisso declarado com a acessibilidade financeira.

Frequentemente, estĂĄ ausente do debate sobre acessibilidade financeira a compreensĂŁo de como a segurança pĂșblica e a ordem moldam o bem-estar econĂŽmico. Os formuladores de polĂ­ticas raramente fazem essa conexĂŁo, mas acessibilidade financeira e segurança estĂŁo intimamente interligadas. Quando os lĂ­deres falham na segurança pĂșblica, as perspectivas econĂŽmicas de seus constituintes decaem junto.

Controlar o crime e a desordem muitas vezes é algo tratado como um bem em si mesmo, e com razão. O crime afeta uma série de outras åreas: valores imobiliårios, mobilidade econÎmica, investimento privado e, claro, os custos sociais diretos da vitimização. A falha em controlå-lo prejudica as finanças daqueles que vivem nos bairros mais afetados. Esse ponto é ainda mais importante porque muitas reformas equivocadas no sistema de justiça criminal são justificadas, em parte, por razÔes fiscais. 

O encarceramento é caro, dizem os reformistas, então deveríamos reduzi-lo pelo bem dos contribuintes. Mas afrouxar os controles sociais exercidos por departamentos de polícia e prisÔes tem seu próprio preço: o aumento do crime impÔe custos econÎmicos massivos.

Muitos americanos tendem a ver os custos de um crime como algo que recai principalmente sobre a vĂ­tima. Poucos levan em conta seus efeitos mais amplos na sociedade. Esse Ă© um erro crucial.

Pense em um crime como uma pedra jogada em um lago. Ela quebra a superfĂ­cie em um Ășnico ponto, mas as ondulaçÔes se estendem muito alĂ©m. Alguns crimes sĂŁo meras pedrinhas nessa analogia; outros caem como blocos de concreto, enviando ondas maiores que se propagam muito mais longe. Uma vez que se entende isso, fica mais claro por que Tom tem interesse em impedir que Dick assassine Harry, mesmo que Harry seja um completo estranho para Tom. Os efeitos negativos associados ao assassinato de Harry se estendem a Tom, quer ele perceba ou nĂŁo. O impacto social de um Ășnico ato de vitimização violenta pode parecer pequeno; mas, no agregado e ao longo do tempo, atĂ© mesmo aqueles que nunca sĂŁo pessoalmente vitimados acabarĂŁo pagando um preço.

Embora nĂŁo seja fĂĄcil capturar todos os efeitos em cascata do crime, uma literatura robusta de ciĂȘncias sociais oferece estimativas bem fundamentadas dos custos sociais de pelo menos alguns delitos — e os nĂșmeros sĂŁo alarmantes. Em um estudo de 2010 publicado na revista Drug and Alcohol Dependence, acadĂȘmicos da Universidade de Miami e da Universidade do Colorado em Denver forneceram estimativas atualizadas e especĂ­ficas por crime dos custos sociais associados a delitos que vĂŁo de assassinato a furto. Os autores observam que “mais de 23 milhĂ”es de delitos criminais foram cometidos em 2007, resultando em aproximadamente US$ 15 bilhĂ”es em perdas econĂŽmicas para as vĂ­timas e US$ 179 bilhĂ”es em gastos governamentais [todos em dĂłlares de 2008] com proteção policial, atividades judiciais e legais, e encarceramento”. Em dĂłlares de hoje, isso totaliza cerca de US$ 290 bilhĂ”es — mais do que o Departamento de Educação dos EUA gastou em 2024. Para contextualizar ainda mais, a Administração Nacional OceĂąnica e AtmosfĂ©rica estimou o custo anual total de desastres climĂĄticos e meteorolĂłgicos principais (aqueles que excedem US$ 1 bilhĂŁo) entre 2020 e 2024 em pouco menos de US$ 150 bilhĂ”es.

Ao derivar suas estimativas, os autores do estudo de 2010 dividiram os custos sociais do crime em quatro categorias:

  • Custos Ă s vĂ­timas (perdas de propriedade, contas mĂ©dicas e renda perdida)
  • Custos do sistema de justiça criminal (policiamento, processos judiciais e sistema prisional)
  • Custos da carreira criminal (produtividade perdida associada Ă  escolha do infrator de cometer crimes em vez de trabalhar legalmente)
  • Custos intangĂ­veis (danos indiretos Ă s vĂ­timas, como “dor e sofrimento, diminuição da qualidade de vida e angĂșstia psicolĂłgica”)

Eles entĂŁo forneceram estimativas para 13 categorias de delitos. Por exemplo, os custos diretos ou tangĂ­veis de um Ășnico assassinato excediam US$ 1,2 milhĂŁo. O custo total de um assassinato para a sociedade — incluindo danos intangĂ­veis e de carreira criminal — chegava a pouco menos de US$ 9 milhĂ”es. O assassinato, por razĂ”es Ăłbvias, Ă© um ponto fora da curva. Mas outros crimes estĂŁo longe de ser baratos e ocorrem com mais frequĂȘncia: o custo social de um estupro excede US$ 240 mil; uma lesĂŁo corporal grave, pouco mais de US$ 107 mil; e um roubo, pouco mais de US$ 42 mil.

O crime e a desordem podem impor outros danos sĂ©rios, especialmente nas ĂĄreas mais perigosas das cidades americanas. Uma literatura empĂ­rica sobre a relação entre crime e desempenho educacional, por exemplo, sugere que a falta de segurança pode prejudicar significativamente o sucesso acadĂȘmico. Em Urban Studies, um grupo de acadĂȘmicos descobriu que a exposição repetida Ă  violĂȘncia criminal em seus quarteirĂ”es afetava negativamente o desempenho em testes padronizados de alunos de Nova York. Descobertas semelhantes foram feitas em Chicago, onde acadĂȘmicos ligaram o pior desempenho dos alunos em avaliaçÔes acadĂȘmicas Ă  exposição a um homicĂ­dio na semana anterior Ă  avaliação.

Um estudo publicado em 2018 mostrou como os ataques do “Atirador do Beltway” em 2002 “reduziram significativamente as taxas de proficiĂȘncia em nĂ­vel escolar em escolas num raio de oito quilĂŽmetros de um ataque”. Outra anĂĄlise da ligação entre violĂȘncia armada e desempenho em testes padronizados em Syracuse, Nova York, entre 2009 e 2015, descobriu que “as pontuaçÔes em testes padronizados estaduais de lĂ­ngua inglesa e matemĂĄtica foram 50% menores em escolas de ensino fundamental localizadas em ĂĄreas com maior concentração de tiros, do que em escolas de ensino fundamental em ĂĄreas com menos tiros” e que “nĂ­veis mais altos de violĂȘncia armada nas ĂĄreas de abrangĂȘncia escolar estavam significativamente associados a taxas mais altas de reprovação em lĂ­ngua inglesa e matemĂĄtica”. Um estudo de 2019 no The Russell Sage Foundation Journal of the Social Sciences documentou: “Alunos do ensino fundamental expostos Ă  violĂȘncia criminal no bairro antes do exame de lĂ­ngua inglesa que frequentam escolas percebidas como menos seguras ou com um senso fraco de comunidade obtĂȘm pontuaçÔes 0,06 e 0,03 desvios-padrĂŁo mais baixas, respectivamente.”

O desempenho educacional Ă© um preditor-chave, e talvez atĂ© um prĂ©-requisito, da mobilidade econĂŽmica — outro resultado moldado pela violĂȘncia criminal. Um estudo frequentemente citado descobriu que “uma queda de um desvio-padrĂŁo no crime violento experimentado no final da adolescĂȘncia aumenta a posição esperada de renda na idade adulta em pelo menos 2 pontos”. O estudo tambĂ©m descobriu que “uma queda de um desvio-padrĂŁo na taxa de homicĂ­dios aumenta a posição esperada de renda em cerca de 1,5 pontos”. Isso faz sentido intuitivo: se sua adolescĂȘncia for dominada por preocupaçÔes com segurança pessoal, quanto vocĂȘ consegue se concentrar em atender aos requisitos para o sucesso econĂŽmico?

Embora muitas cidades americanas tenham tido quedas recentes no crime, os níveis de crime nos bairros mais problemåticos permanecem muito acima do que pode ser considerado toleråvel. Em um artigo publicado no Journal of the American Medical Association, Brandon del Pozo, da Brown University, e coautores descobriram que, em alguns bairros americanos, o risco de morte violenta para jovens homens excedia o enfrentado por tropas de combate americanas na linha de frente no Iraque e no Afeganistão. Mesmo em bairros de alto crime que ficam abaixo desse patamar, as taxas de homicídio são muitas vezes superiores à média nacional.

Nos bairros com os maiores problemas de crime, permanecer seguro exige trabalho real e esforço mental. NĂŁo Ă© de surpreender, entĂŁo, que as evidĂȘncias disponĂ­veis pareçam sugerir que a violĂȘncia no bairro tambĂ©m estĂĄ associada a pior saĂșde mental, incluindo ansiedade e depressĂŁo clinicamente significativas. Essa foi a conclusĂŁo predominante de uma revisĂŁo de literatura de 2021 publicada em Social Science & Medicine.

O crime tambĂ©m pode ter efeitos concretos sobre o ativo que muitas vezes representa a maior parte da riqueza da famĂ­lia americana mĂ©dia: sua casa. A taxa de posse de casa nos EUA era de pouco menos de 66% em 2022. De acordo com a Pew Research, “metade dos proprietĂĄrios de imĂłveis americanos derivava mais de 45% de sua riqueza apenas do patrimĂŽnio imobiliĂĄrio”. Essa parcela Ă© ainda maior para proprietĂĄrios negros e hispĂąnicos, para quem os valores das casas constituem entre 63% e 66% da riqueza total. Destaco essa disparidade porque os americanos negros e hispĂąnicos carregam um peso desproporcional do problema da criminalidade no paĂ­s. Em depoimento perante a ComissĂŁo de Direitos Civis dos EUA em 2023, apresentei os fatos relevantes sobre essa disparidade.

Avalie este trecho ilustrativo: “Em Nova York, 
 no mĂ­nimo 95% de todas as vĂ­timas de tiros e 85% de todas as vĂ­timas de homicĂ­dio foram negras ou hispĂąnicas todos os anos desde 2008, apesar de esses grupos representarem apenas 52% da população da cidade. 
 Em relação Ă  sua parcela da população, esses grupos tambĂ©m sĂŁo consistentemente super-representados estatisticamente entre as vĂ­timas de estupro, roubo e agressĂŁo criminosa.” Enquanto isso, “em Chicago, onde 57,9% da população Ă© negra ou hispĂąnica, esses grupos constituĂ­ram 95% das vĂ­timas de homicĂ­dio em 2019, 96% em 2020, 96% em 2021 e 95% em 2022. 
 Em relação Ă  sua parcela da população da cidade, esses grupos tambĂ©m sĂŁo consistentemente super-representados estatisticamente entre as vĂ­timas de roubo, agressĂŁo agravada, agressĂŁo sexual criminal, agressĂŁo agravada e crime violento em geral.”

Isso deveria importar mais para os formuladores de polĂ­ticas progressistas, que em grande parte atribuem a disparidade racial de riqueza Ă s diferenças na posse de casa. A National Community Reinvestment Coalition, por exemplo, observa: “Para a maioria das famĂ­lias, sua casa Ă© a principal forma de armazenar e construir riqueza. A lacuna de posse de um imĂłvel entre negros e brancos Ă©, portanto, o principal motor da divisĂŁo racial de riqueza entre negros e brancos. 
 Na verdade, entre 2013 e 2022, mais de 90% dos ganhos de riqueza para os americanos negros vieram da posse de um imĂłvel.” Esperar-se-ia, entĂŁo, que os progressistas autoproclamados calibrassem suas polĂ­ticas de segurança pĂșblica para proteger os valores das casas das mesmas pessoas cujos interesses afirmam representar.

Numerosos estudos ligaram empiricamente crime e valores imobiliĂĄrios. Uma anĂĄlise de 2019 baseada na SuĂ©cia descobriu: “Ao mover uma casa 1 km mais longe de um ponto quente de crime, seu valor aumenta em mais de 30.000 coroas suecas (cerca de 2.797 euros).” Um estudo de 2012 baseado em dados do Reino Unido descobriu que “cada caso adicional de comportamento antissocial reduz os preços das casas na mesma rua em aproximadamente 1%, e cada caso adicional de crime violento em 2%.” Em 2013, o Banco Interamericano de Desenvolvimento analisou como os valores de propriedades residenciais no Brasil eram afetados pelas percepçÔes de segurança pĂșblica, estimando que “aumentar o senso de segurança no lar em um desvio-padrĂŁo aumentaria os valores mĂ©dios das casas em R$ 1.513 (US$ 757), ou cerca de US$ 13,6 bilhĂ”es, se aplicado a todos os 18 milhĂ”es de domicĂ­lios na ĂĄrea de estudo.” Note que alguns desses efeitos foram impulsionados por percepçÔes de segurança — evidĂȘncias extensas, apoiadas pela teoria das Janelas Quebradas, mostram que a percepção Ă© influenciada nĂŁo apenas pelo crime, mas tambĂ©m por sinais visĂ­veis de desordem.

E funciona nos dois sentidos: a queda no crime eleva os valores das casas. Um artigo de 2012 do Center for American Progress, estudando oito cidades dos EUA, descobriu que “uma redução de 10% nos homicídios expandiria substancialmente as receitas de impostos sobre propriedade em todas as oito cidades”.

O efeito nĂŁo se limita aos valores de propriedades residenciais. No Journal of Regional Science, uma colaboração entre o NYU Furman Center, o Ziman Center da UCLA e o Federal Reserve encontrou evidĂȘncias sugestivas de que o crime deprime os valores de propriedades comerciais e que o impacto negativo era mais forte “em bairros com rendas mais baixas e maiores proporçÔes de residentes minoritĂĄrios”.

Muitos lĂ­deres comunitĂĄrios pedem, compreensivelmente, mais investimentos em bairros carentes que lutam contra altos nĂ­veis de crime. No entanto, raramente os ouvimos pressionando os lĂ­deres locais a reprimir esse crime. Anos recentes ofereceram muitos exemplos de como a falha em controlar a desordem torna o investimento menos atraente — incluindo os fechamentos amplamente noticiados de farmĂĄcias e lojas de grande porte que enfrentavam altos nĂ­veis de furto no varejo. Um estudo de 2022 no Journal of Urban Economics descobriu que taxas de crime mais altas reduziam a disposição dos consumidores em visitar estabelecimentos nos bairros afetados, particularmente Ă  noite. EvidĂȘncias sugerem que o crime nĂŁo apenas afasta clientes de fora da comunidade, mas tambĂ©m erode a base de clientes residentes. Em uma anĂĄlise influente de 1999 publicada no The Review of Economics and Statistics, Julie Cullen e Steven Levitt encontraram declĂ­nios populacionais substanciais relacionados ao crime, impulsionados pela migração para fora.

A acessibilidade financeira nĂŁo se cria sozinha — Ă© um subproduto de boas polĂ­ticas. EntregĂĄ-la requer mais do que subsĂ­dios para coisas que ficaram mais caras. Nem “acessĂ­vel” Ă© sinĂŽnimo de “bom”. Deixar o crime e a desordem saĂ­rem do controle pode reduzir os valores das casas, por exemplo, mas poucos contariam isso como um triunfo da acessibilidade financeira. O objetivo deve ser tornar as coisas boas mais acessĂ­veis, e isso significa criar condiçÔes em que os residentes possam adquirir as habilidades e os ativos necessĂĄrios para sustentar uma qualidade de vida mais alta. Segurança e ordem pĂșblica sĂŁo prĂ©-requisitos para esse progresso. Os formuladores de polĂ­ticas que prometem “acessibilidade financeira” deveriam lembrar uma lição que a maioria de nĂłs aprendeu quando criança: segurança em primeiro lugar.

Rafael A. Mangual Ă© o Nick Ohnell Fellow no Manhattan Institute, editor do City Journal e autor de Criminal (In)Justice.

©2026 City Journal. Publicado com permissĂŁo. Original em inglĂȘs: Nothing Costs Like Crime

Fonte: gazetadopovo

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